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quarta-feira, 20 de março de 2013

A Escolinha do Professor Mercadante





Por Zezinho de Caetés

Na última terça-feira vi, no Jornal Nacional, que redações do ENEM, que tiraram a nota máxima, e isto significa, pela nossa lógica de ex-professor da matéria, a nota que daríamos a uma redação do Machado de Assis, incluíam termos como “rasoavel”, “trousse” e “enchergar”.

Eu já havia visto alguns textos sobre estes disparates, e escolhi um deles, como representativo das opiniões, pelo menos daqueles que estão de fora do MEC e da responsabilidade pela correção da prova, pertencentes segundo ele: “A Escolinha do Professor Mercadante”, que reproduzo lá em embaixo, para suas apreciações.

Eu até cheguei a discutir alguma coisa sobre o uso de nossa língua pátria, inclusive com o José Fernandes que escreveu um bom texto esta semana aqui na AGD. Eu sempre fui a favor da Reforma Ortográfica e ele contra. Hoje, já temos que ser todos a favor, eu me volto para o problema do uso da norma culta da língua, que é uma instituição que temos e que é de muita importância para a existência, como nação, do nosso povo.

Eu sempre fui liberal em termos de escrever e falar a nossa língua, achando que ela é dinâmica e merece incluir as transformações por que passa o mundo moderno em termos de informação e comunicação. Quando proponho usar “imeio”  e o uso certas vezes, ao invés de “e-mail”, é apenas uma forma de criar palavras para o futuro, e não como um erro grosseiro como aqueles que vieram nas redações “nota mil” do ENEN. Tal qual “deletar” que já se encontra dicionarizada, em futuro breve, talvez “imeio” também o esteja.

Mas jamais aconselhei que alguém usasse (sem as devidas explicações) termos como “linque”, “internete”, “blogue”, etc. numa redação do ENEM, muito menos em documentos importantes, e que exigem o uso de nossas normas de escrita. O que defendo é a flexibilidade destas normas, para incluir os avanços da própria língua. Tanto acho errado hoje escrever “Pharmacia”, quanto “linque”, para efeitos do uso da linguagem escrita, principalmente, em instituições como o MEC, que deveria zelar pela norma culta e não ficar “pegando os peixe”, orientados por ideologias malucas que nos querem transformar a todos em Jecas Tatus.

Alguns perguntarão, e qual a diferença entre escrever “enchergar” e “linque”? Eu diria que, em princípio, nenhuma. Desde que se explique no contexto porque se está usando um e outro. O estudante poderia está imitando alguém que assim escrevesse, como estou fazendo agora. Por exemplo, o que li ontem no Blog Chumbo Grosso, a que eu daria nota mil:


PITACO DO BLOG CHUMBO GROSSO: - COMO DIZ GENTE DECENTE, “EU SE DIVIRTO”... É "RASOAVEL" PARA ELE "ENCHERGAR" O QUE VOCÊ "TROUSSE". POIS BEM, MERCADANTE, O ECONOMISTA DE BOTEQUIM, É O CHEFÃO DA EDUCAÇÃO NO GOVERNO DA BÚLGARA TRESLOUCADA. QUANDO SE PENSA QUE A COISA PODE PIORAR, NOS ENGANAMOS. ELAS PODEM FICAR PÉSSIMAS. HADDAD, AQUELA COISA HORROROSA ESCOLHIDO PELOS PAULISTANOS COMO PREFEITO, SUBMETEU O ENEN AOS MAIORES VEXAMES EDUCACIONAIS DE TODOS OS TEMPOS. NUNCA ANTES NA HISTÓRIA DESTEPAÍZ, SE FEZ TANTAS CAGADAS EDUCACIONAIS. MESMO ASSIM, CONTINUO ACHANDO O LULA O “MÁSSIMO” E A DILMA “EXPETACULAR”... AGORA, QUANTO AO PT É O PARTIDO DA “IGUINORANSA”, DO  “ATRAZO” E DOS SEM “EDUCASSÃO”. PAPA FRANCISCO, PAPA FRANCISCO!!! QUANDO VAMOS NOS LIVRAR DESSA PRAGA?!?!?!


Sem isto é um erro crasso, e sua redação não mereceria a nota máxima de um professor de português sensato.

