Por Carlos Sena (*)
“Eu prometo que se for eleito, farei uma ponte
aqui neste local!” – Mas, candidato, aqui não passa rio!
– Eu também farei passar um
rio!
1 – Nos tempos em que as urnas
das eleições não eram eletrônicas, uma amiga era escrutinadora aqui no Recife.
Pra quem não sabe eram assim que se chamavam as pessoas escolhidas para, trancafiadas
no Fórum da cidade, contarem os votos. Isto levava em torno de oito dias
dependendo do tamanho da cidade. Essa minha amiga, muito unida com a sua irmã,
foi convencida por ela de que era pra votar em certo candidato a vereador.
Minha amiga não gostava muito do candidato que sua irmã oferecera, mas decidiu
aceitar a sugestão para não criar confusão. A irmã não contava que minha amiga
seria escrutinadora exatamente da urna em que ela irida depositar seu voto. Sem
dizer nada, minha amiga que conhecia a letra da sua irmã, discretamente foi
verificando um a um os votos. Quando chegou a vez da secção que sua irmã votou,
decepção. O candidato que ela obrigou a irmã a votar não foi votado por ela
própria. Minha amiga se arretou e aí, sim, não foi possível evitar um bate
boca...
2 – Num pequeno distrito de
Bom-conselho-PE, um líder local garantiu ao principal candidato a prefeito que
sua terra – Rainha Izabel, daria a vitória àquele candidato. Urnas abertas, mas
o candidato a prefeito estava perdendo. Contudo as fichas todas estavam nas
urnas de Rainha Izabel. Era feito a “virada de Marcos Freire” que, como tal,
também não veio. As urnas de Rainha foram abertas, mas foram um fracasso total.
O candidato em questão perdeu a prefeitura, mas o líder local, ao microfone
vociferou: “traíram mamãe”. Depois eu soube que ele não era o líder de Rainha,
mas sua mãe... Fazer o quê? Afinal, urnas e bumbum de criança a agente nunca
sabe o que sai delas.
3 – Sempre que mamãe ia votar, eu
ia junto. Eleição no interior era e continua sendo uma festa. Enquanto mamãe
votava a gente ficava no grupo escolar no aguardo. Nesse espaço de tempo
chegava um, chegava outro e ficava aquela fofoca geral. Em determinado momento,
mamãe chega e ficamos juntos em conversa mole. De repente, sai do local de
votação um amigo da família que morava no sítio. Era como si dizia um matuto.
Ele entra em nossa conversa dizendo: “madrinha, agora deixei de ser gente”! Eu
fui pra casa sem entender, mas logo entendi. O pior é que essa “sociologia”
rural ainda está vigendo até hoje...
4 – Em Bom Conselho – terra
dominada politicamente pelo Coronel José Abílio Ávila, as história eram as mais
diversas. Embora meio fantasiosas, havia quem dissesse que eram verdadeiras,
embora meio surreais para os tempos de hoje. Histórias de quem votava nele
porque ele pagava o enterro dos seus filhos mortos; histórias de quem só votava
em quem ele mandasse porque “em politica o feio era perder” e, desta forma: as
urnas sempre davam a seu favor. Se o problema era dinheiro ele dava, mas só uma
banda do dinheiro. A outra só depois da eleição. Dentadura? Ele também dava.
Milheiros de tijolos? Ele também dava. Surra? Ele também mandava dar em quem
lhe enganasse ou não cumprisse o prometido votando nele ou no candidato por ele
recomendado. Claro que há um folclore em cima disto, mas que há verdades nas
entrelinhas, há.
Depois eu volto com mais
histórias histéricas.
--------------
(*) Publicado no Recanto de
Letras em 31/08/2012
Eu também fui escrOtinador aqui em Recife, por muito tempo. Só que ficava trancafiado no Clube Náutico Capibaribe. (Desculpem-me por falar em alvi-rubros). - Nós passávamos cerca de dez dias contando votos na munheca e fazendo mapas e mais mapas totalizadores. - Ao terminar, o juiz, que era legal e era sempre o mesmo, dava 15 dias de folga pra nós descansarmos. Pois trabalhávamos até a noite, com ele. Era bom que só! - 2. Por falar em pontes e rios, eu soube que a partir de janeiro 2013 começarão as obras para construção de uma ponte na frente da Igreja Matriz de Bom Conselho. - E que depois da ponte concluída, começará a construção do rio. Vai ser muito legal. Mas o rio tem de ser subterrâneo, pra não inundar a cidade. Senão seria um desastre garantido. - 3. E MUITAS pessoas deixam ser GENTE depois que votam. Problema delas. -4. Quanto ao que você fala do "coronel" Zezé Abílio, NÃO tem folclore, nem fantasias nisso, NÃO. - Alguns dos meus tios mais metidos a gente, sempre se diziam "amigos" dele. - E eu me criei entre Bom Conselho, Palmeira dos Índios e Quebrangulo. Portanto, sei de tantas coisas dali, que vocês nem imaginam./.
ResponderExcluirNo item 3, do meu comentário acima, onde se lê: "E MUITAS pessoas deixam ser GENTE depois que votam." - LEIA-SE: - "E MUITAS pessoas deixam DE ser GENTE depois que votam." - Notem que faltou a preposição DE na frase anterior. - OBRIGADO./.
ResponderExcluir