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sexta-feira, 16 de outubro de 2015

TIA CARLINDA


Bom Conselho - PE


Por José Antonio Taveira Belo / Zetinho


Filha de Mestre Véu e Ana da Silveira, quarta da prole de oito filhos. Nascida em Bom Conselho, morou na querida Rua Caborje, na casa de nº 84, onde Hélio Belo de Oliveira seu sobrinho habitou. Remexendo os meus bagulhos antigos, deparei-me com a fotografia da bela moça Carlinda. Sentada em uma poltrona cinza, com vestido branco com flores azuis, uma laço na cabeça, pulseiras, e colar de ouro. Sapato de salto baixo, branco. Um buque de rosas brancas pousado no colo. Olhar sério, sem nenhum sinal de alegria, impassível. Semblante duro e inflexível. Raramente ria. Não gostava de elogios, dizia logo vai pra lá com tuas conversas e saia para casa onde estivesse. Evitava este tipo de comentário, se escusava a acata-lo. Vivia para a casa onde morava ela e a minha avó Ana. Seus objetos de estimação eram guardados a sete chaves. Tudo arrumadinho era o seu guarda roupa, passado a ferro e engomada, suspenso por cabides comprado na loja de Gabriel, no quadro, à tarde quando saia raras vezes. Quarto fechado à chave para ninguém entrar.  Não gostava de se pintar, com batom o que usava era o pó de arroz e um leve tom de ruge no rosto, para diminuir a palidez da sombra. Cabelos lisos sempre penteados, curtos. Os namoros que arranjavam não davam certo, pois o seu gênio não era compatível com dela. À tarde depois da reza do rosário, sempre ia para minha casa na mesma rua ao numero 120, tomando café com biscoito canela. À noitinha, ouvia no alto falante a Ave Maria das seis horas. Abria o seu adoremos recitava as orações e depois rezava o terço, novamente. Depois do café voltava para nossa casa, sentava-se em uma poltrona para contar estórias de Trancoso para nós. Deitávamos no seu colo e dormíamos a ouvindo falando e fazendo gestos – a Gata Borralheira, o Príncipe Encantando, Chapeuzinho Vermelho, que ficamos com medo e encolhíamos quando falava do lobo mau engolindo a vovozinha, o Saci Pererê, pulando em uma perna só no mato e fazendo medo as crianças. Ninguém nesta noite dormia no escuro, mamãe acendia um candeeiro. Cobríamos até o rosto e adormecia. Todos os dias uma novidade e muitas das vezes reprise das estórias contadas na noite anterior.  Ajudava nas noites sentada na mesa a debulhar feijão verde trazido do Sitio Terra Preta. Descaçava o milho verde colocando-as em uma urupemba, onde meu pai ralava para fazer canjica e pamonha.  Saia às pressas para casa nas noites escuras, com chuva e a rua enlameado com uma sobrinha se aparando, sem luz elétrica e depois com a chegada da luz da usina ficava ouvindo o radio. Íamos todos para ouvir a novela o Direito de Nascer, na casa de Dona Zefinha, sentados em tamboretes e na poltrona, vibrando uma vez outra com o desenrolar dos ruídos. Ouvíamos também a novela de Jerônimo o herói do sertão, terminando todos íamos deitar. Quando papai chegava ela dizia – Se Antonio começar a falar “nomes” feios como “peste”, “bubônica”, “gota serena” eu me retiro vou para a minha casa. Não gosto e ninguém vai me fazer gostar. Cada um com os seus defeitos. Muitas das vezes falava estes nomes abjurados por Tia Carlinda de proposito, somente para aperreá-la. Abria a porta e saia às pressas atravessando a rua empoeirada. Papai ria, e dizia esta Carlinda não tem jeito não, tem que arranjar um marido.   O tempo passa e assim ficou solteirona. Era católica fervorosa, assistia as missas celebradas pelo Padre Alfredo. Pertencia a Apostolado do Coração de Jesus e filha de Maria. A Semana Santa para ela era Semana Santa, principalmente na Quinta e Sexta feira da Paixão. Obedecias rigorosamente o que a Igreja dizia, ou se contentava com os comentários – não tomava banho, não varria a casa, ficava o dia inteiro em silencio e na escuridão do seu quarto, somente saindo para a procissão do Senhor Morto que percorria as ruas. Fazia jejum durante toda a semana.  Gostava de frequentar a nossa casa, ajudando mamãe a cuidar dos filhos e ajudava a família. Somente a nossa casa. Não gostava de frequentar casa de ninguém, ficava sempre na sua casa. Às vezes muito raro ficava, debruçada na janela no final da tarde. Tornou-se ranzinza e não gostava de piadas, de liberdade com nenhuma pesoa, era rechaçado na hora com indiferença. Nomes “feios” eram para ela um suplicio tapava logo os ouvidos e saia do recinto. Mudou-se para Garanhuns, quando vovó morreu. Pertinho da nossa casa, junto com Tia Inácia. Ali na Rua Sargento Silvino Macedo. Ali cultivou a sua maneira de viver não modificando em nada o seu comportamento. Morreu em janeiro de 1992. Os seus restos mortais se encontram no Cemitério São Miguel em Garanhuns juntos aos meus pais Antonio Taveira Zuza e Nedi Taveira Belo. 

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