Tenho certeza quando meu público leitor encontra um “linque” no meu texto, já sabe que isto é coisa do Zezinho, e não o repete na escola. Embora eu o ache melhor do que “link” ou “conexão” ou outra coisa qualquer que nem sei se existe, em português, com o mesmo significado. E eu aconselho, esperem pela sua dicionarização, em breve ele sairá.

Antes de partir, tenho que dizer apenas uma coisa: Estudem português, usem os dicionários e a gramática, leiam muito e nunca deixem de se expressar, seja escrita ou oralmente, porque possam cometer erros de português. Eu cometo às pencas, e olhem que já estudei isto bastante. No entanto, quando forem fazer as provas, concursos, escrever em blogs, nunca queiram “enchergar” muito longe, enxerguem mais perto e sigam o linque da AGD.

Fiquem com o texto do Reinaldo Azevedo inclusive com o título, que me inspirou para intitular o meu. É só para vocês não dizerem que nunca “trousse” nada para vocês. Eu trouxe sim.


“Na “Escolinha do Professor Mercadante”, redações como “rasoavel”, “trousse” e “enchergar” merecem nota máxima!

É espantoso!

O jornal “O Globo” pediu que redações que receberam a nota máxima no Enem — 1.000 — fossem enviadas à redação para servir de exemplo e coisa e tal.  Chegaram algumas. E lá havia maravilhas como “rasoavel”, “trousse” e “enchergar”. Parece pouco? Havia erros em penca de concordância verbal, de concordância nominal, de conjugação verbal, de acentuação. Não obstante, esses candidatos mereceram a nota máxima — é bem provável que os corretores também não soubessem o certo, não é?

O Globo entrou em contato com o MEC. Recebeu uma resposta burocrática e cretina. Em nota, o ministério afirma que “um texto pode apresentar eventuais erros de grafia, mas pode ser rico em sua organização sintática, revelando um excelente domínio das estruturas da língua portuguesa”.

É enrolação. Ninguém está sustentando o contrário. Até pode acontecer. Ocorre que “nota mil” caracteriza a redação que conseguiu eficiência máxima em todos os quesitos. E um deles é justamente a fidelidade à normal culta da língua. De resto, “trousse”, “enchergar” e “rasoavel” não são variantes linguísticas nem segundo as considerações dos aloprados do “nós pega os peixe”. Vai bem a escolinha do professor Mercadante. Leiam trecho da reportagem de Lauro Neto.
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“Rasoavel”, “enchergar”, “trousse”. Esses são alguns dos erros de grafia encontrados em redações que receberam nota 1.000 no Exame Nacional de Ensino Médio 2012 (Enem). Durante um mês, O GLOBO recebeu mais de 30 textos enviados por candidatos que atingiram a pontuação máxima, com a comprovação das notas pelo Ministério da Educação (MEC) e a confirmação pelas universidades federais em que os estudantes foram aprovados. Além desses absurdos na língua portuguesa, várias redações continham graves problemas de concordância verbal, acentuação e pontuação. Apesar de seguirem a proposta do tema “A imigração para o Brasil no século XXI”, os textos não respeitavam a primeira das cinco competências avaliadas pelos corretores: “demonstrar domínio da norma padrão da língua escrita”. Cada competência tem a pontuação máxima de 200 pontos.

Segundo o “Guia do participante: a redação no Enem 2012”, produzido pelo MEC, os 200 pontos na competência 1 são atingidos apenas se “o participante demonstra excelente domínio da norma padrão, não apresentando ou apresentando pouquíssimos desvios gramaticais leves e de convenções da escrita. (…) Desvios mais graves, como a ausência de concordância verbal, excluem a redação da pontuação mais alta”. O manual aponta, entre os desvios mais graves, erros de grafia, acentuação e pontuação. Na mesma redação em que figura a grafia “rasoavel”, palavras como “indivíduos”, “saúde”, “geográfica” e “necessário” aparecem sem acento. E ao menos dois períodos terminam sem o ponto final.

Em outro texto recebido pelo GLOBO, aparecem problemas de concordância verbal, como nos trechos “Essas providências, no entanto, não deve (sic) ser expulsão” e “os movimentos imigratórios para o Brasil no século XXI é (sic)”. O mesmo candidato, equivocadamente, conjuga no plural o verbo haver no sentido de existir em duas ocasiões: “É fundamental que hajam (sic) debates” e “de modo que não hajam (sic) diferenças”. Uma terceira redação nota 1.000 apresenta a grafia “enchergar”, além de problema de concordância nominal no trecho “o movimento migratório para o Brasil advém de necessidades básicas de alguns cidadãos, e, portanto, deve ser compreendida (sic)”. Em outro texto, além da palavra “trousse”, há ausência de acento circunflexo em “recebê-los” e uso impróprio da forma “porque” na pergunta “Porém, porque (sic) essa população escolheu o Brasil?”. Pós-doutor em Linguística Aplicada e professor da UFRJ e da Uerj, Jerônimo Rodrigues de Moraes Neto diz que essas redações não deveriam receber a pontuação máxima.

