Em manutenção!!!

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Brasil 3 x Lula 0 ou Brasil 7 x PT 1




“A compulsão de pedalar
        
Por Fernando Gabeira

O Brasil tem dois fatos marcados para o início de 2018. Um, com direta repercussão na política, o julgamento de Lula, em 24 de janeiro; e o outro, com impacto na economia, a votação da reforma da Previdência, marcada para 19 de fevereiro.

Em agosto de 2018 o impeachment de Dilma Rousseff completa dois anos, e existe ainda uma discussão aberta sobre se valeu a pena, se foi melhor para o Brasil.

Formalmente, Dilma foi derrubada por causa das pedaladas fiscais, por ter gastado mais do que permitia a lei. Nas comissões e no plenário do Congresso oradores se sucediam para condenar essa prática. Parte do governo de Dilma, o PMDB se voltou contra ela e apoiou o impeachment. Estavam todos horrorizados com as pedaladas fiscais.

Agora, o segundo aniversário do impeachment vem aí e o governo falou em aprovar, antes dele, uma lei que lhe permita pedalar sem ser punido legalmente. Ao que parece, não queria nem pedalar, mas passar da bicicleta comum para uma elétrica, destas que se movem sem o esforço das pernas. Em termos de nossas tradições, nas quais certas leis pegam e outras não, o governo Temer pretendia inovar. Não se trata mais de afirmar que a lei não pegou, e sim de uma lei que tira férias, como, por exemplo, o horário de verão: só vale em certa época do ano. Não há dúvida de que isso desmoralizaria a tese central do impeachment.

Todos sabemos, também, que a esperança do movimento popular era deter o processo de corrupção. Mesmo aí os resultados só podem ser creditados à Operação Lava Jato, porque o governo Temer não só fazia parte do esquema de corrupção anterior, como é muito mais audacioso que o PT, como mostra aquele maroto decreto de indulto no final do ano. Na verdade, são táticas diferentes. O PT faz coisas erradas e tenta convencer de que você é que está equivocado, tem uma visão conservadora, aristocrática – enfim, há um arsenal de adjetivos a serem usados em cada ocasião. O governo Temer usa a tática do se colar, colou. Sem debates, assinou um decreto abrindo uma área da Amazônia à mineração. Ouviu o barulho e concluiu: não colou. No caso da portaria que atenuava as punições ao trabalho escravo, da mesma forma, ouviu o barulho e concluiu: não colou. Vamos fazer algo mais severo ainda porque as eleições vêm aí. O indulto de Natal morreu no STF, por uma decisão de Cármen Lúcia. Duvido que sobreviva ao plenário, embora já imagine quem possa votar a favor. E, finalmente, as próprias pedaladas “dentro da lei” parecem não ter colado também.

O único saldo do governo Temer foi ter conseguido deter o processo de degradação da economia, propiciar uma discreta retomada do crescimento. Somado à reforma da Previdência, ainda que modesta, ganhará fôlego para ir até o fim, um pouco pela inutilidade de, simultaneamente, derrubar um governo e eleger outro em 2018.

Voltando ao calendário, suponho que a decisão do caso Lula este mês e a possível reforma da Previdência definam um cenário relativamente favorável ao debate sobre a reconstrução, implícito na campanha eleitoral.

Não abstraio a existência de protestos, caso a condenação de Lula seja confirmada. Mas o êxito máximo de um movimento desse tipo seria manter Lula em liberdade, apesar da condenação em segunda instância. Dar umas férias a essa determinação legal do STF.

A sentença de Sérgio Moro não será anulada. A tese de que houve uma perseguição judicial é difícil de se expandir para fora do petismo, pois foram vários anos de trabalho de investigação, toneladas de documentos, perícias, provas testemunhais.

Tudo isso aconteceu numa atmosfera democrática, com Congresso aberto, imprensa e, sobretudo, transparência. Aliás, o processo de investigações foi acusado mais por mostrar do que ocultar, como naquele diálogo entre Dilma e Lula em que Bessias levaria um documento de posse para proteger Lula da prisão.

A esquerda decide lançar todas as suas fichas na salvação do líder num momento em que a maioria está preocupada com a salvação do País. Essa energia concentrada em salvar Lula deixa de lado algumas questões vitais que ela teria de encarar num processo eleitoral.

