Em manutenção!!!

sábado, 5 de outubro de 2013

Viagem a Bom Conselho - Visita ao cemitério.


Enterro da Professora (Foto do O Argonauta)

Por Zé Carlos

Os afazeres de um aposentado são muitos e até mesmo maiores do que no tempo em que tinha um emprego formal e era guindado a sair de casa todo o dia para, como se diz, ganhar o pão com o suor do rosto. Eu nunca suei muito, pois mesmo que as salas de aulas fossem quentes nunca fui um professor teatral, propenso ao suor. Fiquei pensando, porque depois de todas estas obrigações ainda arranjamos tantas coisas para fazer. Descobri que era um pouco de medo de não encontrar nada para fazer. Então eu exagero e muitas vezes não posso cumprir o prometido a mim mesmo que era de escrever mais sobre minha última viagem a Bom Conselho.

Na crônica anterior confessei que não sabia mais onde tinha nascido. Agora vou dizer que custou a descobrir onde meus pais foram enterrados.

Sempre que vou a Bom Conselho, antes mesmo de entrar na cidade, depois de passar pelo arco da entrada, dobro a esquerda e vou visitar meus pais no Cemitério de Santa Marta. É um hábito que permanece. Porém, desta vez, para pegar as frutas mais tenras e saudáveis da feira, não fui direto à cidade de pés juntos. Só fui lá ao cair da tarde. Já escurecia e já não víamos mais o sol entre uma sepultura e outra.

Perguntando a um senhor, na porta, se o cemitério ainda estava aberto, ele me respondeu em sua linguagem, o que entendi como: “Caro que está. O estabelecimento é 24 horas!” Não pensei em supermercados porque seria uma blasfêmia no momento. Entrei e me dirigi ao túmulo de minha mãe que se encontra lá do mesmo jeito, e pelo silêncio, ela dorme seu sono eterno sem reclamações e fiquei satisfeito.

Então fui ao túmulo do meu pai que é em outro lugar, pelas diferenças de classe social entre eles que permaneceu na morte material, mas, que não vigorou nem na vida material e espero que não funcione na vida espiritual. Ainda espero um dia encontrar os dois juntos como sempre foram em vida.

E ao procurar o túmulo do meu pai, entrei e saí em ruas suntuosas, com jazigos grandes e bem ornamentados, mostrando o nosso progresso arquitetônico e estilístico em termos de sepulturas, e não consegui encontrá-lo pelo caminho que sempre fazia. Pela beleza e imponência dos túmulos eu pensei logo, como vejo acontecer nas cidades, que o túmulo do meu pai havia sido demolido para dar passagem ao progresso.

Já estava quase com esta ideia aceita quando surge entre os túmulos o meu amigo Zé Basílio. Depois dos cumprimentos de praxe e ficar certo de que não era uma alma do outro mundo, porque ele parecia ter o mesmo corpo de 60 anos atrás, eu reclamei de não ter encontrado o túmulo do meu pai, que foi seu amigo e colega de trabalho durante anos. Ele então disse: “Se ele ainda estiver aqui eu o encontro”.

E comecei uma jornada, atrás do Zé Basílio, entre túmulos de conhecidos e de desconhecidos, que traziam a minha mente uma história definitiva da cidade. Afinal de contas, só lá podemos entrar para a História.

Depois de vários minutos houve o encontro do túmulo e mais um encontro meu com o meu pai, enquanto Zé Basílio me olhava com um olhar de quem diz: “Eu não disse que encontrava?” E eu fiz, mentalmente, minha conversa com o meu pai, que hoje me vê perfeitamente. É uma das vantagens de estar morto. Os defeitos físicos se acabam e nos tornamos apenas seres humanos, em estado puro.

Ainda lhe perguntei se ele estava triste por o seu túmulo ser simples em relação aos novos que agora existem. Na sua simplicidade ele me respondeu: “Meu filho, aqui a lei é outra!”. Quando pensei em perguntar a respeito da tal lei, ouvi minha mãe chamar: “Carlos, o café tá na mesa!” “Já vou Flora!”. E saí com o peito cheio de saudade, conversando com o Zé Basilio.