“A atribuição injusta do conceito máximo a quem não teve o mérito estimula a popularização do uso da língua portuguesa, impedindo nossos alunos de falar, ler e escrever reconhecendo suas variedades linguísticas. Além disso, provoca a formação de profissionais incapazes de se comunicar, em níveis profissional e pessoal, e de decodificar o próprio sistema da língua portuguesa”, aponta Moraes Neto.

Claudio Cezar Henriques, professor titular de Língua Portuguesa do Instituto de Letras da Uerj, reitera que, ao ingressar na universidade, esses alunos terão de se ajustar às normas da língua de prestígio acadêmico se quiserem se tornar profissionais capacitados. Ele observa que a banca corretora não usa o termo “erro”, mas “desvio”, algo que, segundo ele, é “eufemismo da moda”.

“A demagogia política anda de braço dado com a demagogia linguística. É preciso lembrar que as avaliações oficiais julgam os alunos, mas também julgam o sistema de ensino. Na vida real, redações como essas jamais tirariam nota máxima, pois contêm erros que a sociedade não aceita. Afinal, pareceres, relatórios, artigos científicos, livros e matérias de jornal que contiverem esses desvios/erros colocarão em risco o emprego de revisores, pesquisadores e jornalistas, não é?”, ele indaga.”

terça-feira, 19 de março de 2013

A MERDA VIRA BONÉ.





Por Carlos Sena (*)

Se você tem dúvidas sobre certas coisas continue tendo. Melhor ter sempre dúvidas acerca de certas certezas que a gente prefere não acreditar nelas. Uma dessas certezas está no peido. Na bufa. No pum, pra ser mais discreto e dar uma sonoridade à palavra que tanto fede. Ora, já não basta feder, tem que ter pelo menos um sustenidozinho para o alivio do processo. Mas, afinal, que certeza será essa, ora direis! A certeza de que nós somos, enquanto humanos, totalmente falso moralista. Quer tirar a dúvida? Solte um peido num local em que todos tenham certeza que foi você. Certamente alguém vai dizer: “vai mijar, porque você acabou de cagar”. Ou então: “vai pro banheiro que lá é o local de cagar”... Outro cenário: Belo dia, você está no banheiro dando uma mijadinha e, inesperadamente, sai um Pum atrevido e você fica todo sem jeito, exceto se você estiver sozinho. Estou falando, evidentemente, de uma pessoa do sexo masculino. Pois bem: mesmo sozinho na hora do pum sair, se entrar alguém e sentir o “vudu” (mau cheiro), a catinga, você fica escabreado e logo tenta disfarçar. Pegando um gancho nessa história, lembrei-me de um cara que estava cagando e alguém entrou no banheiro. O fedor era tamanho que a pessoa fez xixi e saiu correndo. Só que antes de deixar o banheiro gritou para o cagão: “chama o bombeiro com um lança chama para evitar que haja  incêndio”! O cagão ficou arretado, mas não soube quem foi o autor da peça vernacular bufenta. Qual seria então a moral dessa história. Ora, cagar é tão natural como comer, mas a gente sempre acha que  quem caga fedorento é o outro, nós não. Entrar no banheiro e sentir cheiro de merda azeda, a vapor, gaseificada, empacotada, certamente não será de se estranhar. Mas nós estranhamos. O detalhe disso é que mesmo se comêssemos flores não cagaríamos perfume. Pelo visto e sentido, a gente nem no banheiro pode soltar pum nem cagar como se deve. Ou “arriar o barro”, como se diz na linguagem dos caminhoneiros, principalmente se for banheiro coletivo como se shopping ou do local de trabalho.