Será difícil de afirmar que a corrupção é algo apenas do governo Temer, que conseguiu se equilibrar porque era o sócio menor no esquema descoberto pela Lava Jato. Será difícil de explicar como acabou com a pobreza e surgiram 52 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza apenas neste curto mandato de Temer. É como se 52 milhões de pessoas estivessem escondidas nos pântanos, nas selvas, favelas e sertões e tivessem aparecido apenas quando ouviram os gritos de “tchau, querida”.

De qualquer forma, mesmo distante do tema da reconstrução, a esquerda é importante fator subjetivo no cenário eleitoral. Ela afirma que as eleições sem Lula são uma fraude, em outras palavras, que a decisão do TRF-4, caso confirme a sentença, não vale. Na verdade, ela pede uma espécie de corredor em que alguns mecanismos legais sejam suspensos, para que ele possa prosseguir na salvação dos pobres, mandando-os de novo para a galáxia onde se escondiam antes do impeachment. Se a decisão do TRF-4 confirmar a de Moro, então seriam necessárias não só as férias da determinação de prender em segunda instância. Seria preciso, também, um congelamento da Lei da Ficha Limpa. Não afirmo que isso é impossível. Apenas muito improvável, uma espécie de distração dos problemas reais do País.

Na Venezuela, foi possível, por exemplo, colonizar a Justiça e corromper os militares com cargos e vantagens. Cada pessoa perdeu em média 5 kg nestes anos de Maduro. Os venezuelanos estão sumindo corporalmente, assim como os pobres sumiram nas estatísticas do PT.

É difícil elaborar os fracassos, partir para outra. Requer capacidade de dúvida, suspensão da fé religiosa em certos projetos políticos. Por enquanto, as esperanças do governo Temer e as do PT são de pedalar, driblando as lei da responsabilidade fiscal e as decisões da Justiça. No fundo, não eram só uma coligação, mas uma equipe de ciclistas.”

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AGD comenta:

Realmente, a situação do Brasil em 2018, como tentou mostrar o ex-homem da sunga, Gabeira, no texto acima, está de vaca não reconhecer bezerro e até colocá-lo na roda dos enjeitados. Tudo conspira contra.

Ainda bem que temos uma oportunidade, talvez única, de, nas eleições de outubro, votarmos louvando os que merecem e deixando os sujos de lado. Isto se aparecerem candidatos não sujos e que não demonstrem ideias que possam sujá-lo depois.

Temos no dia 24 de janeiro um julgamento histórico que já definirá, em parte, o nosso futuro. Se o Lula for inocentado, o que seria uma surpresa grande, nem adianta esperar o dia 19 de fevereiro, porque a Reforma da Previdência não passará, e em breve, o Brasil se tornará uma nova Grécia, onde os aposentados e pensionistas estão aprendendo que dinheiro público não dá em árvores.

E, depois virão as eleições se ainda houver Brasil vivo até lá. Eu estou um pouco pessimista, e digo pouco, porque sou um otimista contumaz. Atualmente, quem é otimista sem nenhuma adjetivação, é porque vive num carnaval permanente, como barracão de Escola de Samba.

No entanto, sempre resta uma esperança, e ela está em que, no dia 24 de janeiro, o placar do julgamento de Lula seja de 3 x 0. Se for, eu nem me importarei se Alemanha repetir os 7 x 1 contra do Brasil lá na Rússia. Há coisas mais importantes do que carnaval e futebol, embora o brasileiro, em sua grande maioria, não saiba.

E neste ano, são as eleições e não a Copa do Mundo que mais importam para o futuro do país, e temos que mudar o placar para Brasil 7 x PT 1, ou Brasil 3 x Lula 0, nas semifinais.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

A "regra de ouro de tolos"




“Uma regra que vale ouro
        
Por José Serra

A introdução da “regra de ouro” na Constituição de 1988 foi feita pela comissão que tratou de finanças públicas, da qual fui relator. O autor da emenda, por mim acolhida, foi o deputado Cesar Maia. A ideia é simples: não se deve gerar dívida para financiar despesas correntes. Há alguma analogia com o orçamento familiar. Não convém tomar emprestado para pagar contas de água, luz e telefone, pois nos meses seguintes as três contas se repetirão, porém acrescidas da dívida e dos juros.

