Em manutenção!!!

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

O populismo é o cancro da Democracia




“As mentiras do populismo

O Estado de S. Paulo

Palanque é uma tribuna da qual o político fala diretamente ao povo em torno dele reunido. Nessas circunstâncias, é natural que seja usada uma linguagem coloquial, popular, acessível a todos. É uma questão de adaptar a mensagem, em sua forma, ao público-alvo. O conteúdo dessa mensagem, no entanto, independentemente da forma por meio da qual é transmitido, precisa ser verdadeiro. Mentir no palanque, na tentativa de conquistar apoio, é ludibriar a boa-fé do ouvinte. Pois é mentir para o povo o que Lula e o PT vêm fazendo desavergonhadamente na tentativa de antecipar a campanha presidencial.

“Desemprego bate recorde no Brasil. Falta de repasses fecha universidades. Temer corta milhares do Bolsa Família. Reformas dificultam aposentadorias e retiram direitos. Agora querem até retirar o seu direito de escolher um presidente.” Essas deslavadas mentiras, proclamadas em tom dramático por um locutor, estão no filmete de 30 segundos inserido pelo PT no horário político na TV. Ao final, surge a presidente nacional do partido nomeada por Lula, senadora Gleisi Hoffmann (PR): “O PT já demonstrou que é possível crescer com democracia, combatendo as desigualdades e gerando empregos. Vamos juntos defender o Brasil”.

O exemplo mais contundente da capacidade de proclamar mentiras, numa hábil e emotiva linguagem popular talhada para levar convertidos e desinformados ao delírio, foi dado no recente périplo eleitoral de Lula pelo Nordeste.

Lula no Recife, ao lado de Dilma Rousseff: “Eles querem acabar com o Bolsa Família. Querem acabar com o Minha Casa, Minha Vida. Querem vender a Petrobrás. Querem acabar com o BNDES. Querem vender o Banco do Brasil. Estão vendendo até a Casa da Moeda. (...) Se eles não sabem governar, por favor, deixem quem foi eleita pelo povo voltar e terminar o seu mandato”.

Lula em Altos, Piauí, contando que num comício seu havia um cidadão trabalhando com “uma maquininha de descascar laranja”: “Mandei comprar meia dúzia de laranjas e comecei a chupar laranja e jogava fora o bagaço. Foi quando vi que tinha umas crianças pegando os bagaços e comendo. Essa foi uma imagem que eu...”. Com a voz embargada, Lula começa a chorar e não termina a frase.

Lula recebendo o título de Doutor Honoris Causa na Universidade Federal do Piauí, em Teresina: “Tem uma coisa de que eu me orgulho, é o orgulho que o nordestino passou a ter de si mesmo depois que eu fui eleito presidente da República. (...) Nunca antes nesse país um presidente da República se reuniu com reitores. Eu, durante oito anos, todos os anos me reuni com todos os reitores das universidades juntos”.

No encerramento da excursão nordestina, na capital maranhense, São Luís, Lula já havia declarado, em evento anterior, que “um presidente precisa ter claro para quem governa”, surpreendendo quem imaginava que um presidente da República deve governar para todos. No comício final, caprichou na repetição de uma peça de retórica populista que invariavelmente deixa o público em êxtase. Após descrever detalhadamente a “apoteose” que viveu em cada uma das cidades visitadas, Lula fez uma pausa dramática e concluiu: “Estou cansado, mas estou feliz da vida. (...) Esse não é o cansaço da covardia. É o cansaço da batalha, da labuta. E estou aqui, cansado, para dizer para eles que se quiserem me derrotar que venham para a rua disputar voto”.

Fora do mundo da fantasia, tudo sugere que após a delação de Antonio Palocci e de seu próprio depoimento, pela segunda vez, perante o juiz Sergio Moro, quando se mostrou irritadiço e às vezes inseguro, num desempenho inconvincente, Lula talvez esteja começando a se convencer de que o melhor papel que poderá interpretar daqui para a frente será o de mártir. Poderá contar sempre, é claro, com a devoção daqueles em quem desperta a fé cega. Mas, se o caos político que ele legou ao País deixou muitos brasileiros perplexos quanto ao futuro, pelo menos ajudou-os a saber exatamente o que não querem mais.”