Escatologias a parte, somos mesmo falso moralista até pra cagar. Certo que não é um assunto tão digno de notas, mas há momento em que a gente precisa denunciar à merda o que o peido faz e ao peido o que a merda executa. Difícil é não querer entender que quando a gente não caga ou não peida é só porque não chegou o momento deles – da merda e dos gases. Pegando carona no jargão popular que sempre quer saber “qual é o órgão mais importante” do corpo humano, certamente a gente fica tentado a dizer que é o fiofó. No dia em que o “franzido” se revoltar e fizer uma insurreição, a gente tá lascado. Se ele se fechar por mais de dois dias a gente começa a ter febre e frio e dor de cabeça... Então ele poderá nos perguntar: “afinal, quem é o órgão mais importante do corpo humano”? Ora, nesse caso termos que nos curvar às evidências e dizer que é o “C”... O fiofó que fica mais sonoro e tranquilo para os ouvidos.

Assim, se você tem dúvidas sobre certas coisas continue tendo. Mesmo que dentro de você haja certezas absolutas. Lembre: para certezas absolutas há mentiras relativas. Fui.

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(*) Publicado no Recanto de Letras em 23/01/2013

segunda-feira, 18 de março de 2013

Foro privilegiado




Por José Fernandes Costa

Não sei se temos o pior parlamento do mundo. Mas sei que o nosso parlamento é muito ruim. Das Câmaras de Vereadores ao Senado da República. – O principal interesse dos parlamentares, de ordinário, é legislar para eles próprios. – Tome-se como exemplo, o foro privilegiado, a que eles puseram nome enganador de foro especial por prerrogativa de função pública.

Esse instituto do foro privilegiado foi criado só para beneficiar os que cometem crimes e se abrigam numa função pública dita relevante. Com isso, eles criam duas ou mais categorias de cidadãos: de primeira, segunda e terceira classes etc. – Como a Constituição Federal dispõe que todos são iguais perante a lei, mesmo sendo isso uma grande mentira, os tais legisladores dizem que quem goza da prerrogativa é a função pública, e não o indivíduo que cometeu o crime. – Bom artifício para acobertar crimes de toda ordem.

Muitos dos leitores se lembram de Talvane Albuquerque e Ronaldo Cunha Lima, para citar só dois delinquentes, há pouco privilegiados! Pois bem: Talvane era deputado federal por Alagoas, em primeiro mandato. E tinha uma lista de crimes nas costas, cobertos pelo manto da impunidade e do foro privilegiado. – Ceci Cunha também era deputada federal naquele estado. No pleito seguinte, Ceci renovou o mandato e Talvane ficou na primeira suplência da mesma coligação de Ceci. – Aí nasceu o macabro plano de Talvane: se Ceci morresse, Talvane assumiria na vaga dela e continuaria escondido no privilégio do foro e na impunidade conferida pelos seus pares.

Deixando Talvane e Cunha Lima para tratarmos depois, voltemos ao reino da indecência. Onde a coisa é tão imoral, tal como veremos a seguir. – Havia a Súmula 394 do Supremo Tribunal Federal (STF). Tal súmula preceituava que “cometido o crime durante o exercício funcional, prevaleceria a competência especial por prerrogativa de função, ainda que o inquérito ou a ação penal fossem iniciadas após a cessação daquele exercício”. – Vejam a devassidão jurídica, quando querem beneficiar o criminoso, mesmo após ele deixar a função pública! – Ora, mas não é a função pública que se visa a proteger, segundo dizem eles? – Por que tamanha malandragem, saída do próprio STF?

Contudo, 35 anos após a vigência dessa súmula, espalhando privilégios a torto e a direito, o próprio STF decidiu extingui-la, por unanimidade, em sessão plenária, no dia 30.4.1997, atendendo a uma questão de ordem levantada, no início de um julgamento, onde o réu foi um ex-deputado federal. – Eram outros os juízes do Supremo. E o ministro Sidney Sanches teve atuação preponderante na derrubada da escabrosa súmula.

Disse o ministro Sanches, naquela ocasião: - “A prerrogativa de foro visa a garantir o exercício do cargo ou do mandato. E não tem por que proteger quem o exerce. E menos ainda quem deixa de exercê-lo.”

Assim, restou consignada pelo STF, a decisão de que, deixando o cargo definitivamente, seja qual seja o motivo, seu ex-titular não terá direito ao privilégio de ser processado e julgado em órgão jurisdicional diferente daquele que teria qualquer outra pessoa do povo.

