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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Vandalismo Moral, Realismo Fantástico e a jabuticaba do Donadon




Zezinho de Caetés

No último dia 30/08/2013, o jornalista Sandro Vaia publicou, no Blog do Noblat, um texto intitulado “O vandalismo moral”. Ele trata, principalmente, do caso em que a Câmara de Deputados manteve o mandato do deputado Donadon, mesmo sendo ele julgado e condenado por crime de formação de quadrilha e peculato, e mesmo assim iria continuar no presídio da Papuda com seu gabinete plenamente instalado.

Hoje, já se sabe, que através de uma liminar, o ministro Barroso, do STF, analisando um pedido do PSDB, já tirou os efeitos da decisão da Câmara, e o deputado voltou a ser somente presidiário, como merece.

No entanto, sabemos que uma liminar é uma liminar, nada mais do que um liminar. Apesar de boa para os padrões de moralidade na política, ele é não é definitiva e pode, algum dia, ser derrubada pelo plenário do STF. Para quem conhece o ritmo da corte, talvez quando esta decisão chegar, o deputado já esteja solto e não valerá mais nada. O que espero é que a decisão sobre o destino dos mensaleiros saia antes.

Então, como o STF ainda pode voltar atrás quanto ao caso do Donadon, ainda vale a pena prever algumas situações, que a revista Veja desta semana levanta, e a que as chama de “realismo fantástico”. Eu diria apenas, como o Sandro Vaia, uma jabuticaba, que é uma fruta genuinamente brasileira. Vamos a elas.

Quanto ao gabinete, cada parlamentar tem direito a quatro linhas de celular, cinco ramais telefônicos, fax, cinco computadores com internete rápida (que inveja!), TV a cabo, frigobar e mobiliário, com poltronas, etc. O presidiário pode apenas ter uma TV de 14 polegadas se tiver bom comportamento, o que o Donadon já perdeu porque reclamou da comida da Papuda.

Cada parlamentar tem direito a contratar 25 funcionários. No presídio ele não pode contratar gente de fora, então teria que contratar 25 colegas seus. Muitos sairão ricos porque o salário é compensador.

O Donadon continuará recebendo seu salário de 26.723 reais, que deve ser poupado porque ele só pode comprar num supermercado clandestino que existe na Papuda, e quanto ao que receberá como cota para alimentação e despesas de gabinete (32.700 reais), não pode ser gasto porque o supermercado não pode emitir nota fiscal para comprovação das despesas.

Através de emendas parlamentares o Donadon pode dispor de 15 milhões para aplicar em obras de sua região. A Papuda poderá ficar um brinco e atrair outros políticos se a verba for usada para melhorá-la. E além disso ainda tem auxílio-moradia, passaporte diplomático, assinatura de jornais e revistas e o chamado auxílio-paletó que é um salário no inicio e fim do mandato.

O problema é que o deputado propõe e aprova leis, enquanto o presidiário está na Papuda exatamente por desrespeitar as leis. Durma-se com uma jabuticaba destas!

E agora fiquem com o Sandra Vaia, que vai além, ao descrever esta fruta tão comum e tão brasileira, de uma forma clara e concisa.

“Diz a lenda que existem coisas que só dão no Brasil, como a jabuticaba. Não é verdade, mas quando a lenda é melhor do que a realidade, publique-se a lenda, como dizia aquele personagem de “O Homem que Matou o Facínora”, de John Ford.

A jabuticaba pode ser uma lenda, mas um deputado condenado e preso por corrupção ter o seu mandato mantido pelo voto secreto de seus pares ( para ser gentil e não chamá-los de comparsas), certamente deve ser uma primazia e uma contribuição original brasileira para o livro Guinness.

Mas não é uma contribuição singela que começa e termina em si própria. Ela tem requintes que uma pessoa normal teria dificuldade em explicar a um colecionador de aberrações políticas universais: o próprio condenado compareceu à sessão que manteve o seu mandato e pôde votar, e com toda certeza o fez em causa própria, a não ser que além de larápio, seja maluco.

Mais ainda: esse centauro de três cabeças que só a criatividade da política brasileira foi capaz de construir, teve o toque artístico de uma decisão do Supremo Tribunal Federal, que levou ao pé da letra a disposição constitucional segundo a qual só o Legislativo pode cassar o mandato de seus membros.

