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segunda-feira, 11 de novembro de 2019

O bagaço liberal




“O bagaço liberal

POR CARLOS ANDREAZZA

Para que reste logo assentada a constituição deste escriba, aquilo que dá regência a este texto: não acredito em liberalismo econômico sem liberalismo político. Não numa democracia. Para que fique ainda mais claro, com aplicação prática: não acredito na vitalidade – na viabilidade – de um projeto de reformas liberais do Estado que não tenha os princípios da democracia liberal como um valor inegociável.

Tampouco creio ser possível, no mundo real, atrair investimentos – investimentos, não especulações – para um solo obviamente instável, inseguro; chão cujo desequilíbrio é forjado artificialmente por uma fábrica de crises institucionais que tem centro no próprio presidente da República.

Quem botará dinheiro – para valer, para ficar – nisso aqui?

A rigor, objetivamente, desconfio do interesse de o bolsonarismo, fenômeno autocrático, investir num programa liberal na economia – algo estrutural, com corpo de longo prazo – para além da geração das condições básicas mínimas para um voo de galinha capaz de assegurar a reeleição de Jair Bolsonaro em 2022. Não será preciso muito... Dado o fosso em que nos afundamos, uma breve reação na curva da geração de empregos faria boa parte do serviço.

Argumento nenhum desmonta a minha suspeita – com alicerce histórico – de que a intenção bolsonarista, nem um pouco original, seja usar o liberal econômico para conquistar alguma descompressão fiscal, algum fôlego para gastar, para fazer obras; e depois: tchau. Não seria novidade. É o que os mais espertos entre os populistas fazem.

Muito mais grave do que a recessão econômica é a depressão política que nos ata, pelo menos, desde 2013. É difícil supor que a primeira possa ser superada – com consistência, com fundamentos – sem que resolvamos a segunda. Eu diria: é impossível. Pergunte-se, portanto: será este governo – que opera em guerra constante, que planta conflitos como alimento, que está em campanha permanente, que radicaliza, que avança no racha do “nós contra eles”, que é a própria antipolítica – apetrechado para vencer uma doença política sem precedentes em tempo democrático (e da qual talvez seja a mais alta febre)? Ou seria vocacionado para ardê-la ainda mais?

Como não citar, a propósito, a fábula bolsonarista recente do leão e as hienas? O leão! O presidente leão. O rei da selva. Rei da selva – e (ao mesmo tempo, num arranjo improvável) vítima. Ele, o dono do pedaço, impedido de imperar plenamente por uma concertação golpista de hienas – as próprias instituições da República, os instrumentos de mediação e fiscalização; incluída a imprensa. O maldito establishment que não deixa o homem reinar acima dos marcos republicanos e da democracia representativa.

Para que não haja dúvida: o cenário – divulgado por Jair Bolsonaro em vídeo – expressa real inconformismo ante a teia impessoal que regula o ímpeto do governante por se espalhar. Para que não haja dúvida: as hienas são a institucionalidade – os freios e contrapesos que limitam o abuso de poder.

Não tem como dar certo.

Na já célebre entrevista à jornalista Leda Nagle, aquela em que falou em recurso a algo como um novo AI-5, Eduardo Bolsonaro declarou também que o que faz um país forte não é um Estado forte; mas indivíduos fortes. Belo, né? Concordo. Há, porém, uma armadilha totalitária na formulação. Vejamos. Quem fala em novo AI-5 fala numa medida de exceção que, obrigatoriamente, suprime – cassa – garantias individuais. Certo? Quem fala em novo AI-5 fala, pois, em Estado forte; obrigatoriamente. Fala, por óbvio, em Estado forte na mão – obrigatoriamente – de indivíduos fortes; porque alguém precisará operar a máquina forte. Certo?

Daí por que se pergunte: quais são os indivíduos fortes de Eduardo Bolsonaro, os que controlariam o Estado? Os leões da família. Governantes fortes.

Isso tem passado; e não é bonito.

Podem me chamar de pessimista. Prefiro o lugar do prudente; do cético. Não importa. Tenham-me na conta do pessimista. Há, contudo, inegável lastro histórico na análise que proponho. Não existe liberalismo econômico sem liberalismo político. Não na democracia. É a história que ensina. O primeiro, sem o segundo, é o paraíso para o autocrata. Não acredito em liberalismo econômico em terra de leão. Mas acredito em liberalismo econômico na boca do leão; sendo sabido – e me desculpo por imagem tão franca – por onde sai o que pela boca entra.