Mas, como os nossos parlamentares e afins cometem muitos crimes, ficaram assustados com o cancelamento da Súmula 394. Assim, tentaram reaver parte dos privilégios. Foi o que ocorreu com a aprovação da Lei 10.628, pelo Congresso Nacional. Esta foi sancionada por Fernando Henrique Cardoso, ao apagar das luzes do seu governo. E quando se acendiam as luzes do Natal. Isto é, no dia 24.12.2002 essa lei espúria foi ratificada pelo presidente da República, faltando, apenas sete dias para o término do seu governo.

E o que dizia a Lei 10.628? – Alterava o art. 84 do Código de Processo Penal, adicionando-lhe dois parágrafos. O caput do art. 84 não sofreu alteração digna de nota. Mas atentem para os dois parágrafos introduzidos:

§ 1º - A competência especial por prerrogativa de função, relativa a atos administrativos do agente, prevalece ainda que o inquérito ou a ação judicial sejam iniciados após a cessação do exercício da função pública.
§ 2º - A ação de improbidade, de que trata a Lei 8.429, de 2.6.1992, será proposta perante o tribunal competente para processar e julgar criminalmente o funcionário ou autoridade, na hipótese de prerrogativa de foro em razão do exercício de função pública, observado o disposto no § 1º.

Face ao disposto no art. 5º da Constituição de 1988, a inconstitucionalidade desses parágrafos é patente. Fere de morte o princípio da isonomia, assegurada esta no caput do art. 5º da CF. – A propósito, o jurista Dalmo de Abreu Dallari assim se manifestou, quando esse monstrengo ainda era projeto de lei: - “Embora seja escandalosamente inconstitucional, esse projeto foi estranhamente aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, onde se supõe que haja conhecedores da Constituição.”

Foi sancionada a lei, como vimos acima. Pela gritante aberração jurídica, três dias após, em 27.12.2002, a Associação Nacional dos Membros do Ministério Público ajuizou Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin). Entretanto, só em 15.9.2005 houve a apreciação final da Adin e a Lei 10.628/2002 foi revogada, cancelando, assim, os dois parágrafos acima expostos.

Vejam outra face negra dos privilegiados: se um promotor de Justiça de São Paulo matar um cidadão sergipano, em Aracaju, ele vai responder pelo homicídio no Tribunal de Justiça de São Paulo. – Não é de se esperar que ele respondesse ao processo no Tribunal de Justiça de Sergipe? Já que Aracaju teria sido o local do crime e onde seria o domicílio do réu. – Esse mesmo artifício serve para os prefeitos.

Assim, outro exemplo hipotético: um elemento de outro estado é acusado de participar do assassinato de um desafeto em João Pessoa (PB). E está respondendo ao processo em João Pessoa, que é o domicílio do réu. – Pouco tempo depois, esse indivíduo se elege prefeito de uma cidade qualquer. – Aí, então, o processo a que ele respondia vai para o Tribunal de Justiça do estado onde ele é prefeito. E ainda poderá levar os possíveis coautores do homicídio para o foro privilegiado!  –  Num raciocínio honesto, a lei não deveria ordenar que o processo saísse do juízo de 1ª instância (Tribunal do Júri) para o Tribunal de Justiça do estado onde se deu o crime? E preceituar, claramente, que só o detentor do cargo público é que teria o foro privilegiado? Tanto que se este for isentado de culpa, no decorrer do processo, os demais voltarão para o juízo de origem! É por essas e outras libertinagens que o Congresso se desmoraliza mais a cada dia. – Entretanto, o parlamento já é pervertido e está se lixando por se corromper mais e mais.

Notem a monstruosidade: no caso hipotético a que me referi acima, havendo concurso de pessoas, estas poderão, sem função pública, também, utilizarem-se do foro privilegiado. É ou não é um escárnio? – Imaginemos que o ex-jogador de futebol que ordenou o assassinato de Eliza Samudio houvesse sido eleito prefeito de Vila Velha (ES). Com isso, o processo que corria no juízo de Contagem (MG), teria ido para o Tribunal de Justiça de Vitória (ES). – E, de quebra, iriam os comparsas do dito ex-goleiro. Todos criminosos frios e de alta periculosidade, aí incluído nesse o tal ex-jogador. – É fácil digerir essas práticas perniciosas?/.

sábado, 16 de março de 2013

Justiça Social e Democracia na Venezuela





Por Zezinho de Caetés

Hoje reproduzo um pequeno e profundo texto do Sandro Vaia, publicado no dia 08.03.2013 no Blog do Noblat, e o qual termina, como vocês podem ver abaixo reclamando do raciocínio absurdo que, para elogiar alguns avanços sociais na era do caudilho Hugo Chávez na Venezuela, de que para haver justiça social deve-se sacrificar a democracia. E ele diz citando o que se vê historicamente: “A prosperidade, a equidade e as sociedades mais justas, são filhas da democracia e não do autoritarismo.”