-----------
AGD comenta:

Alguém já disse, e se não disse eu o digo agora, que, o populismo é o cancro da Democracia. Ele se caracteriza pela sua capacidade de enganar à maioria desinformada, que, quase sempre é a maioria que vota.

E o Lula, como bem demonstrado nos exemplos acima pelo Estado de S. Paulo, é um craque na matéria. E ele é a prova viva porque o populismo ainda sobrevive, e bem vivo entre nós. Lula não fez um mau governo o tempo todo. Inicialmente, cercado pelo Palocci e outros com visões menos populistas, ele conseguiu internalizar para o país o bom momento da economia mundial com o crescimento gigante da China.

O grande problema, é que seu final de governo e os de Dilma Roussef que, populisticamente, ele conseguiu eleger, quase levaram o país á breca, se não fosse o providencial impeachment. E agora, pasmem, ele está usando as mesmas armas para voltar, mentindo a tudo e a todos.

Eu disse numa rede social que o Lula hoje se comporta como um santo à beira do martírio, pela adoração dos que o seguem, catatonicamente, sem nem mesmo piscar. Até o epitetei de “São Lula Jadeu, o santo das mentiras impossíveis”. E é de se perguntar, será que veremos tudo de novo?

Outro fato relevante sobre o populismo é sua não predileção pela direita ou pela esquerda, e está aí o Trump que não me deixa mentir. E aqui no Brasil temos o Bolsonaro com sua pretensão à presidência cuja maior proposta diz respeito à segurança, dentro do mote de que “bandido bom é bandido morto”, além de outros chavões populistas de baixa qualidade mas que dão votos.

E é dentro deste diapasão que esta semana se discutiu muito o discurso de um General que pregava ser a intervenção militar uma solução para todos nossos problemas. Mesmo se não fosse pelo aspecto disciplinar, cujos regulamentos proíbem as manifestações militares deste jaez em público, restou ao referido militar dizer como sairíamos da crise em que nos encontramos, a partir de uma intervenção militar.

Será que ele pensa que os militares seriam capazes de transformar a água em vinho, tornando-se santo como pretende o Lula? Isto nada mais é do que populismo em estado puro. O povo adora soluções mágicas e esta seria mais uma delas, e agora prometida por uma instituição respeitada como é as nossas Forças Armadas.


Cabe a nós, um poquinho mais informados conter sua sanha assassina de Democracia. Venha ele da direita ou da esquerda, de baixo o de cima,  temos que ficar atentos, se quisermos que nosso país não regrida mais uma vez politicamente, com base naquilo que é fundamental, que é o voto. Ou seja, precisamos chegar aos votantes a mensagem de que urna não é pinico, e que voto deve é mais do que algo que os pinicos são usuários.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Lula está mentindo ou o Palocci está dizendo a verdade?




“A mentira mais verdadeira

Por Marco Aurélio Nogueira

Foi Lula quem a descobriu, no depoimento prestado a Sergio Moro, dia 13 de setembro. Fez parte do lançamento de um míssil contra Antonio Palocci, seu ex-auxiliar preferido. A intenção foi estigmatizar o delator, tachá-lo de “traidor”. Lula, por isso, buscou a jugular: Palocci é “frio e calculista, tão esperto que é capaz de simular uma mentira mais verdadeira que a verdade”.

O expediente de Lula não é novo nem original. Na atual fase de denúncias e investigações, todos os acusados – sem exceção – tentam fugir de seus acusadores valendo-se da presunção de inocência e da falta de provas materiais. Todos alegam não saber do que se trata, que sempre agiram dentro da lei, que as acusações não passam de “mentira” para “criminalizar” a atividade política, tudo nada mais sendo que o resultado das pressões ilegais que a Polícia Federal e o juiz Moro fazem para arrancar delações de pessoas emocionalmente fragilizadas.