Acontece que existe outra disposição constitucional, essa ignorada pela maioria do colegiado do STF, segundo a qual a condenação transitada em julgado cassa automaticamente os direitos políticos do condenado -- e supõe-se que entre esses direitos esteja o de legislar.

O nosso centauro de três cabeças, então, não tem direitos políticos mas pode fazer leis.

Num acesso inevitável de pudor, o presidente da Câmara Federal resolveu fazer o possível para amenizar o escândalo, e chamou o suplente para assumir o cargo do deputado preso mas não cassado.

Uma pergunta inevitável: se o voto dos deputados fosse aberto e não secreto, os que votaram contra a cassação e os que sorrateiramente fugiram do plenário para ir lavar as mãos na bacia de Pôncio Pilatos, teriam coragem de fazer isso?

Outra pergunta também inevitável: o presidente da Câmara terá a coragem, doravante, de expulsar manifestantes invasores do plenário clamando que “esta é uma casa de respeito”?

E, por fim, a mais inevitável e óbvia das perguntas: os deputados sabem que boa parte das pessoas que saiu às ruas em junho para protestar contra ônibus, estádios e etc., também estavam revoltados contra a falta de vergonha dos políticos?

Se alguns manifestantes se excederam depredando bens públicos, lojas, bancos e quebrando vitrines, puderam ser chamados de vândalos -- como foram -- seria possível evitar a constatação de que o que os deputados praticaram uma espécie mais sutil mas não menos nociva de vandalismo?


Manter o mandato do deputado Donadon foi, sim, um ato de vandalismo moral.”

terça-feira, 3 de setembro de 2013

PRODUÇÃO DE CONHECIMENTOS




Por CArlos SEna. (*)


Construir uma casa é fácil. Com dinheiro e um bom engenheiro, logo a casa sai linda e maravilhosa. O mesmo não se dá quando se trata da produção de conhecimentos. Produzir conhecimentos não significa apenas "produzir" tal qual fazemos com a construção de casas, carros, objetos ou de um simples prato de papa. Produzir conhecimentos vai além de tudo isso, porque busca nos seres humanos aquilo que a modernidade, às vezes inibe, às vezes nos blqueia com sua vasta concepção equivocada de que tudo está pronto; de que tudo se vende nos supermercados e magazines. Produzir conhecimentos ignora, inclusive o computador e demais benesses tecnológicas. Isso porque a tecnologia é ferramenta mimportante mas, que apenas ajuda a consubstanciar a produção do saber. Não fosse assim o mundo não teria sobrevivido em épocas passadas sem computador, sem celular, sem... O mais importante na produção do saber geral e específico é o conteúdo interior que os indivíduos adquirem, inclusive com o beneplácito da genética, embora essa não seja o elemento determinante.

Produzir conhecimentos nos dias de hoje se torna menos constante, porque já se vende de tudo pronto, é o que nos querem dizer. Menos sexo, costumo ironizar em tom de algazarra. Mas, afora isso, quase tudo se vende pronto e em caixinhas. Mas, os conhecimentos, esses não. Esses jamais serão dispostos em caixinhas nos supermercados, pois requerem outras condições além da escolaridade, da informática, de ter estudado em colégios bons ou ruins, em universidades boas ou ruis. Certamente que a formação é determinante. Mas, muitos são os que se formam e que nada elaboram, nada produzem nem na área da cultura material, muito menos da imaterial. Infelizmente boa parte dos nossos jovens montam e desmontam um computador por dentro e por fora, mas são incapazes de elaborar sistemas humanos de produção de conhecimentos. Ou elaboram, sem as variáveis que uma considerável produção do saber exige; mesmo sem a devida inteface com o conjunto da obra que se quer inferir na lógica do conhecimento. O outro lado disso é igualmente verdadeiro: há jovens com capacidade invejável de produção de conhecimentos, mas ficam isolados nos seus mundihos na frente do computador e nem sempre os seus saberes se revestem de componemte social.
A produção de conhecimentos nos tempos modernos fica mais dificultosa pelos processos próprios do mercado. Porque tudo o mercado diz que vende e isso fica claro quando a gente vê nos jornais pessoas se dizendo "fazedoras" de TCC e coisas do gêneros. Ou seja, em tese até conhecimentos se vende, mas o que não se pode dizer é que alguém esteja vendendo em caixinhas a "produção" do conhecimento ali, in natura (por isso que gosto de banana, pois é a unica fruta que já nasce pronta e embalada pra consumo). Isso tem que ser produto do acúmulo de conhecimentos e da facilidade que se tem que ter para produzir o conhecimentos com todas as dificuldades próprias que o "parir" ideias contém. O melhor dessa questão é que ela não é privilégio de apenas alguns privilegiados, como é o caso de alguém que é colocado em emprego bom no serviço público pela via do "pistolão", das "costas largas" de alguém. Um violão em cima de uma cama não toca. Nem em qualquer outro lugar. Ele só serve se quem o pegar souber, no mínimo, repetir melodias que um dia alguém produziu.