Oferecendo-lhe uma carona, prontamente aceita, o deixei antes de dobrar para o Hotel Raízes, onde me hospedo, num ponto de onde vi uma foto em um dos nossos blogs, que trazia uma multidão de pessoas para o enterro de uma professora que foi assassinada por assaltantes.


Aproveito esta pequena crônica para lamentar o acontecido. Uso esta foto, do Blog O Argonauta para ilustrar esta crônica (sem autorização e esperando não ir cair para nas barras dos tribunais por isto). O que espero, é que em minha próxima visita ao Santa Marta perguntar aos meus pais se encontraram com a professora Alexandra Machado. O céu não é muito grande. E sei que eles estão lá.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

PAPEL E TINTA PARA O AMOR.




Por Carlos Sena. (*)

O amor nunca será demais para que não se escreva mais sobre ele. Tinta, papel e lápis nunca serão demais para falar do amor, ou dele escrever. Não obstante a internet  que também não se cansa de falar do amor, nem tampouco os computadores que não se cansam de digitar acerca dele, o tão propalado AMOR. Porque no fundo todos querem ser felizes. E, ao que tudo indica, “não é possível ser feliz sozinho”... Mas, pode, embora seja melhor viver  acompanhado e feliz.

Certo que a felicidade não pode ser atrelada apenas ao amor de alguém. Mas o amor, pela sua singularidade nos deixa cheios de plurais interpretativos a seu respeito. Entender o amor! Eis o grande mistério dele, pois nessa condição não serve de “receita” que a gente passe a outrem que dela necessite para ser feliz. Os caminhos que conduzem ao amor são únicos e nunca os trajetos de uns servem para ser recomendados a outros. Por isso, o amor, no nosso entendimento se configura construção diária. Não sendo assim talvez seja PAIXÃO. Esta, por sua vez, tem sua importância. Mas, não é a paixão quem nos desperta a capacidade de amar. O amor pode conter a paixão, mas, dificilmente a paixão contém o amor. O amor, como nos disse uma canção “tem razões que a própria razão desconhece”... No rol desse desconhecimento, o ciúme se nos apresenta com sua face negra. O ciúme é sempre o propulsor das inseguranças que no amor se estabelecem fazendo o papel do diabo que fica sempre por ali, cutucando a gente com “vara curta”... Essa “vara curta” se traduz quando a gente fuça tudo do ser amado, por exemplo, preferindo encontrar subsídio para nossa insegurança. Ou quando a gente se cala no nosso mundo achando que tudo fica resolvido com o silencio, esquecendo, inclusive que perdoar, no amor, é muito mais divino... No rol do perdão não se consubstancia um amor de subordinação, mas de superioridades entre os seres. Porque o amor só é amor se for completo na sua incompletude, bem entendida: uma incompletude no nível da imperfeição nossa, enquanto humanos.

O amor segue firme na história da humanidade como se nunca fosse conhecido. Cada história de amor, para os amantes, é única. Igual a de Romeu e Julieta ou a de Abelardo e Heloisa. No mundo de cada uma das duas pessoas que se amam existe um universo cheio de sonhos que só se realizam dentro delas duas. Assim mesmo: no seio das duas pessoas que, pela sabedoria transformaram o amor em fonte de vida e de sublimação. Isto até que tudo um dia termine de forma atemporal ou temperamental ou apenas porque a vida termina para um dos dois. Mesmo terminando um amor por conta do tempo de vida que chegou ao fim, havendo amor, certamente o infinito se encarregará de prosseguir sob novas formas de amor. Certamente um amor eterno, posto que esse nosso amor que nos é concedido conhecer e viver aqui na terra acontece com data marcada para terminar. Por isso o amor até nisto é complexo: ele nos permite a compreensão de que numa vida passageira um amor não pode ser eterno. Ou até pode. Se houver uma transmutação para a eternidade. Porque é terna a idade do amor.

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(*) Publicado no Recanto de Letras em 18/08/2013

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O Brasil tem futuro?




Por Zezinho de Caetés

O texto abaixo transcrito, do Marco Antonio Villa, publicado em seu blog em 01.10.2013, com o título de “A herança maldita”, não merece nenhum nariz de cera, como o que estou a escrever. Porém, mantenho o hábito e satisfaço um pouco os meus leitores, mesmo dizendo que se quiserem passar direto para ele, não perderão muita coisa.

