Em manutenção!!!

sábado, 5 de julho de 2014

O Passado Lúdico




Por Carlos Sena. (*)

Das histórias do passado, em Bom Conselho, lembro-me de algumas singulares. A primeira delas era a que contava a história de uma menina que bateu na porta de seu Costa que era dono de uma bodega: Sr. Costa, tem pasta? - Tem não, nega besta, tem bosta, você gosta? - Mas seu Costa que resposta?

A segunda seguia no mesmo diapasão. A mesma menina teria batido na porta da casa de Sr Tatá: Sr. Tatá tá? E a esposa de seu Tatá responde: seu Tatá num ta não, mas a mulher de seu Tatá tando é mesmo que seu Tatá tá. Tá ou num tá?

A terceira é uma história que se diz aconteceu por lá com um garoto que veio a ser, mais tarde, prefeito da cidade. Na época Manoel (nome fictício) foi comprar sabonete na loja de Seu Joaquim, o pai de Tiana. Essa loja de seu Joaquim era um"Vuco-Vuco" - vendia de um tudo. Meio que um shopping tupiniquim. Pois bem: o pai de Manoel teria lhe recomendado a compra de um sabonete LEVER (da Gessy LEVER, lembram?), e lá se foi Manoel: Sr. Joaquim, quero um sabonete "leve". Seu Joaquim colocou vários sabonetes no balcão e Manoel pegou um, pegou outro e não comprou nenhum. Em casa, disse ao pai que nenhum sabonete era leve, pois ele pegou em todos e todos eram pesados.  Corre a boca miúda essa história como sendo ver-dedeira. Mais dadeira do que pra se ver.

Esta, A quarta e ultima eu garanto que foi verdadeira, pois eu fui testemunha auricular: Sr. Adnísio Padilha pedia para Tadeu (um amigo de infância) ir até lá em baixo, perto da ponte do Colégio, ver se ele, Adnisio, estava lá. Tadeu não só ia, como na volta dizia: Seu Adnisio, o Senhor num tava lá não. Depois de muito tempo, vendo a gente rir a esmo, era que ele, Tadeu, sentia a "ficha cair". Nunca mais eu vi o Tadeu. Depois da música "seu delegado prenda o Tadeu",  até pensei que fosse ele, meu amigo, o inspirados da canção.

Entro por uma perna de pinto saio por uma perna de pato, quem  quiser que conte mais quatro.

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(*) Publicado no Recanto de Letras em 20/05/2014

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Futebol é paixão




Por Nelson Rodrigues

Amigos, falemos ainda do Brasil. O triunfo, na Suécia, em 58, foi para nós tão importante como a Primeira Missa. Começava o Brasil. Nós nos inaugurávamos. Tudo o que fi cava para trás era o pré-Brasil. E basta comparar. Até 58, o brasileiro não ganhava nem cuspe à distância. O sujeito dormia enrolado na derrota como num cobertor. Ninguém acreditava no Brasil, nem o Brasil acreditava em si mesmo.

E, por isso, eu lhes digo que A Primeira Missa, de Portinari, é inexata. Aqueles índios de biquine, o umbigo à mostra, não deviam estar na tela, ou por outra: — podiam estar, mas de calções, chuteiras e camisa amarela. Lapso de Portinari não pôr o Feola, sem boné e contrito, com aqueles pernões monumentais e aquela barriga tão plástica. O principal papel do escrete de 58 foi o de profeta do grande Brasil.

Para quem soubesse ver nas entrelinhas da vitória, a Jules Rimet anunciava também várias coisas, inclusive — seriamente — o triunfo d’O pagador de promessas. Amigos, só os imbecis não percebem o parentesco de uma coisa e outra: — da Suécia e de Cannes, da Jules Rimet e da Palma de Ouro. É uma relação nítida, taxativa, e eu quase dizia: — é uma cínica relação. O pagador ganhou em Cannes porque o escrete ganhou na Suécia. E digo mais: — o escrete vai ganhar no Chile porque O pagador ganhou no festival.

Antes de 58, o Brasil não tiraria a Palma nem de Madureira. E o que nos dá vontade de cantar o Hino Nacional é o seguinte: — a apoteose do cinema brasileiro, amigos, do nosso humilhadíssimo cinema. Vocês estão lembrados. Um filme patrício era uma vergonha nacional, e insisto: — uma vergonha nacional só comparável à de Canudos. E o sujeito que via um dos nossos celuloides saía neurótico do cinema.