Fico feliz em poder participar um pouco da produção de conhecimentos na área que me apraz. Fico feliz saber que há muitos que isso também fazem e assim fazemos a diferenças

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(*) Publicado no Recanto de Letras em 19/07/2013

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

A semana - Fuga de pinto, deputado na cadeia e o apagão




Por Zé Carlos

O filme da UOL, que resume a semana que passou, tinha roteiro óbvio. Eu até lembrei daquela época que ia ao Cine Rex, lá de Bom Conselho, para  ver filme de Rocky Lane. Já sabia o final do final antes de entrar no cinema.

Começa com o caso muito sério, e que se torna cômico no filme pela música e pela conotação jocosa do nome do senador boliviano que envolve um “pinto”. Mas, é muito difícil tratar o caso com humor, do ponto de vista da diplomacia brasileira. É difícil imaginar que um país conceda asilo a um cidadão, e o trate tão mal como dito pelo diplomata brasileiro, que ele era, ao ponto dele arriscar sua carreira para tirá-lo da Bolívia.

Voltando aos filmes que vi na minha infância eu fico pensando na fuga com o diplomata Eduardo Saboia, ele de máscara, montado no cavalo Silver, sendo perseguido pelo índio Evo, e gritando para o Brasil: “Há risco iminente de vida e de dignidade de uma pessoa.” Eram o Zorro e seus inimigos. Chegando à fronteira, foi recebido pelo Patriota, que por isso perdeu o cargo, retirado dele pela algoz dos direitos humanos, sua chefa, e que justificou seu ato dizendo que a toca do Brasil na Bolívia era muito confortável. E, não se surpreendam, porque a chefa gosta de um bate boca com quem a acusa, ela repeliu a insinuação do Zorro, digo, do Eduardo Sabóia de que teríamos um DOI-CODI lá na toca. É um caso para investigar, antes de rir.

E o pior da semana estava por vir. Agora temos um parlamentar que é um detento. O deputado Natan Donadon conseguiu o feito de comover seus pares de que roubar é compensador. Depois de condenado, ele conseguiu manter seu mandato. Riam, riam e riam meus caros, pensando que isto é uma piada de um algum programa de humor. Riram? Agora voltem ao normal e passem a chorar, chorar e chorar, porque isto é verdade. Eu não me lembro qual foi sua pena, mas, para ele seria bom que fossem muitos anos pois teria direito até a aposentadoria como deputado.

Finalmente, o filme aborda mais outro apagão no Brasil, desta vez aqui no nordeste, e que também me atingiu. Eu fiz uma terrível constatação. A falta de eletricidade hoje, só se torna importante, pelo menos no horário deste apagão, porque junto com ele vai junta a internet. Eu fiquei fazendo outras coisas por mais de 30 minutos, sem me dar conta da falta de eletricidade, até que fui navegar na internet. Ainda até pensei de reclamar para o meu provedor, quando descobri que o problema era com a eletricidade e não com o sinal de internet. Ou seja, para alguém que, na infância passou anos sem energia elétrica lá em Bom Conselho, e até sente saudade das brincadeiras no escurinho das ruas, hoje, o que sinto é não poder atualizar este blog. Não tem jeito, rir ainda é o melhor remédio.

Vejam abaixo o resumo do roteiro dos produtores e depois vejam se conseguem rir com o “pinto” dos outros, vendo o filme.