É que, quando falam de lulismo, que eu preferia falar de lulo/petismo, eu, se não escrever algo contra, tenho uma crise de urticária que me incomoda muito. O que se mostra abaixo, com todas a letras, é que não temos nenhum futuro, e que até o título de “país do futuro” o PT nos vai tirar.

Começando pela constatação que vai de encontro a todos nossos desejos de que dificilmente conseguiremos destronar a Rainha de Copas do Planalto. Até agora, depois da bolha das manifestações que estourou e nunca mais voltou, a popularidade da presidenta começou a subir outra vez, com o auxílio da oposição que não soube manter aquele espírito de revolta que acometeu nossa população transformando-o num fato político duradouro.

Os marqueteiros e os áulicos foram mais apressados, mais rápidos no gatilho, propondo aquele ridículo plano de 5 pontos, dos quais apenas restou o programa Mais Médicos, que é uma excrescência, do ponto de vista das leis do nosso país. E mesmo assim, pela subordinação insofismável do legislativo ao executivo, apesar do monte de emendas, a medida provisória ainda não foi votada pelo Congresso e, certamente, quando for,  vai ser aprovada com distinção e louvor. E teremos, mais uma vez servido à ditadura dos Castros, que está nos seus estertores e que, ao invés de jogarmos uma pá de cá, gastamos milhões de dólares para manter os aparelhos ligados.

E o texto do Villa fala também do que minha amiga Lucinha Peixoto uma vez chamou de a “formolização da miséria”, que é o Bolsa Família que cada dia cresce mais em termos de participantes, até que nós todos ao programa pertençamos. E, tendo virado um mero item eleitoral que reputa do Lula como seu pai, não tem jeito, é 1/3 dos votos brasileiros perenes para o lulo/petismo.

Em suma, parece tudo dominado. Chega nos deixar depressivos em ter que aguentar por mais não sei quantos anos, um partido no poder, levado a ele pelos problemas de funcionamento pelo qual passa nossa democracia. Só nos resta a classe média, um pouquinho esclarecida, nas ruas, nas escolas, em seus lares, nas igrejas, nas praças, nas feiras tentar mostrar ao nosso povo que ele está enganado, e que seu filhos é que pagarão por isso. Num país que tem 15% de seus habitantes adultos analfabetos e esta taxa só tenfe a aumentar, sei que a tarefa é difícil. Mas, vale a pena continuar na luta.

Agora fiquem com o artigo do Villa e vão meditando enquanto leem sobre o que podemos fazer para sair desta.

“O lulismo vai deixar sinais indeléveis no Estado brasileiro. E, pelo visto, deve permanecer no poder até, no mínimo, 2018. Inexiste setor do Estado em que não tenha deixado sua marca. A eficácia na tomada do aparelho estatal é parte de um projeto de manietar o país, de controlar os três poderes.

O grande empresariado foi se transformando em um dos braços do Estado. A cada dia aumentou sua dependência dos humores governamentais. Ter uma boa relação com o Palácio do Planalto virou condição indispensável para o sucesso. O empresário se tornou capitalista do capital alheio, do capital público. Para a burguesia lulista, nenhum empreendimento pode ter êxito sem a participação dos fundos de pensão dos bancos e empresas estatais, dos generosos empréstimos do BNDES e da ação direta do governo criando um arcabouço legal para facilitar a acumulação de capital — sem esquecer as obras no exterior, extremamente lucrativas, de risco inexistente, onde a empresa recebe de mão beijada, sem concorrência, como as realizadas na África e na América Latina.

A petrificação da pobreza se transformou em êxito. Coisas do lulismo. As 14 milhões de famílias que recebem o benefício do Bolsa Família são, hoje, um importante patrimônio político. Se cada família tiver, em média, 4 eleitores, estamos falando de 1/3 do eleitorado. A permanência ad aeternum no programa virou meio de vida. E de ganhar eleição. Que candidato a presidente teria coragem de anunciar o desejo de reformar o programa estabelecendo metas de permanência no Bolsa Família?