É diferente quando a dívida é usada para investimentos. Estradas, energia, portos ou saneamento geram empregos, produção e arrecadação no futuro. Aumentar gastos correntes não garante crescimento econômico, que depende de aumento de capacidade produtiva, tecnologia, mão de obra qualificada, exportações de maior valor adicionado e outros fatores.

O espírito da regra de ouro é este: estimular os governos a poupar e investir. Ela foi estabelecida no artigo 167 da Constituição, que veda “a realização de operações de créditos que excedam o montante das despesas de capital, ressalvadas as autorizadas mediante créditos suplementares ou especiais com finalidade precisa, aprovados pelo Poder Legislativo por maioria absoluta”.

Em síntese, “operação de crédito” quer dizer aumento da dívida pública, decorrente de juros ou déficit primários, menos as receitas financeiras do governo. Já “despesa de capital” são os investimentos e amortizações da dívida.

Assim, a expansão da dívida pública não pode superar os investimentos. Por hipótese, se o governo investir R$ 50 bilhões em dado ano e as operações de crédito totalizarem R$ 60 bilhões, a regra de ouro terá sido rompida.

Vejamos os números da última década. Em 2007, o pagamento de juros reais sobre a dívida do governo federal ficou em torno de R$ 100 bilhões, os investimentos somaram R$ 22 bilhões e o superávit nas contas primárias foi de R$ 58 bilhões. As receitas financeiras oriundas da remuneração da conta única e do pagamento dos juros da dívida dos Estados e municípios à União totalizaram R$ 45 bilhões. Como se vê, a regra de ouro foi cumprida, pois o pagamento de juros somado ao resultado primário do governo, subtraídas as receitas financeiras, totalizou saldo negativo de R$ 3 bilhões, resultado inferior aos R$ 22 bilhões investidos naquele ano.

Essa foi a dinâmica dos anos subsequentes, graças a superávits primários elevados e às transferências de resultados positivos do Banco Central para o governo.

Entre especialistas, o sinal de alerta acendeu entre 2015 e 2016, quando se percebeu que déficits primários crescentes poriam em xeque a regra de ouro. De fato, se a devolução de R$ 100 bilhões do BNDES não tivesse sido feita em 2016, o descumprimento da regra de ouro teria quase ocorrido. Os investimentos federais foram de R$ 65 bilhões e o líquido das operações de crédito, de R$ 61 bilhões. Com a devolução feita pelo BNDES (recursos que aumentaram a dívida no passado para que o banco concedesse empréstimos), as receitas financeiras aumentaram em R$ 100 bilhões e, assim, o total de operações de crédito caiu para R$ 39 bilhões negativos.

Em 2017, a devolução de R$ 50 bilhões do BNDES auxiliou novamente o governo no cumprimento da regra. Alguns dados ainda não são oficiais, mas é possível estimar que os investimentos tenham ficado em torno de R$ 55 bilhões e as operações de crédito, próximas de R$ 38 bilhões, uma diferença de R$ 17 bilhões. Sem os R$ 50 bilhões do BNDES, a regra teria sido rompida em R$ 33 bilhões. Um efeito colateral dessa transferência foi a perda de capacidade de financiamento do banco, a juros decentes, para investimentos produtivos.

Uma análise dos números e projeções mostra que a regra de ouro tende a ser descumprida neste e nos próximos anos. Trata-se de um sintoma de problemas mais sérios, como o desmonte do modelo de crescimento, com forte impacto sobre as receitas fiscais.

Alterar a Constituição para mudar a regra de ouro, no entanto, não seria conveniente. O bom funcionamento da economia requer credibilidade. Se as perspectivas sobre o futuro são abaladas, o presente é afetado: exigem-se mais juros para financiar a dívida, produtores reduzem investimentos, consumidores guardam dinheiro e o crédito se reduz. Mudar a Constituição poderia causar esse efeito negativo sobre as expectativas. Por essa razão, o melhor a fazer, no curto prazo, é valer-se do dispositivo já presente na Carta Magna que permite o descumprimento temporário da regra com autorização do Legislativo. É o caminho natural: usar os instrumentos já previstos na própria Constituição.