Mentiras, como sabemos, têm pernas curtas. Depois de três anos de Lava Jato, se algo houvesse de mentira na montanha de investigações e depoimentos acumulados pela operação certamente já teria aparecido. As narrativas dos que denunciam são convergentes. Todos falam as mesmas coisas, apresentam os mesmos fatos, citam as mesmas datas e os mesmos personagens. Seria preciso que houvesse por trás de tudo um plano sórdido, urdido em segredo e coeso o suficiente para ser assimilado pelos inúmeros agentes do MP e da PF, bem como pelos igualmente numerosos delatores e testemunhas. Não é razoável que se pense assim, ainda que se possa imaginar que no peito de Moro bata um coração antipetista, o que não está a ser corroborado pelos fatos.

Mentira verdadeira pode se aproximar de um oxímoro: mentira e verdade, associação de dois termos que se contradizem. Uma verdadeira mentira, porém, é uma mentira categórica, evidente, que se impõe com clareza. Não contar a verdade e mentir são coisas distintas, e nem todo mentiroso oculta a verdade, ou porque não o consegue ou porque não lhe interessa: sua intenção pode ser finalmente sair da zona cinzenta da mentira para a área iluminada da verdade, ganhando alguma imunidade ou paz de espírito com isso. Como Palocci.

Já as verdades de Lula não são tão transparentes e coerentes assim. São verdades fracas, pouco convincentes, mais próximas da mentira ou da dissimulação.

Em suas diferentes nuances, a mentira é um traço constitutivo da conduta dos políticos, especialistas em simular e dissimular. Não foi por acaso que tantos pensadores associaram a política à “arte do engano”. O demagogo circula com facilidade nos ambientes políticos. Ele promete, adula, busca seduzir, sem se importar com o cumprimento de suas promessas. Ilude, mais do que mente. Durante os períodos eleitorais, a mentira transita livremente. Hoje, com as redes, as fake news complicam ainda mais a situação.

Você não precisa gostar do Dr. House para achar que todos mentem, em maior ou menor grau. A mentira integra o rol de características e de recursos dos humanos. Mente-se para ocultar algo, para se defender de ataques, encobrir atos feios, dissimular emoções. Há até mesmo as mentiras altruístas, tidas como “inofensivas”, próximas de “nobre mentira” de Platão, que são cometidas para proteger alguém, preservar os interlocutores de alguns dissabores ou poupá-los de más notícias. Os poderosos costumam se cercar de assessores que somente lhes contam o que gostariam de ouvir.

Quando alguém se torna mentiroso contumaz, compulsivo, tem-se uma patologia. A mitomania é uma doença, mas há muitas pessoas não diagnosticadas que se acham acima do bem e do mal, não admitem ser criticadas e que se descontrolam quando pegas com a mão na botija, ou seja, quando se revelam coisas que elas gostariam de manter escondidas.

Em suma, a mentira é muito mais frequente nas interações humanas do que se pensa. Na política, ela tem status especial, pois admite-se que possa ser praticada como parte de uma ética que também é especial.

Maquiavel escreveu que se o príncipe não puder ser competente em tudo, deve ao menos parecer sê-lo, especialmente quando isso diz respeito à imagem que deseja passar aos governados. O Cardeal Mazarin, em seu famoso Breviário, não teve qualquer prurido em recomendar aos políticos que disfarçassem todas as emoções e vestissem a máscara da “perpétua amenidade”, ocultando tudo o que pudesse comprometê-los. O filósofo inglês Francis Bacon chegou mesmo a considerar que as mentiras costumam receber “os maiores favores” porque carregam consigo “um natural mas corrompido amor pela própria mentira”.

A mentira verdadeira de Palocci está sendo elaborada para salvar a pele e escapar da prisão. Ela obriga o ex-ministro a comprometer antigos companheiros, parceiros de trambicagens e meros conhecidos, pessoas que caíram numa rede de ilícitos difícil de escapar. Deve ter se desiludido com tudo e nas conversas que tem mantido com o travesseiro na cela onde tem passado os últimos meses deve ter chegado à conclusão de que lhe sobram pouquíssimas alternativas. Contar a verdade pode significar, para ele, a porta da liberdade. Se “mentir simulando uma mentira mais verdadeira que a verdade”, como pensa Lula, o ex-ministro entrara em contradição com suas próprias intenções: se mentir, não obterá o prêmio almejado.