Alguém duvida de que liberal – por ora instrumento necessário – também seja hiena, um inimigo, sob a mentalidade bolsonarista? A história – sempre ela – ensina. A história ensina também que não terão sido poucos os liberais que, caindo no conto do autoritário liberal, legitimaram e financiaram projetos autocráticos de poder. Projetos autocráticos de poder que não tardariam, chupada meia laranja liberal, a descartar o saco liberal todo como bagaço.”

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Pobreza




“Pobreza
      
Por Ana Carla Abrão

Educação é um poderoso instrumento de redução da desigualdade social e motor inquestionável de desenvolvimento social e econômico. Mobilidade social, potencial econômico, fortalecimento da cidadania, índices de criminalidade mais baixos e indicadores de saúde melhores são algumas das características que emergem de uma sociedade com níveis educacionais mais elevados. Na dimensão individual os ganhos são ainda mais diretos: independência (não só, mas também financeira), maior empregabilidade, engajamento cívico, renda mais elevada, além de outros tantos aspectos positivos e oportunidades que acompanham uma pessoa com maior nível educacional.

Mas o Brasil não tem dado essa chance à esmagadora maioria dos seus cidadãos que depende do ensino público básico para se educar. Conseguimos a universalização do ensino e houve melhoras que devem ser reconhecidas e aplaudidas como, por exemplo, as trajetórias do Ceará, de Pernambuco e do Espírito Santo. Mas a qualidade da nossa educação pública ainda é muito ruim, reforçando a condição de pobreza da maioria dos brasileiros que só têm no Estado a possibilidade de acesso à aprendizagem. Ao lhes negar uma educação pública de qualidade, o Estado também lhes reforça a ausência de oportunidades e reduz as suas chances de construção de uma vida melhor. Do ponto de vista agregado, ao não promover o aumento do seu capital humano, o País compromete sua capacidade de crescimento e de desenvolvimento social.

O Banco Mundial mostra que é justamente aí que estamos no índice de capital humano (ICH). O índice, apresentado no evento do Todos Pela Educação por Jaime Saavedra, diretor global de educação da instituição, mede o capital humano que podemos esperar que uma criança nascida hoje adquira até os 18 anos de idade, considerando-se os riscos relativos à saúde e educação precária em seu país. Na média, uma criança nascida no Brasil só atinge 58% do seu potencial de produtividade, sendo que o fator que mais drena esse potencial é a baixa aprendizagem (os outros são sobrevivência, saúde e acesso à educação). Embora ICH brasileiro esteja 2 pontos porcentuais acima da média global, ele está abaixo do esperado para nosso nível de renda e esconde uma realidade cruel.

Enquanto a produtividade pode atingir 76% do seu potencial em algumas regiões, há outras em que o ICH não passa de 41%, número comparável ao de países muito mais pobres que o Brasil. Além disso enquanto, na média, 48% das nossas crianças até 10 anos não sabem ler ou compreender um texto breve. Ou seja, somos pobres em aprendizagem.

A realidade é, portanto, que nossas crianças e jovens estão indo à escola mas não estão aprendendo. Números compilados pelo Todos Pela Educação corroboram isso e mostram a dimensão da nossa pobreza na aprendizagem: de cada 100 crianças que ingressam na escola no Brasil, 90 concluem os anos iniciais do ensino fundamental, 76 concluem os anos finais e apenas 64 concluem o ensino médio. Desses 64, menos de 1/3 tem aprendizagem adequada em português e míseros 9% têm aprendizagem adequada em matemática. Isso significa que se considerarmos os aproximadamente 2,5 milhões de bebês nascidos vivos em 2000, apenas 1,6 milhão concluíram o ensino médio em 2018 e, dentre esses, apenas 144 mil aprenderam matemática. E a maior parte desses jovens não está na rede pública de ensino, onde a evasão é maior e apenas 4% atinge aprendizagem adequada em matemática.

A solução para esse quadro é conhecida por todos que trabalham na área: precisamos de alunos com melhores condições de aprender e precisamos de capacidade de gestão – inclusive para implantar o que já sabemos que funciona (e descontinuar o que não funciona).