Mas não podemos parar por aí. O descumprimento da regra de ouro é apenas a face mais visível da crise de financiamento do Estado. A intenção dos constituintes, com a regra de ouro – posso afirmar com clareza –, era motivar o investimento em infraestrutura, fundamental para o crescimento, proibindo criação de dívida para custear despesas do dia a dia.

Mas o investimento público, incluindo Estados, municípios e União, nunca esteve tão baixo – R$ 127 bilhões no período de 12 meses encerrado em junho de 2017 –, como mostrou recente estudo da Instituição Fiscal Independente (IFI).

O excesso de vinculações e a rigidez da despesa engessam a ação dos governantes e impedem a escolha democrática sobre como alocar os recursos dos impostos. Este é o nó a ser desatado já. Mais de 90% do Orçamento está predeterminado na Constituição ou em alguma legislação. Não há espaço para escolha de prioridades.

A correção de rumos no plano fiscal deve prosseguir, mas o ajuste não pode continuar a prejudicar investimentos para elevar gastos correntes. É hora de recuperarmos a capacidade de planejamento e ação do poder público, fixando uma estratégia nacional voltada para a expansão das taxas de crescimento do produto interno bruto (PIB) e para o controle do gasto público, combatendo desperdícios e privilégios encravados no setor público brasileiro.”

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AGD comenta:

Eu estava procurando um texto que pudesse aqui publicar e que fosse pelo menos inteligível, para um não economista, sobre o que é a tão falada “regra de ouro”, sobre a qual tanto ouvimos nos meios de comunicação.

Encontrei o texto acima, do Jose Serra, que já foi tudo neste país, menos presidente da república. Eu até já votei nele para tal cargo. Hoje, eu não sei se faria o mesmo, pelos rumores corruptivos que apareceram a seu respeito.

No entanto, não se pode negar que ele seja um bom economista e um administrador capaz. Penso nele toda vez que compro os “genéricos” nas farmácias, implantados quando era ministro da saúde. Mas, afinal, o que é a “regra de ouro”?

Para quem leu o artigo sabe que ela foi implantada na Constituição de 1988, para evitar que os governos gastassem mais em bugigangas do que em investimentos sérios para melhorar o futuro das pessoas. E o Serra deve ter tido grande participação em sua elaboração.

Sua sensatez é visível com o exemplo dado sobre a “regra de ouro” numa entidade familiar. Se um chefe ou chefa de família só gasta com o almoço de hoje e não ver que ele tem que comer todos os dias, a família, pelo menos teoricamente, nunca comerá mais do que o que come. Se ele toma emprestado para almoçar, fatalmente, se não der o calote nos juros devidos aos credores, a tendência é o almoço diminuir com o tempo.

O que diz a “regra de ouro” então? Sempre que almoçar pense em melhorar o almoço de amanhã, investindo parte do dinheiro, em coisas que rendam dinheiro no futuro. E o que vimos nos governos mais recentes, foi o abandono desta regra, com o intuito de pegar o voto com um almoço grande, sem investir no futuro.

Ninguém é contra os chamados gastos sociais que tirem da miséria quem é miserável, mas, ceteris paribus, como gostava de escrever quando ainda lembrava de Economia, se não tirarmos os recursos de algum lugar ou de outras pessoas, fatalmente, os investimentos diminuirão, e é esse o grande problema brasileiro, agravado pelos governos petistas que diziam ter tirado o Brasil da miséria, embora o tenha colocado mais no fundo do poço.


Eu penso que se elegermos um governo sem a promessa de manter a “regra de ouro”, descobriremos breve que teremos implantada a “regra de ouro de tolos”. Portanto, votem bem!

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

A comédia bufa com a sra. Brasil




“A comédia bufa com a sra. Brasil
        
Por José Nêumanne

Os policiais do Rio Grande do Norte não receberam seus vencimentos de dezembro nem o equivalente ao 13.º salário. Por isso pararam de trabalhar, comprometendo gravemente a segurança pública do Estado. Alegam também não ter condições de entrar em ação porque a frota está sucatada e os equipamentos à sua disposição não lhes permitem enfrentar o cotidiano arriscado e violento em condições condizentes. Não são, como se vê, só pretextos.