A máquina do Estado foi inchada por milhares de petistas e neopetistas. Além dos quase 25 mil cargos de assessoria, nos últimos onze anos foram admitidos milhares de novos funcionários concursados — portanto, estáveis. Diversamente do que seria razoável, a maior parte não está nas áreas mais necessitadas. Um bom (e triste) exemplo é o das universidades federais. Foi realizada uma expansão absolutamente irresponsável. Faculdades, campi, cursos, milhares de funcionários e docentes, para quê? Havia algum projeto de desenvolvimento científico? A criação dos cursos esteve vinculada às necessidades econômicas regionais? Foi realizado algum estudo das carências locais? Ou tudo não passou, simplesmente, de atendimento de demandas oligárquicas, corporativas e para dourar os números do MEC sobre o total de universitários no país?

Sem ter qualquer projeto para o futuro, foi acentuado o perfil neocolonial da nossa economia. Vivemos dependentes da evolução dos preços das commodities no mercado internacional — e rezando para que a China continue crescendo. Não temos uma política industrial. O setor foi perdendo importância. O investimento em ciência e tecnologia é ínfimo. A chamada nova economia tem importância desprezível no nosso PIB. A qualificação da força de trabalho é precária. Convivemos com milhões de analfabetos como se fosse um dado imutável da natureza.

A política externa amarrou o destino do Brasil a um terceiromundismo absolutamente fora de época. Nos fóruns internacionais, o país se transformou em aliado preferencial das ditaduras e adversário contumaz dos Estados Unidos. Abandonamos o estabelecimento de acordos bilaterais para fomentar o comércio. Enquanto o eixo dinâmico do capitalismo foi se transferindo para a região Ásia-Pacífico, o Brasil aprofundou ainda mais sua relação com o Mercosul. Em vez de buscar novas parcerias, optamos por transformar os governos bolivarianos em aliados incondicionais.

Entre os artistas, a dependência estatal foi se ampliando. Uma simples peça de teatro, um filme, um show musical, nada mais é realizado sem que tenha a participação do Estado, direta ou indiretamente. Ter bons relações com o lulismo virou condição indispensável para a obtenção de “apoio cultural”. Nunca na história republicana artistas foram tão dependentes do governo — nem no Estado Novo. E cumprem servilmente o dever de obediência ao governo, sem qualquer questionamento.

O movimento sindical foi apresado pelo governo. Os novos pelegos controlam com mão de ferro “seus” sindicatos. Recebem repasses milionários sem ter de prestar contas a nenhum organismo independente. Não vai causar estranheza se o Congresso — nesta escalada de reconhecer novas profissões — instituir a de sindicalista. A maioria dos dirigentes passou rapidamente pela fábrica ou escritório e está há décadas “servindo” os trabalhadores. Ser sindicalista virou um instrumento de ascensão social. E caminho para alçar altos voos na política.

O filé mignon do sindicalismo são os fundos de pensão das empresas e bancos estatais. Seus diretores — do dia para a noite — entraram no topo da carreira de profissionais do mercado financeiro. Recebem salários e bonificações de dar inveja aos executivos privados. Passam a conviver com a elite econômica. São mimoseados pela burguesia financeira de olho nos recursos milionários dos fundos. Mas ser designado para a direção do Fundo de Amparo ao Trabalhador é o sonho dourado dos novos pelegos.

Em meio a esta barafunda, não causam estranheza o ataque, o controle e a sujeição do Supremo Tribunal Federal à horda lulista. Os valores éticos e republicanos não combinam com sua ação política. Daí a necessidade de aparelhar todas as instâncias do Estado. E colocá-las a seu serviço, como já o fez com o Congresso Nacional; hoje, mero puxadinho do Palácio do Planalto.


Na república lulista, não há futuro, só existe o tempo.”