Mas o fator fundamental de sucesso continua sendo o professor. Somente professores capacitados, valorizados e motivados na busca de melhores resultados são capazes de formar alunos com nível adequado de aprendizagem. Mas na rede pública, que atende hoje mais de 60 milhões de crianças e jovens, isso só será possível a partir de uma reforma estrutural da carreira do magistério. As atuais leis que regem a carreira de professor, assim como em outras áreas do serviço público, distorceram os instrumentos de gestão de pessoas e têm impedido a atração, seleção, avaliação e o desenvolvimento de professores que podem elevar o nível de aprendizagem na rede pública de educação.

É hora de aproveitar que a reforma administrativa entrou na pauta e colocar esse ponto na agenda. Não podemos mais continuar condenando gerações de crianças e jovens ao subemprego, à dependência (também, mas não só financeira), ao desengajamento e à falta de renda, pois estamos mantendo a desigualdade social, enfraquecendo a cidadania, alimentando a criminalidade e comprometendo o nosso potencial econômico. E estamos, acima de tudo, reforçando a mais perene das pobrezas que é a da baixa aprendizagem.”

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Bem além do R$ 1 trilhão





“Bem além do R$ 1 trilhão
      
Por Pedro Fernando Nery

A reforma da Previdência não acabou. Continuam em tramitação no Congresso Nacional proposições “satélites”, sejam enviadas pelo governo ou iniciadas pelo Parlamento. A principal delas é a PEC paralela, que facilita a adesão de Estados e municípios à reforma: com ela, o impacto da reforma da Previdência para as finanças do Estado brasileiro iria bem além do R$ 1 trilhão.

A PEC paralela repete a bem-sucedida tramitação da reforma da Previdência do funcionalismo no governo Lula. A Proposta de Emenda à Constituição é paralela porque foi criada, no Senado, concomitantemente à PEC principal da reforma. É um mecanismo de “economia legislativa”: permite que o Senado altere trechos da PEC principal sem fazer o todo voltar à Câmara, o que atrasaria em meses a promulgação da parte principal, a parte que ambas as Casas já concordaram. Com a PEC paralela, volta à Câmara somente o que é modificado.

E o que é modificado? Principalmente, as regras válidas para Estados e municípios. Até a reforma, as aposentadorias e pensões desses servidores eram regidas pela Constituição, como a dos federais. Na reforma, a Câmara passou essa atribuição aos Estados e municípios. Se o arranjo pode ter facilitado a expressiva votação que a reforma recebeu, dificultou o ajuste nos Estados. E eles podem quebrar.

Com a reforma aprovada, o Estado ou município que quiser aderir às regras válidas para servidores federais precisa de um pacote e votar diversas medidas no Legislativo local. A depender do tema, precisa-se de uma emenda à Constituição estadual ou lei orgânica, uma lei complementar ou de uma lei ordinária. Para governadores ou prefeitos com pouco apoio no Legislativo, as tarefas podem ser hercúleas demais, diante da proximidade de grupos organizados que pressionam contra, do calendário com eleições locais em 2020 e da falta de tradição de tratar do tema – complexo. A reforma aprovada também dificultaria o aumento de alíquotas de contribuição nesses entes.

Se não conseguirem reformar, a prestação dos serviços públicos mais essenciais ficará prejudicada. Cada brasileiro já aporta R$ 1 mil por ano apenas para cobrir o déficit das previdências estaduais (da ordem de R$ 100 bilhões). O déficit atuarial de Estados e municípios – o déficit nas próximas décadas – é de cerca de R$ 5 trilhões (mais de R$ 20 mil por brasileiro!), não muito menos impressionante que o déficit atuarial no regime do INSS.

De fato, a reforma aprovada atinge apenas uma minoria dos servidores: mais de 80% dos servidores em regimes próprios são estaduais ou municipais. Para serem alcançados, serão necessárias mais de 5 mil reformas pelo Brasil, porque diversas propostas têm de ser aprovadas para cada um dos mais de 2 mil regimes próprios.

No Brasil, Estados e municípios não decretam falência. É inevitável que ao menos parte da conta volte para a União – o que fez a economista Selena Peres chamar a mudança de jogo do joão-bobo. Vai e volta, e a volta é um risco importante, talvez ainda pouco compreendido, para a dívida pública e o teto de gastos.