A desembargadora Judite Nunes considerou o aquartelamento dos policiais militares e a paralisação dos civis indícios de greve dos agentes estaduais de segurança e isso não é permitido por lei. Mas os policiais não voltaram a patrulhar as ruas e as delegacias continuaram sem funcionar. O desembargador Cláudio Santos, do Tribunal de Justiça, então, determinou que o comandante da Polícia Militar e o secretário de Segurança Pública prendessem os amotinados. Estes se reuniram, algemaram-se a si próprios, num gesto de rebeldia e desafio, mas não foram, e ainda não estão, presos. A solução encontrada foi mandar tropas federais para o Estado sem polícia. Até quando? Quem garante o quê nessa situação? A quem o cidadão desarmado e à mercê de bandidos armados até os dentes na rua deve apelar? Ao papa argentino? Ao bei de Túnis? À Virgem Maria? Ou a Iemanjá, a rainha do mar?

O impasse do Rio Grande do Norte não foi isolado, nem único, nem singular. Os servidores do outro Rio Grande, o do Sul, tomam dinheiro emprestado em bancos para sustentar a família, já que o disponível nos cofres do Estado não lhes supre as necessidades. É o caso de outra Unidade da Federação com nome de Rio, o de Janeiro. Sem recursos para pagar suas contas, funcionários fluminenses reúnem-se nas ruas, gritam palavras de ordem, armam barricadas e queimam pneus. Em vão! Em Aparecida de Goiânia, as facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e Comando Vermelho (CV), do Rio, degolam, trucidam e incineram os oponentes ao lado.

Sete dos nove governadores do Nordeste atribuem a situação terminal de seus presídios à inerte insensibilidade do governo federal. O ministro da Justiça, Torquato Jardim, recebe as críticas sem humildade, com quatro pedras na mão. Nessa pendência ninguém tem razão. Os Estados, entes federativos responsáveis pela segurança dos cidadãos, desperdiçam quase tudo o que arrecadam em salários, penduricalhos e outros privilégios do corpo funcional inchado e disforme, cujo dispêndio é desproporcional à capacidade do erário. A União, que deveria mais propriamente ser chamada de Desunião, ocupa-se em distribuir emendas orçamentárias para manter prerrogativas, como o foro privilegiado.

Como não há mais bei em Túnis e os prelados católicos já não dispõem de patrimônio para alimentar e vestir os servidores flagelados, os governadores rebelados apelam ao que lhes parece disponível: o Judiciário. Pediram audiência à presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e, como parece não ter mais a fazer, Cármen Lúcia os recebe. A exemplo dos cavaleiros gaúchos do célebre poema do folgazão pernambucano Ascenso Ferreira, “para quê? Para nada!”. Na reunião, a procuradora de origem só pode usar belas frases inúteis e vazias de sempre. De nada servem. E os chefes dos Executivos estaduais entram e saem de mãos abanando.

Na presidência do STF, Cármen Lúcia interpreta as fadas dos contos infantis e tem valia similar à delas. Em 2017, também presidente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ela visitou presídios do País, mas passou ao largo de Aparecida de Goiânia, pois o governador de Goiás, Marconi Perillo, achou que seria impróprio. Agora ele mudou de opinião, mas repetiu-se o forfait: não tinha o que fazer lá. Em 2014, e há dois meses, ela encarregou subordinados de fazerem relatórios sobre a prisão. Nada mudou e veio o réveillon do horror.

Seria o caso de, em reuniões como essa, ou quando dispara ordens para que preparem relatórios que só repetem os anteriores e nada produzem de efetivo, dona Cármen e seus dez pares da távola-ferradura se darem as mãos e entoarem em coro, fazendo eco a Roger Moreira e ao Ultraje a Rigor: “Inútel, a gente somos inútel”. Mas, não: enquanto o governador Perillo faltava ao expediente e se escondia da crise pulando as sete ondinhas para Iemanjá numa praia de Pernambuco, Cármen, no plantão do último recesso, antes de passar coroa e cetro para Dias Toffoli, não podia ter perdido essa chance para proferir mais uma frase de efeito. Ela já disse: “Cala a boca nunca mais”. E mais: “O cinismo venceu a esperança e agora o escárnio venceu o cinismo”. Não seria esta a hora de o inócuo derrotar o escárnio? É o que parece!