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O PACTO




Por José Antônio Taveira Belo / Zetinho


Em Garanhuns conversando com uma senhora, já de idade, dona Chiquinha, contou-nos uma estória de arrepiar os cabelos. Muito faladeira, com muito gesto e sorridente, começou – Meu filho, o demônio tem poder. Ninguém pode invocar o seu nome que ele se alegra. Fica sobreaviso afim de que o chame e ele está pronto para atender. Somente Deus é que tem poder para ele e mais ninguém, nem mesmo os santos, que ao longo da sua vida aqui na terra foram tentados, mas superaram com muito sacrifício, se livrar do seu poder e entregar-se a Deus. “Nos Idos anos de 50 aqui em Garanhuns, na estreita Rua do Corrente, morava o seu Tertuliano, homem jovem e bonito. Era alto com cabelos escorridos, olhos castanhos claros e um sorriso de enlouquecer as moças da época. Perdeu o emprego. Ficou a deriva. Pois era casado e com duas filhas menores, Dalila de 08 anos e Julia de 07 anos. Vivia desesperado. Dinheiro nunca tinha. Vivia à custa de algumas pessoas e isto o desesperava. O trocado que tinha começou a gastar com bebidas. Todos os dias jogavam no bicho se ganhasse a sua vida melhoraria. Acreditava na sorte, mas ela estava distante dele. Assim o tempo ia passando e as dificuldades aumentando. Certo dia sentado, a noite, na única cadeira que restava em sua casa, fez um pacto com o demônio, se caso ganhasse no jogo de bicho ofereceria a ele as suas duas filhas. No outro dia se lembrou da promessa e levou aquela promessa em brincadeira. Mas certo dia o dinheiro que tinha no bolso para comprar o pão jogou todo no bicho, no milhar 2537. Sentou-se na Avenida Santo Antônio, e ficou a espera do resultado. Lá prá cinco e meia da tarde, foi conferir e tinha ganhado. Pulou de alegria. Recebeu o premio na presença de muitas pessoas e seguiu direto para casa. Reformou a casa, mobiliou, pagou as suas dividas e começou a viver bem, mas se esqueceu do pacto que fez com o demônio. Viviam alegre as meninas foram matriculadas no Colégio Santa Sofia e assim o tempo ia passando e os pesadelos da fase ruim da vida tinha passado. Certa noite, dormindo tranquilo ouviu gritos dilacerantes das meninas vizinhos ao seu quarto. Levantou-se às pressas com a mulher e encontraram em estado de choque, olhos esbugalhados, tremendo e aterrorizadas. E ai, me filho, começou a odisseia para esta família. Ouça o restante da estória. A partir deste instante, as meninas começaram a ter sobressaltos vendo figuras horríveis lhe atormentando. Nesta noite quando as meninas se acalmaram, disseram – papai e mamãe tem um bicho feio debaixo da cama, veja, apontando com o dedinho a luz do candeeiro. Os pais olharam para o lugar onde ela apontava, e nada via. Minhas filhas não tem nada não, vão dormir. Tem papai, tem papai! Acalmaram-se, mas não dormiram mais. No dia seguinte na hora de tomar café para ir para escola, foi outro sufoco – Mamãe o bicho feio cuspiu no meu leite, gritou as duas. O bicho feio lá esta sentado fazendo carreta para nós. Mamãe ele vem atrás de nós, quando estamos brincando. E assim a cada dia a coisa piorava. Levaram as crianças para o médico no Hospital Dom Mouro. Os médicos examinaram apenas dizia que podia ser “fastio” e passou um fortificante Biotônico Fontoura e Emulsão de Scott. Cada dia as meninas pioravam da saúde. Os pais já tinham gasto uma fortuna para curar a saúde das filhas, que até pouco tempo tinham uma saúde de ferro. A Dona Almerinda, foi se aconselhar com o padre da Paróquia de São Sebastião. Contou toda a historia, Tim-Tim por Tim-Tim desde noite que as meninas se assustaram com o bicho feio embaixo da cama até aquele momento que as meninas estavam desfiando a olhos vistos. O Padre não titubeou e foi até a