A verdade de Lula, por sua vez, poderia ser vista como “mentirosa”, feita para dissimular, esconder e ganhar tempo. Lula nega tudo, peremptoriamente, com a maior cara de paisagem, chegando ao ponto de descarregar parte das responsabilidades nas costas da finada Dona Marisa. Não há um fato, um papel, uma conta, uma reunião, um encontro, uma viagem, uma transação, um episódio que ele admita. Em sua narrativa, parece nem sequer conhecer bem Palocci, um personagem com quem teria se encontrado poucas vezes nos últimos anos.

Palocci, agora, afirma que chegou a entregar pessoalmente a Lula, em 2010, maços de 30 e 50 mil reais in cash, além de quantias maiores para o Instituto Lula por meio de emissários. O dinheiro teria vindo da conta “Amigo”, mantida pela Odebrecht, e serviria para custear as despesas pessoais do ex-presidente. Lula, por certo, dirá que a revelação integra a mesma estratégia dedicada a criminalizá-lo injustamente.

A grande diferença é que a mentira verdadeira de Palocci parece ter lastro. É coerente, bate com outros relatos e desvenda um mapa articulado. Já a verdade nem tão verdadeira de Lula sustenta-se exclusivamente em negativas.

No primeiro caso, parece uma verdade que se quer apresentar como se fosse mentira. No segundo, tem a cara de uma mentira que se pretende difundir como verdade.

Mazarin e Maquiavel olhariam a cena de soslaio e voltariam para seus gabinetes com tédio e indiferença.

-------------
AGD comenta:

O texto acima se impõe por si mesmo. O que é a “verdade” (ou mentira) já era uma preocupação de Jesus quando perguntou no templo o que seria isto. Mas, foram tantas as mentiras que o Lula pregou a esta nação nos últimos tempos que é difícil não associar suas palavras a definições definitivas de mentiras.

Já diziam quando a esperteza é muito grande pode comer o experto. Penso que a mentira também, mesmo que não coma, enrola muito.

E vejam o caso do Palocci que está sendo expulso do PT por ter falado o que falou de Lula. Então só pode ser porque mentiu. Ou não? De qualquer forma o PT criou uma definição muito cômoda para verdade e mentira, sua antítese, dentro da política brasileira.

Quem fala mal de Lula mente, e quem fala bem diz a verdade. É incrível, porque, pensando bem, nas campanhas eleitorais esta é a definição mais precisa que existe para afirmações ou negações de todos.

E numa República, na qual os poderes são divididos, os julgadores se algo é mentira ou verdade são basicamente dois: O eleitorado ou o Judiciário. É óbvio, como comentamos ontem aqui, que a lerdeza temporal deste último para os casos passados, levam a que suas decisões nunca venha em igualdade de condições como o primeiro que normalmente julgam casos futuros.

Então, voltamos sempre à estaca zero, e neste caso de Palocci x Lula, uma decisão de quem está mentindo ou não, vai depender de um tempo que só o Judiciário tem, mas, o eleitorado não tem. Certamente, só vamos saber a solução do eleitorado em 2018 e a solução do Judiciário, alguém sabe?

Lembrei do caso do Fernando Collor que foi defenestrado pelo legislativo e inocentado pelo judiciário. Já no caso de Lula, pessoalmente, acho que ele está mentindo, tanto por um quanto por outro.


A conferir!