Hoje nossos presídios são puxadinhos dos palácios. Serviçais de Geddel Vieira Lima, residente na Papuda, em Brasília, cuidam de seus interesses na Secretaria de Governo, sob Carlos Marun, capanga de Eduardo Cunha, que mora numa cela, em Curitiba. A ministra a ser encarregada da reforma trabalhista foi indicada por papai, o ex-presidiário Roberto Jefferson, delator, réu confesso do mensalão, indultado por Dilma e perdoado pelo STF, sempre apto a soltar, nunca disposto a prender. A filhota, condenada por violar as leis trabalhistas, paga acordo com outro “ex-escravo” dispondo da conta bancária de uma assessora, da mesma forma que Job Brandão, ex-empregado da famiglia Vieira Lima, “doava” 80% dos vencimentos às contas dos chefões. A débil gestão Temer caiu... por enquanto na galhofa geral. E se prepara para não reformar a Previdência, mesmo com a ficha-sujíssima sra. Brasil na equipe.

Sendo Cármen Lúcia inapta e inepta para decepar o nó górdio que pretende desatar, e à falta de beis e bispos, a plateia pagante do show só exige que se investiguem todos os suspeitos e se prendam todos os culpados, sob pena de este sr. Brasil velho não ter mais cura.”

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AGD comenta:


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quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Em quem votar?




“Ataque especulativo
        
Por Eliane Cantanhêde

A candidatura do tucano Geraldo Alckmin está sob ataque especulativo desde que ele fechou 2017 e entrou no ano eleitoral como a melhor (talvez única) opção de centro, mas sem empolgar os políticos, o mercado e o eleitorado. O pior golpe partiu justamente do principal líder do PSDB, o ex-presidente Fernando Henrique. Ao ser pragmático e realista, FHC beirou a crueldade ao analisar as chances do governador.

Em entrevista ao Estado, já no primeiro dia útil do ano, o ex-presidente lançou um misto de advertência e grito de guerra: ou Alckmin finalmente mostra que pode aglutinar o centro, convencer o eleitor e se viabilizar como candidato, ou o PSDB poderá, sim, apoiar “alguém com capacidade para juntar e que tenha princípios próximos aos nossos”.

Uma cacetada. E ganha ainda mais força porque Luciano Huck deixou uma ponta solta ao jogar a toalha e entrou em 2018 retomando conversas com o PPS, consultando institutos de pesquisas e botando sua tropa de prontidão. Dizem as más línguas que FHC respalda esses movimentos.

Além disso, mesmo tucanos atuantes a favor de Alckmin deixam escapar algo que pode parecer muito bom para a imagem do governador, mas é corrosivo para a sua pré-campanha: que “ele seria ótimo presidente, pena que não seja bom candidato”. Ajudar a decolar é que não ajuda.

Para completar, os sete partidos governistas que discutem alternativas – não especificamente a Alckmin, mas a qualquer nome tucano – passaram a ter organicidade e sede. A última reunião foi, nada mais, nada menos, no Palácio do Planalto. Segundo o ministro Moreira Franco disse ao O Globo, “há possibilidade de um candidato próprio”. De picardia, destacou que “o PSDB não estava na reunião”.

Não é nada, não é nada, esses partidos (MDB, PSD, DEM...) reúnem algo como 300 deputados federais e, juntos, o maior tempo, disparado, na propaganda eleitoral gratuita da TV. Qualquer nome que concorra com apoio deles já larga com uma boa dianteira. O problema é justamente esse: que nome?

Os líderes do movimento falam de Henrique Meirelles, que acende velas pela reforma da Previdência e vai a um culto evangélico atrás do outro pela candidatura. Mas nem o ministro Gilberto Kassab, presidente do partido dele, o PSD, embala essa candidatura. Em recente jantar com o ex-senador Jorge Bornhausen, seu grande amigo, Kassab riu quando lhe perguntaram do apoio a Meirelles: “Se ele conseguir viabilizar a candidatura...” Em linguagem política, significa: “Não vou mexer uma palha”.