residência na Rua do Corrente. Lá chegando às meninas ficaram com medo dele. Estava de batina preta, o breviário não mão e o terço na outra. Ao chegar perto das meninas elas se afastaram e se encolhendo junto à parede, no quarto de uma só cama. Neste momento, o padre pediu que as pessoas ali estivessem se ausentasse, pois, tinha muita gente ao redor da casa. O padre rezava e as meninas tremiam, olhavam com olhos esbugalhados, com sorriso frenético e o padre continuava a rezar e elas se sentavam, se ajoelhavam, assanhava os cabelos, cuspiam no chão. O padre se retirou prometendo voltar no outro dia. Os pais estavam cansados daquele tormento. Tinham solucionado o problema de dividas, mas, veio à doença das meninas, que não tinha cura e isto estava lhe atormentando. Sentado na poltrona da casa, noite, lhe veio um pensamento ruim e lembrou-se do Pacto que fez com o demônio para melhorar de vida. Apavorou-se. Levantou-se foi até o quarto acordou a mulher e contou tudo. A mulher sentada na beira da cama ouviu em silencio e disse – Tertuliano como você fez uma desgraça desta? Você sabe como o demônio é astuto? Ele veio cobrar a promessa que você fez com ele. Ele veio buscar as nossas filhas, pois promessa é promessa, principalmente com o demônio, que ele só quer o mal. E agora? O que devemos fazer? Precisamos contar esta estória ao Padre. As meninas não dormiam. Nas refeições cuspia no prato o bicho feio fazia-lhe não se alimentar. Viviam aterrorizadas no quarto. Não brincavam mais e as coisas iam piorando. Logo cedinho, os dois se dirigiram a igreja. A missa estava terminando e eles esperaram a benção final. Foram à sacristia e o padre os reconheceu. Depois de tirar os paramentos o padre convidou para tomar o café da manhã em sua casa. Ali chegando, sentando-se, passou a contar toda estória do marido, no pacto que fez com o demônio para enriquecer e ao mesmo tempo consagrando as suas filhas a ele e, ele ali estava cobrando fazendo que as meninas adoecessem e morresse para cumprir o pacto. O padre ouviu todo relato em silencio. Somente o papagaio era a testemunha do que ele ouvia. Às duas horas da tarde, o Padre Simão, entrava na casa, de batina, estola, breviário, terço, água benta e o crucifixo. Ao encontrar as crianças elas se encolheram e padre começou a rezar e elas começaram a se mexer, tremiam, soltava gritos, escondiam o rostinho em pano sujo de terra, levantavam-se iam de encontro ao padre que lhes mostrava o crucifixo e elas paravam. Assim foi a tarde inteira entrando pela noite adentro. As rezas continuavam. A agua benta espalhada pelo quarto e os pingos quando batiam nas meninas eram como se fosse brasas, gritavam e limpava com a boca espumante. De madrugada o padre Simão já não aguentava, estava exausto, mas devia continua, pois tinha que vencer aquela ação diabólica. Por volta das cinco horas da manhã as meninas começaram a se aquietar deitaram-se na cama e dormiram. O padre saiu do quarto deformado com o cansaço da noite em debate com o demônio que se apossava daquelas crianças. Sentou-se na sala, tirando a estola, e colocando o breviário na mesinha junto com terço. E começou aconselhar o casal, principalmente, com o Tertuliano admoestando sobre a falta de fé em Deus e colocando em risco a vida das filhas. As meninas passaram o dia dormindo serenamente. Acordaram já com outro aspecto e com o passar dos dias se recuperam. “Tertuliano vendeu tudo e deu o dinheiro aos pobres que precisavam e recomeçou a vida trabalhando agradecendo a Deus pelo milagre que lhe aconteceu de não ter perdido as suas filhas.” Viu como o demônio é poderoso? Ninguém pode brincar com o mal que o mal acontece. Seu Tertuliano está morando na mesma casa... (Os nomes citados neste breve artigo são fictícios)