E, de repente, há o estalo rutilante. O Brasil vai a Cannes com um descaro suicida, e para perder, claro, para perder. Eu disse “descaro” e explico: — o cinema brasileiro não podia ganhar. Porque não tem tostão e vive, e sobrevive, na base da cara e da coragem. O cinema brasileiro ainda anda de taioba. E ganhamos. Há 15 minutos, não tínhamos diretores, nem artistas, nem escritores, nada. De repente, aparece tudo, aos borbotões.

É o Brasil. Há, na vida dos povos, um momento de tal euforia que os idiotas somem, os imbecis desaparecem. O próprio Anselmo Duarte. Não era nada, ou por outra: — era um canastrão chapado, um canastrão da cabeça aos sapatos. E, uma noite, Anselmo foi dormir um e acordou outro. Aí está o sortilégio do Brasil: — o canastrão da véspera pode ser o gênio do dia seguinte. Imediatamente os conhecidos, os vizinhos notaram a diferença física. Perguntavam: — “O que é que há contigo?” Para ser honesto, ele teria de responder com modéstia triunfal: — “É o gênio! O gênio!”

De fato, o gênio que venta por todo o Brasil. E é um gênio gratuito e geral, que não se apoia, ou por outra: — que se apoia na cara e coragem de cada um. O que Anselmo gastou com O pagador é uma vergonha. O capital empatado não dá para comprar uma sandália da Elizabeth Taylor na Cleópatra.

Pero Vaz de Caminha diria que, nesta terra, até os paralelepípedos dão flor, até as zebras estão florindo. E outra coisa: — outrora, o que matava o brasileiro era o subdesenvolvimento pessoal. Sim, cada um 134 de nós era, individualmente, um falido do sentimento, um falido da paixão, um falido da esperança. Depois de 58, o país continua subdesenvolvido, ao passo que cada brasileiro, pessoalmente, está investido de uma imensa potencialidade criadora.

Alguém dirá que o Paulo Francis continua amargo. Explica-se: — o conhecido crítico é um analfabeto obsessivo, que precisa ver analfabetos por toda a parte. Mas o próprio Paulo Francis, que não passou d’O conde de Monte Cristo, não escreve, não tem uma coluna? É outro milagre do Brasil. Hoje em dia, qualquer jumento nosso tem um charme de puro-sangue.

Mas estejam certos. O pagador de promessas é o profeta do bicampeonato.


O Globo, 25/5/1962

quinta-feira, 3 de julho de 2014

O mar não está para peixes, nem mesmo para piranhas




Por Zezinho de Caetés

Hoje estou lendo um jornal de anteontem. É o ESTADO DE SÃO PAULO, que em seu editorial (“As ‘convicções’ de Dilma”), reflete sobre os disparates que anda dizendo nossa gerenta presidenta, junta na mesma emoção do lulopetismo para se manter com o “nadegal” nas cadeiras do Planalto e pelas do Brasil afora.

Reproduzo logo a fala que o jornal cita, da Dilma, gastando seu dilmês na convenção do PT que a ungiu candidata à reeleição: “A política que aprendi a praticar ao longo da minha vida desde a minha juventude, que me levou inclusive à prisão, implica em construir relações que sejam baseadas não em conveniências, mas em convicções”. Parece até que ela estava falando para marcianos que chegaram ontem à terra procurando saber qual a cidade em que sua seleção está jogando. Pois só eles entenderiam tal disparate. Pois isto vindo de uma governante que há menos de três anos posou como a “faxineira” do Brasil, mostrando suas convicções em livrar o país dos ratos que o assolavam, e que agora levanta o tapete e coloca todo lixo debaixo trazendo-os de volta.

Pior ainda, trouxe o PR ao governo outra vez pela ordem de um bandido condenado por querer usufruir do dinheiro público, o seu presidente o Waldemar Costa Neto. Continuando, neste ritmo com a mudança em suas convicções, e fico até com medo de que ela se batize em algum igreja e aceite Deus no coração. Aliás, ela já fez isto na campanha passada, agora só falta o batismo. É muita desfaçatez.

Esta campanha está apenas mostrando a que ponto chegamos no poço, em direção ao fundo, do ponto de vista eleitoral. Será que ainda temos uma justiça eleitoral em funcionamento? Ou melhor, será que ela poderá funcionar sob a batuta do Dias Toffoli? Num país onde existe uma lei em que se determina datas para campanhas eleitorais, e alguns candidatos começam a campanha dois anos antes da data e nada acontece, o que esperar dele? Que seja um pelo menos uma sociedade civilizada e democrática?