A solução da PEC paralela é equilibrada. A decisão da Câmara não é revertida: Estados e municípios continuam tendo a atribuição para tratar de previdência. Mas a adoção das regras federais é facilitada e estimulada. É facilitada porque precisa apenas da aprovação de uma única lei ordinária (maioria simples), desde que o projeto seja de iniciativa do governador ou prefeito. E a aprovação da lei no Estado alcança também todos os municípios.

E é estimulada porque os que aprovarem as regras da União são premiados. Na reforma já aprovada, houve uma mudança importante para o federalismo brasileiro na Constituição. Fica impedido que a União faça transferências voluntárias, conceda avais e até empréstimos em bancos públicos para o Estado ou município que descumprir regras previdenciárias, o que poderia abranger inclusive a regra de equilíbrio financeiro ou atuarial. Na PEC paralela, há uma libertação: o Estado ou município que fizer a reforma é premiado e se livra das proibições.

Em dez anos, o impacto seria de R$ 350 bilhões caso as regras da União valessem para Estados e municípios – pelas contas do governo.

A paralela também traz ganhos fiscais para a União: apesar de alterações em alguns pontos da reforma da Previdência aprovada, há ajuste pelo lado da receita. As renúncias ao agronegócio exportador e parte das do Simples são revistas. As das filantrópicas são mantidas, mas deverão ser compensadas pela União, convite à fiscalização mais efetiva.

E com neutralidade do ponto de vista fiscal, a paralela autoriza o Benefício Universal Infantil: integração de quatro políticas públicas, com foco na primeira infância e na extrema pobreza, proposta por pesquisadores do Ipea.”

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

A esfinge e os líderes




“A esfinge e os líderes
     
Por Fernando Henrique Cardoso

Nos últimos artigos tenho insistido na necessidade da formação de um “centro democrático progressista”. O que é isso? Desde logo, não se trata de um “centrão”, ou seja, de um agrupamento de pessoas que dominam legendas de partidos e, na prática, se unem para apoiar ou rejeitar propostas do governo, cobrando um preço clientelístico. O “centro democrático” tampouco pode ser um agrupamento anódino, que ora se define como favorável ao povo e esbanja recursos, como os populistas, ora se comporta de modo austero, com bom manejo das contas públicas, mas sem olhar para o povo, como os “neoliberais”. Então, o que seria?

Escrevi sobre o “liberalismo progressista” dizendo que ele se diferencia do “liberalismo conservador, de corte autoritário”. Neste, o mercado é o deus ex-machina que molda a sociedade. O primeiro respeita os mercados, sabe que as economias contemporâneas são “de mercado” (quase sem exceção), mas sustenta que elas não dispensam a regulação e mesmo a ação do Estado na economia. A atuação estatal, não sendo a única e nem mesmo a principal mola do crescimento econômico, continua a ser necessária para evitar que a desigualdade mine a democracia e o crescimento.

Na prática, o risco maior do liberalismo conservador, de caráter autoritário, é o de derrapar para formas abertamente não democráticas de decidir e assim aumentar o fosso entre dirigentes e dirigidos, abrindo espaço para manifestações populares antagônicas ao poder. Já o risco do progressismo é se transformar em populismo e, com o propósito ou o pretexto de servir ao “povo”, desorganizar as finanças públicas, levar à inflação e ao desemprego. O país cai na estagnação, abrindo espaço para a “direita” (ou seja, para formas disfarçadas ou abertas de autoritarismo).

Não terá sido um vaivém entre essas formas de liberalismo, autoritarismo e populismo (mais do que o risco de fascismos ou comunismos) o que vem caracterizando boa parte das formas políticas do mundo contemporâneo? Desse vaivém escapam os países onde liberdade e democracia não formam parte do ethos nacional (os que não são ocidentais ou ocidentalizados). A oscilação acima referida, e mesmo a dúvida sobre o valor da democracia representativa, tem aumentado muito, afetando nações de tradição liberal. Não faltam autores que chamam a atenção para estes desdobramentos: a crise das democracias, como morrem as democracias, o povo contra as elites, e assim por diante, dão título a muitos dos volumes que tratam dos fenômenos políticos contemporâneos.