terça-feira, 1 de outubro de 2013

O armário




Por Carlos Sena (*)

(A modernidade muitas vezes não encontra novos termos para se comunicar acerca de antigos  modos de pensar, agir e sentir. No rol desses termos, muitas vezes cai nossa "ficha". No rol deles também nos sentimos, de uma forma ou de outra "no armário".)

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O  "armário" virou designativo de GAY que não se assume. A lógica dessa metáfora é interessante porque não há nada novo no termo. Mas houve uma ressignificação importante por conta de ser ele, o armário, uma alternativa de de abrigar coisas que são sem ser, mas que também poderão representar outras que nunca foram mas são.

O armário, no quarto, que é onde normalmente ele mais se encontra, está ali posto e na dependência do que se coloca dentro dele. Sua projeção psicológico-comportamental se estabelece em função de que tudo se pode colocar dentro dele, inclusive preferencias sexuais, sociais e morais. Há casos em que o armário deixa de ser metafórico para ser literal: quando alguém, por exemplo, coloca dentro dele o amante! Teremos então o amante do armário, diferente do GAY que vive no armário sem nunca nele ter entrado. Dito diferente, um entra sem nunca ter saído  e o outro sai sem nunca ter entrado. Há também os casos de gays que também socam lá dentro seus amantes por situações idênticas às do amantes heteros. Percebe-se que o armário tem mais serventia do que bombril pra limpar as "ferrugens" afetivas. Mas, As ferrugens sociais também poderão ser incluídas dentro dele,  do nosso decantado armário. Político que não sabe a quem bajule é um político a quem costumamos chamar de "em cima do muro" mas, que também poderemos dizer "no armário" pela ressignificação simbólica do termo.

Embora a comunidade GAY tenha se apoderado desse termo, podemos também utiliza-lo noutras construções. Tem puta no armário. Tem político no armário. Tem padre no armário. Tudo pode ter dentro dele, mas os que mais se locupletam são os gays até por necessidade de proteção. Proteção: essa é a chave do armário. Quem mais sofre nesse contexto são os gays, naturalmente. Porque muitos o fecham tão bem fechado  que esquecem onde guardaram as chaves e ficam sufocados sem dele poderem sair... Diferente dos políticos, das pautas, dos garotos de programa, dos padres e pastores e outros atores que são chegados a um armário. Outro dia um pastor foi visto disfarçado de pecador, pois,  estava entrando numa seção de cinema pornô. É o mesmo caso dos demais que se protegem no armário como forma de não perder o mercado de trabalho ou a pouca vergonha que alguns parecem ter por não se sentirem felizes por dentro, em conformidade com o que de verdade sentem.

O problema se estabelece quando o armário, já velho, começa a se deteriorar e os que estão  dentro dele podem ser pegos de surpresa. É quando literalmente a casa cai e com a queda o armário não suporta o peso e também cai com ela. Mesmo porque os armários, com o tempo se modernizam em seus leiautes. Alguns deles ficam até na modalidade de vidro fumê o que deve ser o "ó do bo-ro-go- dó", pois deixam os  usuários completamente sem proteção. Então, talvez seja nesse momento que, ao menor sinal de avaria dos armários muitos enrustidos decidem mesmo é "SOLTAR A FRANGA". Os heteros que por acaso estiverem nessa hora no armário poderão inclusive, levar um tiro! Ninguém nunca sabe da reação de um corno, mas, no geral, eles gostam de matar...

Os gays, de dentro do armário poderão ainda se divertirem. Lá dentro tem roupas de homem e de mulher, de sapo e de jacaré. Há armários que são completos e até guardam coisas exóticas como vibradores e outras da sexualidade censurada pelos pudicos. Dizem que alguns gays adoram quando suas esposas, coitadas, viajam sem eles. Porque eles ficam dentro do armário se vestindo com suas roupas e soltando a franga como se não existisse mais o dia seguinte - aquele em que  a esposa chega, flagra ele com um  BOY em sua própria cama! 

Como se vê armário dá até tese de mestrado e doutorado. Porque belo dia  a " casa cai", digo, o armário cai. Então será um deus-nos-acuda sem fim: purpurina, blache, batom, cornetas, trombetas, tapetes vermelhos, chuvas e trovoadas, tudo junto e misturado, porque entra filho desesperado que não aceita ter um pai de armário, sai a mãe inconsolada porque se acha incompetente por ter perdido o marido para um rapaz e por aí vai. É nessa hora que a "Ficha" cai qual o pano do teatro sinalizando que o "ESPETÁCULO TERMINOU"...

( "Ficha" já nem existe mais na conotação original, pois os poucos orelhões estão todos digitais. As fichas, coitadas, só servem hoje como pano de fundo da nossa pobre comunicação... E como traduzem bem o sentimento simbólico de quando a comunicação se estabelece por completo!)

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(*) Publicado no Recanto de Letras em 16/08/2013