E se observarmos bem, as políticas sociais do Chávez apesar de tontas como as atuações econômicas da nossa presidente, produziram alguns efeitos que se pode até quantificar. Enquanto as escolas bolivarianas que propunham tempo integral se tornoram um programa restrito, talvez porque pudesse esclarecer o povo, as pensões, que são em sua maioria aposentadoria de idosos, foram o maior sucesso, como a aposentadoria rural aqui.

Hoje as pessoas choram por Chávez, não pelo absoluto sucesso dos seus programas sociais mas pelo populismo desvairado que tomava todo o tempo de rádio e TV venezuelanos, com o caudilho a falar e a vociferar contra inimigos inexistentes, como o Estados Unidos, por exemplo, com quem a Venezuela tem um comércio exterior muito maior do que com o Brasil, a terra dos seus amigos do peito.

E todos os programas sociais agora dependem, assim como a economia como um todo, de fatores externos, como o preço do petróleo, que deu condições aos Cháves de usar sua receita para financiá-los. O que não se sabe é até quando isto continuará, pois se duvida da sustentabilidade do petróleo para que haja continuidade. E isto vai se refletir também junto aos seus parceiros no bolivarianismo, que tem como principal representante e mentor o Fidel Castro, que sempre odiou Bolívar.

Eu concordo, e muitos que mais do que eu conhecem a América Latina, com as palavras de outra analista do governo chavista que diz:

“O grande mérito de Chávez foi tentar reduzir o histórico abandono da população pobre da Venezuela, mas as políticas sociais não têm sustentabilidade fiscal, nem se consolidaram como uma política de Estado. São ainda o velho assistencialismo paternalista.

O choro coletivo em Caracas traz a marca de uma região que ou excluiu os pobres ou os atendeu com políticas apresentadas como bondades de um “pai dos pobres”. Esse pêndulo entre exclusão é manipulação é o maior erro histórico da América Latina.”

E antes de deixar você com Sandra Vaia eu digo que se não tivermos cuidado, o novo país, através do discurso petista de erradicação da miséria seremos os mais novos Perfeitos Idiotas da América Latina. Fiquem com o Vaia que eu vou visitar a refinaria de Pernambuco a qual o Cháves ainda deve muito e agora não pode mais pagar.

“Quem conhece os mistérios da alma humana? Quem é capaz de dizer por qual razão os entes políticos tratam as pessoas comuns como um bando de rematados idiotas?

A foto de Hugo Chávez todo coradinho ao lado de suas duas filhas lendo uma edição do Granma, obviamente plantada aí por um photoshop , nao difere em nada da foto do ditador Artur da Costa e Silva , de perfil, ao lado de sua mulher Yolanda, vendendo saúde depois de um derrame, ou da foto de Tancredo Neves como um ectoplasma, cercado por sua equipe médica alguns dias antes de morrer. [a foto ilustra esta matéria]

Querem nos fazer crer que os políticos são imortais? Uma hora ou outra eles acabam morrendo, como todo mundo, e quem tentou nos enganar sai de fininho como se nunca tivesse estado aí.

Pois aí está. Apesar de a multidisciplinar doutora Dilma ter-nos garantido, do alto de seus conhecimentos médicos, no dia 23 de fevereiro que “o quadro do presidente Chavez não é preocupante”, ele morreu porque imortal não era.

Não é decente nem digno festejar , como alguns fizeram nas redes sociais, a morte de um ser humano, por mais pecados políticos que se possam atribuir a ele. Também não é digno mentir às pessoas tentando esconder-lhes a verdade.

 Não chega a ser indigno, mas é apenas patético,senão cômico, tentar atribuir o nascimento, a evolução e o desfecho da doença a fantasmagóricas intervenções externas de supostos inimigos, como se o vírus do câncer fosse uma arma química que um agente secreto pudesse carregar na mochila.

Chavez morreu, novas eleições serão realizadas na Venezuela dentro de 30 dias, e apesar de todas as incertezas o vice-presidente de um voto só, Nicolás Maduro, que conta com o apoio dos militares, deverá vencer sem muitos problemas.