No mesmo jornal, do qual reproduzo abaixo o editorial, vejo já na edição de ontem, que um funcionário da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República pretendia elaborar uma lista de prefeitos do PMDB do Rio de Janeiro que aderiram à candidatura presidencial de Aécio Neves (PSDB). Isto mostra como os petistas já estão tão convictos que seu partido se confunde com o governo, que chegam a este ponto. Com medo da dissidência do PMDB no Rio, o PT agora fabrica listas de pessoas que são contra eles em termos eleitorais. Não se contentaram em fazer lista com nomes de jornalistas que não são de seu agrado. Eu só fiquei sentido em não entrar nesta lista, pois aceitava de bom grado figurar entre aqueles que nelas estão, mesmo sendo apenas um jornalista bissexto. Aliás, para vencer a eleição a gerenta presidenta deverá ir até visitar o túmulo do Ademar de Barros em São Paulo e pedir desculpas públicas por seu cofre ter sido assaltado meio século atrás. É muita desfaçatez.

Todos sabem que esta atitude foi das menos contundentes em favor de práticas que não se coadunam com o ambiente republicano, pois nos vem logo à mente, os “aloprados”, o dossiê contra a Ruth Cardoso, o mensalão, etc. E piorando ainda, quando indagado sobre a lista de prefeitos que apoiariam o candidato da oposição, o Berzoini , disse que a lista seria apenas para convidá-los para um almoço. Alguém acredita? Eu só acreditaria se soubesse que haveria veneno na comida.

Mas, fiquem com editorial do Estadão, que mostra outras convicções de nossa gerenta presidenta, mostrando que nesta campanha “mar não está prá peixe”, nem mesmo para piranhas. Eu voltarei à minha programação normal, vendo os jogos da copa, e, de vez em quando apresentando, o carnaval político, deste país abençoado por Deus e bonito por natureza. Pelo menos era, antes do PT.

“Amanhã, último dia estabelecido pela legislação eleitoral para a realização de convenções partidárias destinadas a definir candidatos e deliberar sobre coligações para o pleito de 5 de outubro, estará se encerrando a mais despudorada temporada de compra e venda de minutos e segundos da propaganda eleitoral gratuita, que estará no ar a partir de 19 de agosto, jamais registrada neste país. E à afronta à Nação representada por esse vergonhoso espetáculo soma-se o cinismo de quem tem a responsabilidade maior de zelar pela seriedade na vida pública: "A política que aprendi a praticar ao longo da minha vida desde a minha juventude, que me levou inclusive à prisão, implica em construir relações que sejam baseadas não em conveniências, mas em convicções".

Dilma Rousseff permitiu-se esse cínico rompante ao discursar na convenção nacional do PSD que na quarta-feira selou o apoio à sua reeleição. Não explicou a quais "convicções" se referia, mas recomendou a todos que não aceitassem "provocações que buscam baixar o nível do debate, que buscam acirrar o antagonismo". E não deixou de se gabar das "transformações rápidas e profundas" realizadas por seu governo, garantia, no futuro, de "um ciclo ainda mais rápido e duradouro de mudanças".

Esqueceu-se, apenas, de que a divisão da Nação entre "eles" e "nós" e as campanhas de difamação dos adversários fazem parte da obra política do lulopetismo. Esqueceu-se, ainda, de que seu governo é um continuado desastre econômico-financeiro, ditado por atrasada ideologia.

Poucas horas antes, Dilma havia promovido uma transformação rápida e profunda em seu governo ao trocar o titular do Ministério dos Transportes, feudo do PR, por imposição de um aliado importante, o chefão de fato daquele partido, o mensaleiro Valdemar Costa Neto, que enviara seu ultimato diretamente do presídio da Papuda. O ministro defenestrado, César Borges, também é do PR, mas o sentenciado Costa Neto decidiu trocá-lo por entender que ele "não ajudava" o PR. É assim que Dilma governa.

Tanta "convicção" que marcou esses recentes movimentos da campanha eleitoral é o resultado de reunião de que Dilma participou na noite de terça-feira sob o comando de seu criador, com a indispensável presença do marqueteiro oficial do PT. Ouviu e cumpriu a ordem de Lula de que não é hora de contrariar aliados.