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Quebrou-se o mito




“Quebrou-se o mito

O Estado de S. Paulo

A Constituição de 1988 foi um valioso instrumento para consolidar a redemocratização do País, resgatando o respeito a importantes direitos e garantias fundamentais. Deve-se reconhecer, no entanto, que ela também trouxe alguns sérios problemas, que até hoje dificultam o desenvolvimento político, econômico e social da Nação. Várias reformas constitucionais foram feitas, mas os desequilíbrios ainda persistem e, em alguns casos, foram agravados. Basta ver, por exemplo, o tratamento dado pelo texto constitucional a supostos direitos, sem a necessária contrapartida e, pior, sem condicioná-los à existência de recursos. Um grave problema fiscal foi introduzido no próprio fundamento do Estado.

Outro sério problema institucional trazido pela Constituição de 1988 foi o tratamento dado ao Ministério Público, contemplado com uma autonomia que, a rigor, é incompatível com a ordem democrática. Num Estado Democrático de Direito não deve existir poder sem controle, interno e externo. Não há poder absoluto. Explicitamente, a Constituição de 1988 não confere poderes absolutos ao Ministério Público, mas, da forma como ele está organizado, sem hierarquia funcional, cada membro da instituição torna-se a própria instituição.

Ao longo dos anos, esse problema foi agravado por dois motivos. Em primeiro lugar, consolidou-se nos tribunais uma interpretação extensiva das competências do Ministério Público. Obedecendo a uma visão unilateral, que olhava apenas para os supostos benefícios de uma atuação “livre” do Ministério Público, permitiu-se que procuradores se imiscuíssem nos mais variados temas da administração pública, desde a data do vestibular de uma universidade pública até a velocidade das avenidas. Parecia que o Estado nada podia fazer sem uma prévia bênção do Ministério Público.

A segunda causa para o agravamento da distorção foi uma bem sucedida campanha de imagem do Ministério Público, que, ao longo dos anos, conseguiu vincular toda tentativa de reequilíbrio institucional à ideia de mordaça. Qualquer projeto de lei que pudesse afetar interesses corporativos do Ministério Público era tachado, desde seu nascedouro, de perverso conluio contra o interesse público. O resultado é que o País ficou sem possibilidade de reação.

Na prática, a aprovação no concurso público para o Ministério Público conferia a determinados cidadãos um poder não controlado e, por isso mesmo, irresponsável. Nessas condições, não é de assustar o surgimento, em alguns de seus membros, do sentimento de messianismo, como se o seu cargo lhes conferisse a incumbência de salvar a sociedade dos mais variados abusos, públicos e privados. Como elemento legitimador dessa cruzada, difundiu-se a ideia de que todos os poderes estavam corrompidos, exceto o Ministério Público, a quem competiria expurgar os males da sociedade brasileira.

Nos últimos três anos, esse quadro foi ainda reforçado pelos méritos da Lava Jato, como se as investigações em Curitiba conferissem infalibilidade aos procuradores e um atestado de corrupto a todos os políticos. Os bons resultados obtidos ali foram utilizados para agravar o desequilíbrio institucional.

Construiu-se, assim, a peculiar imagem de um Ministério Público inatingível, como se perfeito fosse. Basta ver, por exemplo, o escândalo produzido quando o Congresso não acolheu suas sugestões para o combate à corrupção. A reação dos autores do projeto foi radical: ou os parlamentares aceitavam todas as vírgulas – com seus muitos excessos – ou seriam comparsas da impunidade.

Pois bem, esse monopólio da virtude veio abaixo nos últimos meses de Rodrigo Janot à frente da Procuradoria-Geral da República (PGR). Ações radicais e destemperadas deixaram explícita a necessidade de que todos, absolutamente todos, estejam sob o domínio da lei, com os consequentes controles. Poder sem controle não é liberdade, como alguns queriam vender, e sim arbítrio.

Na crise da PGR envolvendo a delação de Joesley Batista há uma incrível oportunidade de aprendizado e de reequilíbrio institucional. Com impressionante nitidez, os eventos mostram que também os procuradores erram.”