“Adversário político do presidente Evo Morales, o senador boliviano Roger Pinto Molina fugiu para o Brasil sem o conhecimento do governo brasileiro. Com o conhecimento --e anuência --da Câmara, o deputado-presidiário Natan Donadon (ex-PMDB-RO) se livrou da cassação, reclamou das algemas da prisão da Papuda, no DF, e da "voz das ruas" --enaltecida, por outro lado, nas palavras do STF ao manter condenações do mensalão. Às trevas, de fato, o único condenado foi o cidadão: novo apagão deixou 16 milhões sem luz em sete Estados do Nordeste.”


sábado, 31 de agosto de 2013

SANTINHOS.




Por  José Antonio Taveira Belo /Zetinho

Domingo. Dia 18 de agosto. Ano - 2013. O dia amanheceu chuvoso em toda Região Metropolitana do Recife. As goteiras caiam compassadamente deixando aquele barulho preguiçoso. A temperatura baixou ocasionando o uso da camisa em casa. Portas e janelas fechadas. A vitrola soava baixinho musica instrumental das décadas de 70. O telefone toca interrompendo o silencio do ambiente.  Atendo. Engano. A rua deserta e poucos carros circulando somente os ônibus, por obrigação circulam com poucos passageiros. Como é intermitente a chuva, não nos deixa locomover para os nossos passeios dominicais. Para passar o tempo, vou até o quarto (deposito) cercado de livros, revistas, jornais (coleção do jornal A GAZETA de Bom Conselho, minha querida terra) que tanto prezo, pois neles estão a historia da nossa terra, principalmente os acontecimentos dos últimos vinte dois anos de existência. Começo a remexer nos objetos que há tempo não mexia.  Encontro uma caixa pequena e bem cuidada com uns “santinhos” que a minha Tia Irmã Maria Dionísia, freira da Congregação das Damas Cristãs. São centenas deles endereçado a minha querida mãe NEDI, de quem era a sua conselheira. Os “Santinhos” eram enviados de várias cidades por onde ela passou nos anos de religiosa, Campina Grande, Nazaré da Mata, Vitoria de Santo Antão e a última de Garanhuns, durante os seus 75 anos de vida religiosa, comemorado no Colégio Santa Sofia. Cataloguei por data desde década de 40, expressando a maioria o desejo de feliz aniversário, feliz páscoa, feliz Natal e Ano Novo, em outros comunicando a sua chegada em conventos para onde fora transferida. O “santinho” do Sétimo Centenário Nossa Senhora do Carmo – 1951 – continha a seguinte mensagem - “Salve! Salve! Felicidades. Parabéns. Deseja-te tua irmã que muito te estima. Religiosa. Irmã, Maria Dionísia. 21.5.1952. Em 27.12.1952 enviou o “santinho” – Jesus Ressuscitado – com os dizeres – Querida e boa irmã, Nedi envio-te os meus sinceros agradecimentos por tanta gentileza me felicitando, pela passagem do meu natalício. Nossa Senhora te recompense, aproveito para dizer-te, que no dia 29 deste, irei para Campina Grande. Tua irmã religiosa – Irmã Maria Dionísia”.

Esta pratica benéfica e muito usada pelos Padres e Religiosas em tempos passados em distribuir junto à população os “santinhos” foi abolida nos tempos de hoje. Lembro-me dos “santinhos” que recebia, quando criança na Rua do Caborje pelo Padre Alfredo. Outros eram adquiridos na loja de Gabriel e Antonio Vieira Belo cada um com uma mensagem. Lembro-me, ainda que de posse destes “santinhos” fazíamos um altar na sala de visita, das nossas casas, usando caixa de sapatos, forrada com uma pequena toalha branca, dado pela minha mãe, e em cima colocava o “santinho” adornado por flores silvestre colhidas no quintal da casa de minha avó, Ana e de minha tia Carlinda. Diante daquele pequeno altar fazíamos a oração do Terço e das novenas. Era uma brincadeira sadia das crianças daquele tempo. Padre Alfredo era mestre nesta distribuição, não podia ver alguém que colocava a mão no bolso e tirava um santinho entregando e abençoando enquanto tomava a benção, beijando-lhe a mão e ele expressando em sua fala mansa – Deus te abençoe! - Quando visitava as famílias normalmente ao sair deixava como lembrança um “santinho” da Sagrada Família – Maria, Jesus e José - também podia ser do Coração de Jesus, São Sebastião, Santo Antonio, Nossa Senhora da Graças, Nossa Senhora do Bom Conselho, São Francisco Xavier ou Assis, Santa Terezinha do Menino Jesus, Santa Maria Goretti e assim por diante, não deixava nenhuma casa sem esta lembrança. Quanta alegria demonstrava aqueles que recebiam a “santinho”, principalmente as crianças que corriam a casa para mostrar a sua mãe – Olhe mãe, o que Padre Alfredo me deu! 