Convém repetir o que tem sido reiteradamente afirmado neste espaço: Lula e os petistas não inventaram o fisiologismo político, o toma lá dá cá na composição da base de apoio parlamentar ao governo, o aparelhamento partidário que compromete a eficiência da máquina governamental e tantas outras mazelas que corrompem a vida pública no Brasil. Na verdade, por mais de 20 anos Lula e o PT rangeram os dentes contra esses vícios, prometeram mudar "tudo isso que está aí". Em 2003 chegaram finalmente ao poder e concluíram - aliás, muito rapidamente, como prova o mensalão - que "é impossível" governar sem o apoio dos "picaretas" que, como Lula denunciara dez anos antes, infestam o Congresso. Deu no que deu.
Esse raciocínio da "impossibilidade" só faz sentido quando o pragmatismo se torna um valor fundamental. Os petistas que hoje argumentam que os fins justificam os meios - e por isso podem cultivar a incoerência e o desmando - não consideram que o fim da política é o bem comum. Seu objetivo é a manutenção do poder - e a qualquer custo, material ou moral. Mas isso tem consequências.

Em decorrência do aprimoramento das ancestrais práticas de fisiologismo político a que o PT se vem diligentemente dedicando, a falta de pudor e de coerência, a mistificação, o populismo mais rasteiro, o apego às "boquinhas", tudo, enfim, que há de mais condenável na vida pública ameaça hoje gangrenar irremediavelmente o tecido político do País, tornando o ato fundamental da cidadania, o de votar, cada vez mais um penoso exercício de escolha do menos pior.


Não se pode esperar que Lula & Cia., inebriados com as delícias do poder, reneguem seu ethos. Mas a presidente de todos os brasileiros - que diz ter "convicções" - poderia pelo menos nos poupar do cínico espetáculo que acabamos de presenciar.”

quarta-feira, 2 de julho de 2014

A Vida Enquanto Aprendizagem.




Por Carlos Sena (*)

Aprendi que respeito ao semelhante é quase que uma religião, se quisermos viver bem conosco. Conosco, porque sempre se diz com o outro. Prefiro começar por mim, porque a tolerância tem que chegar primeiro em cada um, para depois chegar ao outro no processo da relação conosco.

Por isso aprendi que tenho que ter vários "EUS" dentro de mim, para poder conviver com vários "OUTROS" dentro dos outros. E, deste modo, meus "EUS" nem sempre se entendem e travam consigo verdadeiras batalhas, muitas delas terrivelmente "sangrentas".

Aprendi, com isso, que o mundo moderno estimula à predominância da aparência tanto física quanto emocional. Algo como não bastar ser, mas apenas parecer. E não são poucos os que vivem por  aí vivendo apenas querendo ser e, naturalmente, "querendo" distância do que seja consistente, firme, verdadeiro. Por isso aprendi que o próprio transitório como o "culto ao corpo sarado" e relações afetivas pouco duradouras (dos ficantes) tem assumido formatos supostamente definitivos. E, então, novamente aprendi que esse modo de vida equivocadamente inventado tem levado pessoas a um futuro de solidão e tédio. Porque ( e isso também aprendi) o terceiro milênio, a era de Aquarius, não combinam com essas atitudes imediatistas e superficiais que o mundo moderno estabeleceu como forma.

Nesse meio de concepções tão supostamente revolucionárias, antigas instituições como a Família vão retomando seu poder instituidor de proteção às pessoas que, não raro, se perdem em si no vazio que mais cedo ou mais tarde caem. A idade avança, o corpo sarado despenca, os amigos se dissipam, e a família poderá estar ali, como salvadora. Ou não?

No final, a vida nos mostra que, de fato, não podemos nos desvencilhar dos nossos EUS, porque os outros cada vez mais se perdem em si. Nós, isso temos que continuar aprendendo, porque a vida moderna, os valores, os amores, todos estão cheios de armadilhas para nos fragilidade. Pois o homem moderno tem sido frágil na sua condução de vida e tem se permitido aos modismos dos "mass mídia".

Aprender com a vida se faz imperioso, porque as nossas universidades, na sede do lucro fácil, vendem apenas informações, não "FORMAÇÕES" como um dia já foi afeita com mais ênfase. Por isso, para se conviver com pessoas cheias de informação, temos que ter muito respeito conosco, pois só assim, com o exercício diário, podemos conviver bem com os outros. Isso, eu também aprendi. Ou não?