O polo governista fala ainda no deputado Rodrigo Maia, que cresceu muito na crise e é do DEM, que, apesar de arranhões, vem sobrevivendo melhor do que todos os grandes ao tufão Lava Jato. Mas Rodrigo sabe que é muita areia para o caminhãozinho dele e tudo indica que vá investir na reeleição para a presidência da Câmara e na candidatura do pai, César Maia, ao governo do Rio. Sobra quem?

Enquanto os tucanos, o Centrão e o governo atacam a única opção realmente consistente que têm até agora – Geraldo Alckmin –, o PT está unido para o que der e vier, ou para quem der e vier, e Bolsonaro pula de um partido ao outro, acaba de pousar no PSL e está se lixando para acordos políticos. Seu negócio é vender ilusões para os eleitores desiludidos.

O governo tenta passar a ideia (vide o ministro Carlos Marun) de que a eleição presidencial só começa depois da votação da reforma da Previdência, em 19 de fevereiro. Mas ela começa mesmo é com o julgamento de Lula, dia 24, no TRF-4. Alckmin tem entre 24/1 e 4/3, dia das prévias do PSDB, para mostrar o que FHC cobra: condições de vencer. Senão, Huck pode ressurgir das cinzas e o Centrão vai passar das palavras aos atos.”

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AGD comenta:

Hoje, a menos de 1 ano das eleições para presidente, não tenho certeza ainda de quem será candidato ou não, talvez com exceção do Capitão Bolsonaro, pelo menos com o que ele diz, que para ser candidato, “prende e arrebenta”.

Lula também faz o mesmo e bate o pé que se candidata até se estiver preso, talvez para se comparar a Nelson Mandela, o que não é possível nem na cor. O que se espera é que, bem muito antes disso ele seja impedido, pela Lei da Ficha Limpa ou Suja.

E a Eliane, acima, fala do Alckmin, como uma possibilidade. Eu não creio muito. Pelo que vi este final de semana, quem está doida para ser primeira dama é a Angélica, esposa do Luciano Huck, com o apoio do Faustão.

Isto dar-nos uma ideia de quanto vai ser difícil o nosso voto nestas eleições. Eu, talvez, só vá decidir sobre o meu dentro da cabine indevassável ou não. Soube que a partir de certa idade nem sou mais obrigado a voltar, ou seja, a gente volta a ser criança outra vez. Até lá devo me enquadro nesta norma.


De qualquer forma, a pergunta mais difícil hoje para o eleitor consciente é: Em quem votar?

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

JULIO ENGOLE COBRA!