Os tempos mudaram? Sim. Poucos religiosos, neste tempo de hoje, mantém esta tradição. Hoje tudo é diferente. Não existe mais aquela dedicação dos antigos Padres e Religiosas e Religiosos. Hoje as crianças se dedicam a jogos eletrônicos, a filmes incompatíveis com a sua idade. Os pais já não levam e nem incentiva os pequenos a ida a Igreja, preferem os Shoppings.  É verdade que o divertimento é necessário para uma vida melhor das crianças tais como, passeios, praias, parques de diversão, teatro infantil e muitas outras atividades que elevam a civilidade desde tenra idade. Mas tem-se que plantar nos corações das crianças e dos jovens a religiosidade, pois é dela que vem a nossa formação social e cristã. Não podemos descuidar desta tarefa, pois faz parte da nossa vida e nós pais, avos somos os responsáveis pelo futuro dos nossos filhos e netos.


 Seria de bom alvitre, que estas lembranças – distribuição dos SANTINHOS - junto à meninada deveriam ser retomadas, a fim de criar a religiosidade nas crianças. As crianças neste tempo moderno já não ligam para isto, com a ajuda dos pais e dos avós. Isto é arcaico. É do tempo dos meus avós. Mas o que fazer? Conscientizar os responsáveis por estas criançada e jovens para um melhor condicionamento de vida, pois assim poderemos plantar a PAZ no coração da humanidade.  

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A política externa brasileira: As últimas "obradas" do PT




Por Zezinho de Caetés

Desde a época do Lula, com o Celso Amorim, que o Brasil entrou num desvio à esquerda em sua política internacional, que sempre pecou pela falta de originalidade (seguindo sempre seus parceiros do socialismo bolivariano da América Latina), deixando de lado os tempos idos do Barão do Rio Branco, e aliando-se a ditadores de todos os credos.

Com a chegada de Dilma e com o cargo de ministro das relações exteriores ocupado pelo Antonio Patriota, tudo continuou na mesma coisa. E este é quase o título do texto do Merval Pereira que transcrevo abaixo (“Tudo a mesma coisa”, publicado em o Globo em 27/08/2013), que mostra com a competência de um imortal, porque, em termos de política internacional, vamos mal na fita.

Com os episódios recentes do senador boliviano que vivia em condições sub-humanas na Embaixada Brasileiras naquele país e com a vinda de médicos cubanos dentro do programa Mais Médicos, tudo soa mesmo com uma catástrofe para o nosso país. É a mentira, que já era um ponto constante na política interna, agora transformada em arma fundamental também na política externa.

Pelo jeito, o uso da ditatura cubana foi tão usado pelos que hoje estão no governo que a boca ficou torta, voltada para esquerda e com sequelas irreversíveis. Tudo é feito para agradar o Fidel no seu leito de morte, e que se dane o povo cubano e o povo brasileiro. A discriminação oficial dos pobres, vestindo a auréola da ajuda, é um fato degradante. Quando se pergunta por que os médicos não precisam fazer o teste de aptidão obrigado por Lei, se diz que para o que eles vão fazer não precisa teste. Ou seja, os pobres não precisam de médico, precisam apenas de homes de branco e que dizem serem médicos.

No caso do senador boliviano, o imortal mostra as contradições de política externa que cercam o caso, embora o mais importante seja o sofrimento de um ser humano doente num cubículo infecto de uma embaixada para não ferir os brios de um índio que nunca foi índio e cuja diversão é colocar o Brasil de joelhos com exigências descabidas, com fez no caso da Petrobrás, e que o Lula correu feito ele fazia em Caetés quando roubava uma laranja e ouvia um grito do dono do quintal.

É uma verdadeira tristeza ver a que chegamos neste fim de governo petista. O Brasil sairá muito pior do que entrou, e muito “mais pior” ainda se não acabar com o Zé Dirceu e et caterva na cadeia, sendo tratado por um médico cubano, que não fosse médico e sim seu colega nas aulas de guerrilha em Cuba.