------------
AGD comenta:


Sem comentários

Ou o Legislativo funciona ou chamem o D. Pedro III




“Só tem saída pelo Legislativo

Por Fernão Lara Mesquita

O Brasil não se lembra mais, mas foi só a partir de setembro de 2015 que o STF pôs o financiamento privado fora da lei, valendo para 2016. Todo o Congresso Nacional, o presidente e seu vice e os governadores eleitos em 2014 tiveram campanhas financiadas pelo padrão anterior. Os partidos arrecadavam, prestavam contas gerais ao TSE e distribuíam como quisessem o dinheiro entre seus candidatos. Estes podiam ter doações individuais também, mas, dispensados de identificar o doador inicial, não precisavam se preocupar com a origem do dinheiro (o que não significa necessariamente nem que ela fosse sempre suja, nem que todos desconhecessem sempre a origem do seu quinhão).

O projeto hegemônico do lulismo e o salto nas proporções e no significado da corrupção implicados, descritos minuciosamente na sentença do mensalão, confirmaram que condescender com esse sistema era um convite ao escancaramento das portas do inferno, e cá estamos nós. Mas essa era a lei e o País conviveu pacificamente com ela desde o fim do regime militar.

Se não se lembrar logo de que os tempos foram assim e seguir embarcando na cobrança com a lei de hoje da ausência de lei de ontem, aceitando a indiferenciação entre “contribuição de campanha” e “propina”, acostumando os ouvidos à identificação de “distribuição de verba de campanha” com “partilha de suborno”, o Brasil vai saltar para o colo de uma ditadura. Não pela adesão a esta ou àquela ideia, candidato ou partido, mas por exclusão. Como consequência da destruição, um por um, dos personagens que encarnam a instituição criada para construir saídas negociadas e consentidas e da sobrevivência apenas das que existem para exercer o poder ou impor sanções e barrar desvios à lei, seja ela qual for.

Na apuração de fatos para a imputação de responsabilidades por um determinado resultado a ordem dos fatores é tudo. A manipulação da cronologia chegou, entretanto, ao estado da arte neste país em que “nem o passado é estável”. Sim, sem forçar as leis que temos é impossível trincar a muralha da impunidade. Mas forçar a lei é desamarrar o poder, essa força telúrica que corrompe sempre e corrompe absolutamente quando desamarrada. E esse enorme risco calculado tem de ser levado minuto a minuto em consideração.

O acidente da hora introduziu em cena as “condenações premiadas”. Cada um busca leniência como pode e, graças à cumplicidade de seus pares, safou-se o procurador-geral – e seu fiel escudeiro – do flagrante delito com a penitência leve de, em 4 dias, requentar provas e espalhar denúncias para as quais tinha fechado os olhos durante 4 anos. Mas foi só um pânico passageiro. Reassegurado da sua intocabilidade, voltou ao estado de repouso a consciência de sua excelência. Desde então o País vem aprendendo rápido. Primeiro, que nada de muito essencial diferencia as partes envolvidas na negociação entre PGR e JBS para vender-nos (e uma à outra) gato por lebre e não entregar nem esse. Segundo, que sendo as culpas de quem as tem o que determina quem paga ou não pelas suas é a panela à qual pertence o culpado. E por último que quem decide qual tiro vai virar “bomba” ou ser reduzido a traque não é o calibre do fato, mas o tamanho do barulho que a televisão fizer em torno dele.

Os inocentes e os “iludidos”, que restam cada vez mais, tendem a estar, portanto, entre os que persistem em acreditar que as generalizações e a recorrência da subversão da ordem dos acontecimentos até nas altas esferas judiciárias em que se tornaram a regra sejam só erros fortuitos induzidos pela indignação. Mesmo que fossem, aliás, a consideração prática a não perder de vista nunca é que, anulados os representantes eleitos substituíveis a cada quatro anos, o que sobra são 11+1 que se nomeiam mutuamente para cargos vitalícios e que as rupturas da ordem democrática se dão, hoje, por falência múltipla das instituições de representação do eleitorado em processos espaçados em anos de “abusos colaborativos” dos que as minam por dentro e dos que as atacam por fora, até que se crie uma situação irreversível.