Por trás desse desaguisado estão os novos meios produtivos e as formas contemporâneas de comunicação, que moldam as sociedades. A primeira vez que me dei conta disso foi em maio de 1968, quando eu era professor da Universidade de Paris em Nanterre. Anos mais tarde, procurando teorizar a esse respeito, disse no discurso em que transmiti a presidência da Associação Internacional de Sociologia, em 1986, que os fios desencapados da sociedade podem se tocar de repente, produzindo curtos-circuitos fora da polaridade tradicional “proprietários versus trabalhadores” e dos partidos que no passado os representavam. Havendo comunicação em rede, as faíscas que se acendem num ponto se propagam para os demais e o protesto atravessa os limites entre classes e segmentos sociais, contaminando amplos setores da sociedade. Essa dinâmica do protesto e a velocidade da sua expansão já eram perceptíveis em 1968. Foi somente quando a TV e o rádio passaram a cobrir as manifestações estudantis que estas entraram em contato com as negociações sindicais, que antes se davam à parte e à distância.

Que dizer agora, quando a internet e as redes conectam as pessoas e saltam as organizações? Se Descartes dizia cogito ergo sum (penso, logo existo), hoje a frase síntese é outra: estou conectado, logo existo. Mais ainda: as forças produtivas contemporâneas, com robôs e inteligência artificial, aumentam a produtividade, concentram a renda e não geram empregos na proporção da procura por trabalho, a despeito da redução da taxa de crescimento da população. E graças à internet muitos ficam sabendo do que acontece.

Não será esse o fantasma por trás dos “coletes amarelos” de Paris, dos partidários do Brexit na Grã-Bretanha ou dos eleitores de Trump que querem ver os Estados Unidos great again? E não haverá risco, em nuestra America, de confundir a Frente Ampla (eventualmente vitoriosa no Uruguai), ou os peronistas argentinos e agora as manifestações no Chile, que lembram o Brasil de 2013, e mesmo no Equador ou na Bolívia, com uma luta tradicional da “esquerda” contra a “direita”, como se ainda estivéssemos nos tempos da guerra fria? A guerra agora é outra: menos desigualdade, fim da corrupção política, mais empregos e melhores salários. E quando há diminuição do ritmo de crescimento, como lembrava Tocqueville sobre a Revolução Francesa, a insatisfação eclode forte, como atualmente no Chile.

Dito isso, o centro liberal precisa ser progressista não apenas porque a igualdade de oportunidades e a garantia de um patamar de condições de vida dignas para todos são essenciais para uma democracia estável e uma sociedade civilizada, mas também porque vivemos outro momento do capitalismo, no qual as políticas públicas devem ser complementadas pela ação da sociedade civil. É do interesse da maioria existir um governo ativo e com rumo. Capaz de respeitar as regras do mercado, mas também os interesses e necessidades do povo. E estes não se resolvem automaticamente na pauta econômica, requerem ação política e ação da sociedade.

Não será esse o miolo de um centro radicalmente democrático e economicamente responsável? Talvez, mas na vida política não basta ter ideias, é preciso que alguém as encarne. Ou aparece quem tenha competência para agir e falar em nome dos que mais precisam ou a esfinge nos devora.”

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Uma certa dimensão do desastre




“Uma certa dimensão do desastre
     
POR FERNANDO GABEIRA

O desastre no Nordeste não é apenas desconcertante pelo mistério de sua origem, a imprevisibilidade da aparição do óleo. Ele encerra, espero, um ano de grandes turbulências ambientais no Brasil.

Tivemos incêndios na Amazônia, no Pantanal, no Cerrado, em importantes parques nacionais, como o da Serra do Cipó, chamado de Jardim do Brasil pelo paisagista Burle Marx. Fora do Brasil as coisas também não foram tranquilas, sobretudo com os grandes incêndios na Califórnia.

Incêndios na Amazônia, no Pantanal ou mesmo na Califórnia acontecem quase todos os anos, mas têm sido mais intensos. E em alguns lugares cai a disponibilidade de água.

Tudo indica que entramos numa era irreversível de eventos extremos. Isso num momento em que temos um governo despreparado para encarar essa dramática dimensão. E dificilmente, a julgar pela reação às manchas de óleo no Nordeste, conseguirá acompanhar o seu tempo. Bolsonaro, por exemplo, não foi ao Nordeste, não entendeu a gravidade do problema, não esboçou um gesto pessoal de solidariedade. Isso é o bê-á-bá da conduta de um presidente.

Existem vários fatores que obliteram sua visão. Um deles é entender o desastre ambiental como uma luta política. Achar um culpado à esquerda, desafiar ONGs, enfim, em vez de se preocupar com o oceano, prefere alvejar seus adversários.