Fiquem com texto do Merval, que eu vou passar as notícias para ver qual a penúltima “obrada” deste governo.

“O caso do resgate do senador boliviano que acabou determinando a demissão do ministro das Relações Exteriores Antonio Patriota tem a ver com o dos médicos cubanos, tudo junto e misturado cabe na mesma geleia geral da concepção de política internacional dos governos petistas, que não se pejam de serem usados por seus parceiros regionais de ideologia.

É evidente que o encarregado de negócios da embaixada brasileira na Bolívia, Eduardo Saboia, que por conta própria decidiu dar fim ao cativeiro de mais de um ano do senador Roger Molina, não poderia tê-lo feito à revelia de seus chefes hierárquicos, por mais razão que tivesse para indignar-se com a situação.

Cabia a ele a tarefa indigna de proibir o contato de Molina com outras pessoas, e assistiu de perto à angústia e à depressão tomarem conta de uma espécie de prisioneiro do governo brasileiro por obra e graça de uma decisão política do governo boliviano.

O governo da Bolívia age exatamente como o da Inglaterra, que impede a saída do país do mentor do WikiLeaks, Julian Assange, apesar de o Equador ter concedido asilo político a ele. Mas o presidente equatoriano, Rafael Correa, não mede esforços para defender o direito de asilo, enquanto o governo brasileiro, pelos relatos do próprio Saboia, colabora com o da Bolívia, montando um grupo de trabalho fictício para tratar do assunto, enquanto o tempo vai passando.

Enquanto Assange dá entrevistas no interior da embaixada do Equador em Londres, o senador Molina estava praticamente em cárcere privado. Não foi a mesma a atitude tomada pelo governo brasileiro quando Manuel Zelaya, deposto da presidência de Honduras dentro das regras constitucionais, bolou um plano, apoiado na época por Hugo Chávez, para tentar voltar ao poder.

Usou para isso a embaixada brasileira, onde passou a fazer reuniões políticas e a dar entrevistas para o mundo contra o novo governo. A subserviência do governo brasileiro aos países alinhados à ideologia esquerdista não tem limites e geralmente está ligada a tentativas de golpes institucionais.

O apoio a Zelaya não deu certo porque o povo hondurenho não o queria de volta ao poder, mas, dentro das organizações regionais que dominam, como o Mercosul, o golpe no Paraguai surtiu o efeito desejado: abrir caminho para a entrada da Venezuela no bloco.

O governo brasileiro utilizou-se de um pretexto, a deposição do presidente Lugo, para não aceitar as regras constitucionais daquele país e puni-lo com a suspensão do Mercosul, para alegadamente defender a “cláusula democrática” do bloco. E quem acabou sendo aprovado para integrá-lo?

A Venezuela de Chávez, que, como dizia o ex-presidente Lula, tinha “democracia até demais”. Conseguido o objetivo, agora o Mercosul já aceita o Paraguai de volta, mas quem não quer agora é o presidente Horácio Cartes, que já se aproxima do bloco da Aliança Atlântica e diz que não se sente bem ao lado da Venezuela.

O caso dos médicos cubanos tem a mesma raiz ideológica. Cuba ganha mais com a exportação de médicos do que com o turismo, isso porque o dinheiro do pagamento individual é feito direto ao governo cubano, que repassa quantia ínfima aos médicos. Tudo já estava acertado, sabe-se agora, há mais de um ano, e as manifestações de junho foram o pretexto para pôr em prática a ajuda ao governo cubano.

O governo brasileiro não apenas aceita essa mercantilização de pessoas como dá apoios suplementares: enquanto as famílias de médicos de outras nacionalidades podem vir para o Brasil, o governo brasileiro aceita que o governo cubano mantenha os parentes dos médicos enviados ao Brasil como reféns na ilha dos Castro. E, para dar outra garantia adicional, adianta, através do advogado-geral da União, que o médico que porventura pedir asilo político não o receberá.


Muito mais do que discutir a qualidade dos médicos cubanos, criticada pelas associações médicas brasileiras, interessa discutir as imposições que o governo brasileiro aceita por parte de seus parceiros ideológicos no continente, o que o faz abrir mão de valores que sempre foram predominantes na nossa política internacional: a proteção dos direitos humanos, a garantia da liberdade de ir e vir, que não podem ser abandonados por um país que (ainda) defende os valores democráticos.”