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(*) Publicado no Recanto de Letras em 20/05/2014

terça-feira, 1 de julho de 2014

O tempo e a eternidade




Por Nelson Rodrigues

Amigos, o velho Barbosa está fora do Brasil. Mas não importa e explico: — a ausência do verdadeiro craque é tão ativa, militante e absorvente como a presença viva. Só o perna de pau consegue ser esquecido. Um Barbosa, não. Está na longínqua e quase inexistente Escandinávia e continua sendo fato, continua sendo notícia. Ausente dá uma sensação de presença física.

O velho Barbosa! Digo “velho” e já retifico: — não é velho coisa nenhuma. Amigos, não existe a menor relação entre Barbosa e a sua idade. Ou melhor: — idade e pessoa não coincidem no arqueiro vascaíno. Ele tem o quê? Uns 37, 38 anos. Para as outras atividades, o sujeito pode ter isso ou mais, impunemente. Mas o tempo, no futebol, é rapidíssimo. Um minuto vale um mês ou mais. E, aos 37 anos, o indivíduo é gagá para a bola, e insisto: — o indivíduo baba de uma velhice irremediável. A própria bola, o refuga e trai. E Barbosa continua notícia, continua fato pelo seguinte: — porque é eterno.

E quando Barbosa joga acontece apenas isto: — ele esfrega a sua eternidade na cara da gente. Há dias, escrevi, aqui mesmo, que se trata da eternidade mais viçosa já ocorrida no futebol brasileiro. No comum dos mortais, a vida é uma luta corpo a corpo contra o tempo. O sujeito olha a folhinha e toma um susto ao verificar que estamos em 59. 1959! É o caso de perguntar: — “Já?” Sim, amigos: — Já! Para Barbosa o problema de folhinha e de relógio não existe. É o homem sem tempo, que esqueceu o tempo, que vive sem o tempo, muitíssimo bem. Há os que rosnam: — “Barbosa pinta os cabelos!” De fato, tem já cabelos brancos. Aí o único detalhe de velhice na sua figura ágil, elástica, acrobática.

O problema do arqueiro, porém, não se resume ao desgaste físico. Não. Ele sofre um constante, um ininterrupto desgaste emocional. Debaixo dos três paus, parado, dá ideia de um chupa-sangue que não faz nada, enquanto os outros se matam em campo. Ilusão! Na verdade, mesmo sem jogar, mesmo lendo gibi, o goleiro faz mais do que o puro e simples esforço corporal. Ele traz consigo uma sensação de responsabilidade que, por si só, exaure qualquer um. Amigos, eis a verdade eterna do futebol: — o único responsável é o goleiro, ao passo que os outros, todos os outros, são uns irresponsáveis natos e hereditários. Um atacante, um médio e mesmo um zagueiro podem falhar. Podem falhar e falham vinte, trinta vezes num único jogo. Só o arqueiro tem que ser infalível. Um lapso do arqueiro pode signifi car um frango, um gol, e, numa palavra, a derrota. Vejam 50. Quando se fala em 50, ninguém pensa num colapso geral, numa pane coletiva. Não. O sujeito pensa em Barbosa, o sujeito descarrega em Barbosa a responsabilidade maciça, compacta da derrota. O gol de Ghiggia fi cou gravado, na memória nacional, como um frango eterno. O brasileiro já se esqueceu da febre amarela, da vacina obrigatória, da espanhola, do assassinato de Pinheiro Machado. Mas o que ele não esquece, nem a tiro, é o chamado “frango” de Barbosa.

Qualquer um outro estaria morto, enterrado, com o seguinte epitáfio: — “Aqui jaz Fulano, assassinado por um frango.” Ora, eu comecei a desconfiar da eternidade de Barbosa quando ele sobreviveu a 50. Então, concluí de mim para mim: “Esse camarada não morre mais!” Não morreu e pelo contrário: — está cada vez mais vivo. Nove anos depois de 50, ele joga contra o Santos, no Pacaembu. Funcionou num time de reservas contra um dos maiores, senão o maior time do Brasil. E foi trágico, amigos, foi trágico! Começa o jogo e, imediatamente, Pelé invade,  perfura e, de três metros, fuzila. Fosse outro, e não Barbosa, estaria perguntando, e até hoje: — “Por onde entrou a bola?” Barbosa defendeu e com que soberbo descaro! Daí para frente, a partida se limitou a um furioso duelo entre o solitário Barbosa e o desvairado ataque santista. Foi patético, ou por outra — foi sublime. E porque, na sua eternidade salubérrima, ainda fecha o gol, eu faço de Barbosa o meu personagem da semana.


Manchete Esportiva, 30/5/1959