Bolsonaro não percebe a riqueza e a complexidade dos oceanos. Digo isso porque o observo com atenção. Logo após a vitória na eleição de 2018, seu projeto era fundir os ministérios do Meio Ambiente e da Agricultura. A visão que tinha do meio ambiente se limitava às florestas, aos rios e às plantações. Ignorava não apenas os oceanos, como também os graves problemas ambientais das metrópoles.

Bolsonaro não apenas é incapaz de compreender os oceanos. Ele pensa em urbanizá-los. Multado por um fiscal do Ibama pescando na Estação Biológica de Tamoios, resolveu que a unidade de conservação deve acabar, pois Angra dos Reis será transformada numa Cancún com a grana da ditadura saudita. Por mais importante que seja para a pesquisa da vida marinha, Bolsonaro a vê como inútil.

Esse é o contexto de sua ausência no Nordeste. Por que, com essa bagagem cultural, iria importar-se com recifes e corais num território governado pela oposição?

O governo não apenas deixou de acionar o plano nacional de contingência para esse tipo de desastre, como se recusou a coordenar diretamente os esforços estaduais e municipais. Coordenar no nível mais alto, uma vez que a coordenação operacional até que existiu nos dois centros montados em Salvador e no Recife. O ministro do Meio Ambiente designou a Marinha como coordenadora 41 dias depois de ela estar de fato trabalhando no desastre. Se dependesse de ele acordar, seriam 41 dias perdidos.

Ele foi duas vezes ao Nordeste. Tanto em Sergipe como na Bahia, não falou com os governadores, nem mesmo com o prefeito de Salvador.

O ministro do Turismo foi ao Nordeste. Disse que uma praia estava própria para o banho sem consultar as autoridades ambientais de Pernambuco. Como se isso pudesse ser definido a olho nu.

Esse modo tosco de governar não impediu que, em algumas dimensões, a máquina tenha funcionado. O Ibama trabalhou pesado. Encontrei seus funcionários nas praias mais remotas e até trocamos informações.

A propósito disso, concluí nessas viagens que as melhores notícias vêm da sociedade. O voluntariado, que já existia no Brasil, aparece agora também como um dado irreversível, sobretudo apoiado nas redes sociais. Essa nova força é que nos pode inspirar na formulação de políticas para um tempo de mudanças climáticas. Na Universidade da Bahia um professor concebeu o sistema de coleta de óleo com redes de pescadores. Os pescadores dispuseram-se a trabalhar para evitar que o óleo chegue a Abrolhos. O Ibama liberou redes apreendidas no passado e que estavam estocadas. É uma tentativa válida.

Em Pernambuco os voluntários entregaram-se à tarefa com intensidade maior, por exemplo, do que vi na Galícia. Em compensação, lá todos estavam de macacão, luvas e óculos especiais.

Essa dificuldade parece ter sido superada pelos Guardiões do Litoral, um grupo que limpa as praias e tenta descontaminar mangues e corais. Ali estão equipados devidamente. O que não evita uma ou outra dor de cabeça, pela combinação do cheiro do óleo com o forte calor.

A conjugação dessas forças com um governo eficiente é que nos pode preparar nos tempos de aquecimento global. Talvez isso já exista no Japão. O desastre do Nordeste não tem ligação com isso. Mas acontece num oceano castigado, em rápida degradação. Aliás, a importância da proteção marinha já havia subido ao topo da agenda na Conferência Rio+20.

Esse governo é incapaz de encarar a tarefa que tem pela frente. Sua eficiência depende da articulação com a sociedade. O ministro do Meio Ambiente, que deveria manter uma relação direta com o voluntariado, passando informações, agradecendo aquele esforço, preferiu brigar com o Greenpeace, sugerindo que um barco da organização derramou o óleo. As pessoas retirando óleo das praias e ele produzindo fake news.

É um universo paralelo que duvida do aquecimento, desconfia que a organização social, com sua visão crítica do governo, seja um celeiro de marxistas. Aliás, por falar no velho Marx, ele dizia que a humanidade não se coloca um problema que não possa resolver. Ele não contava com transformações climáticas, escassez de recursos hídricos, enfim, com todas essas consequências da produção.

Se depender de certos humanos, como Bolsonaro e seu ministro, teríamos mais que um problema sem solução. Teremos algo que nos vai engolir e arruinar. Somos um grande país? Dinossauros também eram grandes. Apenas não souberam se adaptar.”