Por Carlos Sena (*)
"Carne e unha, alma gêmea,
bate coração"... Essa música tocava no meu caro e, para minha surpresa,
uma amiga que tava de carona se insurge e diz fazendo beicinho: você gosta de
brega? Aff! E tu, MULÉ, com tua cara
brega não gosta? (respondi). Pois eu gosto, retruquei aumentando o volume e
acrescentei que Fábio Jr, na minha opinião nem é tão brega assim. Porque eu
gosto mesmo é do Reginaldo - daquele que dizem ser família do Padre Marcelo.
Misturei tudo de propósito, porque brega é a pior tradução para quem gosta de
dividir gosto musical nessa forma tão perversa. Música é gosto que pode ser bom
ou mau. Mesmo um mal gosto musical não credencia outrem a se colocar em posição
de superioridade nesse quesito. Porque música, diferente de perfume "TOCA". E ela, a música pode nos
tocar, inclusive quando a gente se encontra à flor da pele com as nossas
emoções. Música, mal ou bem comparada, é feito fome. Há dias que eu tenho fome
de, por exemplo, hot-dog. Há outros dias que tenho fome de feijão com arroz e
bife, ou mesmo fome de um casulè ou de uma torta alemã. De uma tripa assada,
por que não dizer?
Certo dia me acordei com "Ne
me qui te pás" na cabeça e fiquei o dia todo com essa canção francesa no
quengo. Mas, noutros dias (e foram tantos) eu só cantava boleros de Valdick
Soriano alternando com o Reiginaldo Rossi. Lino Julião! Adoro. Como, vez por
outra os Cantos Gregorianos me encantam no contracanto da sala embalando
minhalma católica.
Minha amiga desceu do carro e eu
fiquei pensando: ela se surpreendeu comigo e eu com ela. Ela porque pelo visto
ela achava que não tinha cara de quem gostasse de "brega" e eu porque
pelo não visto tinha certeza que ela não só tinha cara, mas alma de brega. Como
se vê "macaco não olha pro rabo", a despeito de ter certeza de que
brega em seu sentido pejorativo é um tremendo provincianismo cultural. Porque
nada do que se pode sentir com legitimidade pode ser locado como BREGA. Brega é
briga. É lombriga. É certo tipo de embriagues que leva a se confundir gosto com
agonia. O melhor dessa minha história é que a caroneira que me chamou de brega
nesse quesito dá de dez em mim... Mas ela não assume. Porque pensem num caba
que levou a vida toda se assumindo com suas verdades! Pensaram? Esse caba sou
eu! Ainda hoje pago o preço mas seguirei assim: sendo brega, se esse for o
entendimento. Sendo CHIC se esse for o sentimento. Imaginem se minha amiga me visse cantando um pupurri de
Adilson Ramos, emendando com outros de Noite Ilustrada, Ataulfo Alves, Roberto
e tantos outros. Ela ia estourar pelas costas feito cigarra. Cigarra? Essa,
então, não seria brega? "Porque a formiga é a melhor amiga da
cigarra"... Então me lembro da eterna Simone e seus lindos hits de SUELI
Costa. Fazer o quê? Deus me deu a fonte pra beber: foi no rio Papacacinha.
Poderia ter sido no Piracicaba. Nunca seria num Avião, ou numa Asa sua, nem num
Calypso. Que sorte minha!
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(*) Publicado no Recanto de
Letras em 18/10/2013
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