De qualquer jeito, se por um milagre do divino o Judiciário se tornasse blindado contra todas as tentações dessa luta pelo poder de criar e distribuir privilégios que está arrasando o Brasil, ele nada poderia fazer para nos desviar do rumo do desastre porque sua função não é reformar leis e instituições defeituosas, é impor o cumprimento das que existem do jeito que são, e as nossas estão reduzidas a instrumentos de expansão continuada e perenização dos ditos privilégios dos quais, incidentalmente, os servidores do Judiciário e do Ministério Público são quem mais nababescamente desfruta, tanto na ativa quanto depois de aposentados.

Exilado da modernidade e miserabilizado como todo povo reduzido à impotência pelos burocratas do Estado antes ou depois do Muro, o brasileiro só não encontrou ainda as palavras exatas para definir isto em que se transformou. Quem quiser que se iluda com as peripécias dos 200 da Bovespa. A arrecadação a zero é que dá o retrato do que estão vivendo os 200 milhões com a precisão implacável do supercomputador da Receita Federal, que só a Nasa tem igual. Os donos do Brasil investem em drenar o nosso bolso o que os Estados Unidos investem para conquistar o Universo, e nem um tostão a mais, e é isso que define a relação entre “nós” e “eles” que as nossas leis como são hoje impõem e o Judiciário exige.

Isso se chama es-cra-vi-dão.

Só o Legislativo pode mudar as leis. E quando faz isso obriga automaticamente o Judiciário. Por isso o Judiciário tem trabalhado com tanta fúria para comprometer a pauta do Congresso, a flechadas, com tudo menos com reformas que toquem nas leis que garantem a privilegiatura. Nada senão a força do povo pode destravar esse cabo de guerra. Mas só um ataque radical e inequívoco ao privilégio apresentado expressamente como a alternativa decente à exigência de mais sacrifícios para manter os dos marajás intactos pode tirar o povo da sua letargia.”

-----------
AGD comenta:

Se entendi bem o texto anterior, ele quer dizer simplesmente que não há salvação sem o “equilíbrio entre os poderes” de nossa República. E este equilíbrio só voltará se o Poder Legislativo começar a sair da modorra em que se encontrou por todos os anos de cooptação pelo lulo-petismo e comece a legislar para País.

Que está em curso uma tentativa de criminalização da política, para mim me parece óbvio. Isto não quer dizer que a política não comete seus crimes e nem que os juízes são vestais inocentes. Apenas significa que um depende do outro para que um sistema democrático funcione, nos moldes que nossa Constituição impõe.

Não adianta, hoje, como diz o texto, os juízes se basearem na Lei vigente, sem as correções necessárias dela pelos políticos (legislativo e executivo), quando acharem isto necessário e dentro de um prazo razoável. E hoje, com a velocidade dos acontecimentos ninguém acompanha ninguém, quando o Brasil tem pressa.

Eu, como quase um leigo em tudo isto, e mais 200 milhões de pessoas mais leigas do que eu, fico em dúvida completa quando me deparo com a falta de agilidade nas decisões. Uns dizem que a Lei vai levar o Brasil à breca (como é o caso do nosso Sistema Eleitoral), e apresentam suas soluções. Muitas vezes belas soluções, mas esquecem que o prazo para que elas vigorem fazem parte do problema e nunca se soluciona nada.

Tenho visto dizer que há sistemas eleitorais incríveis mas para serem colocados em prática em 2022, e outros até 2026. É entristecedor. Será que votarei em 2026? Isto não importaria se houvesse algo que nos incentivasse a esperar como observar os poderes trabalhando, porém, isto é o que não vemos, e sou forçado a dizer, pela falta de equilíbrio entre os poderes.


Como disse o autor que transcrevi acima, isto vai se transformar numa verdadeira ditadura, seja de que forma for. Vamos terminar preferindo uma Monarquia para agilizar a coisa. Chamem o Pedro III.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

BOCA DE SEPULTURA!