Chavez estava no início de seu quarto mandato consecutivo e sua morte reavivou velhas discussões sem fim sobre se a Venezuela era uma democracia ou não e sobre se ele fez bem ao seu povo ou não.

Caudilhos são caudilhos exatamente porque são amados por seu povo, e são amados porque são carismáticos e distribuem benesses.

A democracia, nesses casos, principalmente na América Latina, passa a ser um enfeite de prateleira, e o desrespeito às formalidades democráticas se justifica, segundo seus defensores, por eventuais “avanços sociais” que venham a ser conseguidos.

O raciocínio “ad absurdum” que passa a vigorar é este: quer dizer que não dá para conseguir “avanços sociais” sem sacrificar a democracia ? Estão aí as prósperas democracias do Ocidente para mostrar que essa é uma falácia.

A prosperidade, a equidade e as sociedades mais justas, são filhas da democracia e não do autoritarismo.”

sexta-feira, 15 de março de 2013

DANDO BOLAS





Por Carlos Sena (*)

Fui dar bolas pra ela, mas ela me disse: "por quê? Não sou jogadora de futebol"; fui pedir pra lhe acompanhar até sua casa, no trajeto da escola, mas ela me disse “não sou novela”; perguntei-lhe: “tudo bem”? Ela me respondeu “pra uns”! Quis galantear lhe mostrando o dia lindo e fui redundante dizendo que o dia estava lindo, mas ela logo retrucou  “mas pode chover”... Pedi que fosse mais bem humorada, mas ela disse que o que dava pra rir também dava pra chorar. Fiquei sem saber o que mais lhe dizer, pois o que eu sentia era muita paixão, muita tesão, mas ela não me dava bolas. Certo que eu era jogador de futebol nas horas vagas, mas nem assim bolas ela me dava. Não desisti dela, porque não sou fácil de desistir. Vou até o fim do túnel e se luz não houver vou além, mas vou mesmo que trombe nos pedregulhos da vida. Insisti. Mas bola ela não me dava. Nesse dilema, a convidei para conversar, trocar ideia, mas ela foi logo me dizendo que não tinha ideias sobrando e, portanto, não iria trocar o que não tinha.  Para um cinema, nem pensar, pois tinha televisão em casa – já houvera me dito isto. Tomar uma fresca, como se costuma dizer, nem pensar. Outro dia lhe convidei para o circo e ela me disse que já tinha um palhaço com quem se  divertia todo dia no caminho da escola. Esse palhaço era eu. Aí eu me lasquei! Mas não desisti dela. Certa noite, já tarde, decidi ligar pra casa dela, pois sabia que via televisão até tarde: alô? Alô? Quem fala, disse eu. Ela respondeu: quem fala é você, eu só estou escutando. Deu-me uma vontade louca de mandá-la pra pqp, mas me contive. Já meio sem ação diante de tanto fora, pra ver se quebrava o gelo perguntei se estava calor, mas ela logo me respondeu que do meu apartamento para o dela não dava um quilômetro e, portanto, se estivesse quente na minha casa estaria na dela e, portanto, era uma pergunta besta.

Finalmente, cansado de tanto verbo jogado fora, decidi esperar por ela na saída da escola pela ultima vez. Dessa vez eu vou acabar com ela, vou deixá-la sem ação. Quero ver se ela vai me deixar sem saída. Escondido por trás de uma árvore, eis que lá vem ela. Eu pulei em sua frente: “pensa que lhe deixei”? Ela se assustou e me perguntou se eu era macumbeiro, porque parecia um espírito errante abordando o povo daquela maneira. Eu peguei a deixe e lhe disse: “hoje eu tô com o cão no couro e eu quero lhe levar para um motel”, exatamente pra "dar no couro"! Aguardei uma tapa na cara, mas dessa vez eu fiquei aliviado. Ela respondeu na minha cara sem titubear: para o Alvorada ou para o Las Brisas? Para o Fadas ou para o Só Love? Para o Sobrado ou para o Monza? Para o Brisa Mar ou para o Sete Colinas? Para o Aconchego ou para o Bom Dia Motel? Pare, pare, disse eu. Vai ser “P” assim na casa do raio que a parta. Sumi na escuridão até hoje.

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(*) Publicado no Recanto de Letras em 18/01/2013