Por José Antonio Taveira Belo / Zetinho


Seu Ulisses morava na ponta de rua da cidadezinha Mandacaru. Sua casa pequena dava para o sitio que dali tirava o seu sustento. No seu pequeno sitio por trás de casa tinha duas vaquinhas, dois porcos baê, galinhas que cuidava com muito carinho. O leite tirado das vacas vendia aos vizinhos, fregueses certos. Os porcos no chiqueiro prontos para a venda aos açougueiros.  As galinhas e os ovos que colhiam diariamente eram vendidos na porta de casa ou nos dias de feira. Tinha plantação de macaxeira, batata doce, jerimum, inhame, além dos canteiros de coentro, alface, quiabo, chuchu, pimentão, maxixe que colocava a venda em sua barraca na feira dos sábados. No sitio tinha pés de manga rosa e espada, manguito, caju, abacate, pinha, laranja, tudo este frutos faziam parte com a venda para o seu sustento.   Casado com dona Juína, mulher de fibra, nordestina, trabalhadora no mato, mãos calejadas ajudava seu marido na lida do dia a dia.  Viviam em perfeita harmonia. Do casamento vieram dois filhos o Julinho, e Jacinta. Apesar da pobreza os filhos sempre andavam bem vestidos quando ia à missa no domingo na Igreja São Cristóvão do Padre Bernardino, um capuchinho vindo do estrangeiro. Fala meio enrolada e sorriso aberto entre a grande barba já grisalha. Julinho um menino afeiçoado, cabelos loiro olhos azuis enquanto a Juvina demonstrava beleza com os cabelos compridos aloirado, com laço de fita azul, olhos azuis.  Bem pequenos brincavam, sempre no quintal e ali sempre havia muitas lagartixas, calango e cobras, pois o matagal do sitio oferecia estes repteis. Brincando certo dia, Seu Ulisses ficou apavorado com Julinho com uma cobra de duas cabeças, enrolada na mão e colocando uma das cabeças na boca. O grito foi forte e o menino somente de dez anos começou a rir. Soltou a cobra que se escondeu debaixo do pote de barro onde a agua era colocada para beber, na cozinha. Dona Juína ficou apavorada e por muito tempo os meninos brincavam na sala e não no quintal da pequena casa.  A notícia se espalhou com este acontecimento, em toda vizinhança contada pelo pai. Julinho mais de uma vez foi encontrado brincando com cobras no quintal de sua casa fugindo dos olhares da sua mãe. Os colegas começaram chamar “Julinho engole cobra” e o apelido pegou na rua e na escola, Para onde ia o pessoal mostrava lá vai o menino “engole cobra”. Cresceu, tornou-se um rapaz estudioso, mas nunca deixou de gostar de serpentes, de vez em quando no decorrer dos anos apanhou cobras no sitio do pai, quando ia colher frutos. Corria pelo mato e quando alcançava dava um bote, ao invés da cobra, e com a mão direita sustentava a cabeça e com a esquerda o rabo, imobilizava e olhava para ela e depois soltava. Estudou na escola levando este apelido, ficando conhecido na cidade por este apelido que incomodava o seu pai e a sua mãe, o seu filho era conhecido “Julinho engole cobra” as brincadeiras se tornaram frequentes inclusive as brincadeiras de mau gosto. Não havia reação, pois, dizia ele com o tempo esquecia. Foi na cidade grande que despertou para a venda de produtos medicinais do mato. Ficou entusiasmado com o vendedor com um microfone no pescoço oferecendo a uma multidão que o cercara, os seus remédios caseiros, folhas de mato espalhado em uma lona no pátio de uma igreja, comum sagui no ombro. Um dia sentado no alpendre, viu uma cascavel passar roçando os seus pés. Não se incomodou. Pensou vou vender medicamentos do mato para todos os males, picada de cobra, de caranguejeira, escorpião, de cachorro doido, impaludismo e os males do corpo. E assim foi até uma cidade vizinha e comprou vários tubos de pomadas, rezinas, em pequenos frascos. Apanhou uma cobra levando para o centro da feira em uma maleta amarela e listra pretas para dar maior visibilidade ao povo.. Ali, estirou uma lona, espalharam os matos, açafrão, aroeira, boldo, alcachofra, alecrim, chá preto, alfazema, arruda, cordão de frade, erva doce, capim santo, colônia, sabugueiro, erva cidreira, matruz, quebra pedra, romã, gengibre e tantos outros e pomadas para dor nas costas, para ferida braba, para inchaço nos pernas e pés, dor de cabeça, defluxos, falta de ar, tosse braba, sarampo, catapora, espinhela caída, e abriu uma maleta onde a cobra descansava toda enrolada ignorando os curiosos que ali estavam. Fazia seu trabalho duas vezes por semana e a noite estudava.  Estudou bastante para ter conhecimento do que vendia para explicar os medicamentos, o espanto foram grandes, os feirantes matutos arrodeou o local onde Julinho oferecia os seus produtos, informando sobre aqueles medicamentos atuava na cura dos males que atacavam o povo. Assim se fez durante muito tempo. Seguiu para a cidade grande com o mesmo intuito de vender nas feiras e mercados públicos os seus remédios. Deu-se bem na venda destes produtos principalmente para os mais pobres que o cercavam, querendo mexer na cobra que já estava domesticada e cansada, onde muita gente passava a mão nela enrolada nos pescoço de Julinho. Não se descuidou da vida, começou a estudar, passou no vestibular de biologia e começou a pesquisar a vida deste repteis. Foi contratado depois de muita dedicação no estágio, pela fundação do Butantã e ali se tornou um grande pesquisador de cobras sua preferência.