Por José Antonio Taveira Belo / Zetinho


No bar de Dona Nair em Rio Doce se reúne diariamente os bêbados do bairro. Logo cedinho começa a chegar àqueles que já estão à beira da sepultura, somente basta empurrar para a cova aberta no cemitério de Santo Amaro. Cada um tem um apelido que é chamado carinhosamente, muito não sabem o seu nome de origem nem a comunidade. Alguns andarilhos e outros moram nas imediações. Chegam por volta das sete horas da manhã. Vão se reunindo em torno de uma mesa posta no terraço e ali começa o dia. Uma garrafa da caninha 51 colocada na mesa com alguns copos já esperando os outros que devem chegar dentro de pouco tempo. Chegam sorridentes, cabelos assanhados, olhos vermelhos e lábios ressequidos. Uns já de tornozelos inchados, barrigudos e bochechas flácidas. Vêm alguns de chinelas já acabadas, camisas abertas no peito, alguns com um trancelim de santo ou mesmo um escapulário, para dar sorte, dizem cada um deles. Cabeleireira, já tem as mãos tremulas ao segurar o copo para a primeira bicada e como tira gosto um pedaço de manga verde; Boca Mole, outro ao chegar senta-se passando a mão nos rosto enxugando o suor e vem de um delírio tremulo; Boca Murcha um mulato de trancelim dourado pendurado no pescoço com a cruz de Cristo comprado nas mediações do Mercado São José, somente um dente onde raspa uma pitomba; Peia Mole, galego e sarara com seu metro e oitenta, ostenta uma tatuagem de uma moça dançante feita na Marinha quando servia, mas de acordo com a molecada, perdeu a consistência perdida pela cachaça; Todo Duro, um pequeno homem de barba desalinhada, pele enrugada, mostrando a sua idade de 70 anos, usando um boné vermelho desbotado com o escudo do Santa Cruz. Anda firme, elegante, tênis preto gabando-se aos seus amigos que é homem pra todo obra; Mole Ruge, um moreno finíssimo contando suas estórias do tempo que vivia na zona portuária do Recife. Era assídua das noitadas ali passeando pelas Ruas Vigário Tenório, Marques de Olinda, Madre Deus, Rio Branco nunca a Rua da Guia, olhando as meninas escoradas nas paredes, com um sorriso convidativo. Gostava de sentar-se e ouvir musica de Valdick Soriano, Orlando Dias e Silvinho diante de uma dose de Rum. Num dia de sábado por volta da meia noite, sentou-se a sua mesa uma bela morena, de sorriso escancarado, roupa curtinha, e ouvindo olhando para ele a musica de Ângela Maria – Será que eu sou feia? Respondia, Não é não senhor! Então eu sou linda? Você é um amor! E assim saíram os dois para um passeio noturno. Todos riram. Pregava ele, e todos os cachaceiros ouvia com atenção. Frequentava o Mole Ruge, Chantecler, Maria Mole, tomando aperitivos e dançando nos salões, voltando para casa no raiar do dia; outro freguês de Dona Nair, Boca de Sepultura, este sim, já beira da cova rasa. Já velho, desdentado, olhos repuxados, barba pra fazer e cabelos despenteados, sandálias japonesas, vestindo camiseta suada e bermuda velha mostrando as varizes que acumulava nas pernas e nos pés com as unhas defeituosas. Era o mais velho e bebia desde menino, na bodega de seu Zeca no interior vindo para a capital para viver bem. Era analfabeto, mas ouvinte sabia de todas as noticias pelo seu radinho de pilha. Lá pelo meio dia já estavam de porre. A algazarra era vista cada um falava desordenadamente, contava suas fantasias, a musica bregas e roedeiras ecoavam no pequeno bar/terraço, uns dançavam sozinhos, outros ria, outros já deitava a cabeça na mesa redonda já com algum tira gosta, outros sai cambaleando pela avenida falando e gesticulando falando com alguém imaginário. Dona Nair apreciava aquela cena. Gostava. Chamava meus meninos. Às vezes ria com suas estórias e assim mais um dia era vivenciado por ela com o pequeno rendimento e muitas vezes acostumada com o fiado.  Todos morreram, ficando o mais velho Boca de Sepultura, hoje, sentado num barzinho curtindo os últimos dias para ser jogado na sepultura. Dona Nair fecha o seu terraço/bar.