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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

As pesquisas eleitorais e o Seminário Real do Bulandi - Um intervalo de confiança.




Por Zé Carlos

Abaixo vai uma descrição pouco elaborada e sem o brilhantismo com que ela foi exposta no Seminário Real de Amostragem,  da principal palestra do seminário feita pelo cientista “nerd” temeroso de perder a cabeça, que eu captei e tento passar para vocês (ver primeiro texto aqui). Se houver algum falha me perdoem, porque a conferência foi toda em inglês e o meu está mais enferrujado do que os canos da COMPESA, em Bom Conselho, e no Recife também.

“Caro Rei,

O meu método consiste em pegar toda a população do reino e anotar o número do seu CPF, ou RG. Para quem for anônimo, e não quiser apresentar os documentos, criaremos um código que os identificará de alguma forma, pode até ser um IP, ou mesmo um código de barras, que só serão usados para que, ao serem jogados, os números, em uma bacia enorme, possam ser sorteados para entrar na pesquisa como “amostrados”. A cada pessoa eleitora do reino corresponderá um número, já que aqui dizemos que somos livres mas somos obrigados a votar. O sorteio pode ser feito por Vossa Majestade (V.M.) ou poderá ser feito pelo Faustão ou pelo Sílvio Santos, que não moram no reino mas tem programas de TV que são vistos por aqui.

Escolhidos os “amostrados”,  por sorteio, faremos a eles as perguntas que quisermos e eles representarão a todas. Sem privilégios nem intervenção dos seres humanos mortais e pecadores, dentro dos limites do possível, por exemplo, com um grupo de policiais pacificadores atrás deles, para evitar intervenção de algum meliante.

Ora, senhor Rei, como estamos usando apenas uma parte da população, não poderemos garantir, com 100% de certeza, que suas respostas sejam as mesma que obteríamos se usássemos todo mundo. Mas, como V. M. já sabe, o custo é muito menor, e com o uso da teoria das probabilidades, que eu prefiro ter a cabeça cortada, do que tentar explicá-la, o que podemos fazer, além do que já se faz, é dizer quanto é o erro envolvido nestas estimativas. Este erro vai ser chamado de “margens de erro”.

O que apelo, como ser humano mortal e medroso, é que V. M. só me corte a cabeça se os resultados, depois de computados os votos, se estiverem fora desta “margem de erro”. Se houver uma mudança do seu decreto mortal, eu continuarei a exposição do método, se não, eu  paro por aqui.”

O Rei, que ouvia o cientista com atenção fez um gesto real de anuência ao seu pleito e então o cientista, que agora tinha o compromisso de acertar os resultados, mas dentro de uma margem de erro, porque ele prezava sua cabecinha, continuou.

“Caro Rei,

Sendo assim vamos em frente. Vamos supor que, o tesouro real estivesse numa situação tão ruim, que V. M. só pudesse autorizar um pesquisa eleitoral para entrevistar 2 pessoas. Isto poderia ser feito, sorteando duas pessoas chamando-as ao palácio e perguntando a elas em quem votariam e teríamos um resultado qualquer, que poderia ficar perto ou longe do resultado das eleições. Mas como eu estou com minha cabeça ameaçada, eu só contaria o resultado para Vossa Alteza Real dizendo que a “margem de erro” seria muito grande, com medo de perdê-la. Isto não significa que os resultados, ao consultar apenas duas pessoas, estariam longe do resultado das urnas. Apenas seria pouco provável que estivesse.

A essência da coisa, Majestade, é que mesmo de 2 pessoas, dependendo do tamanho da população do reino, poderíamos ter milhões de pares que poderiam ser formados por todo mundo, por exemplo, o Zé Abílio e o Josino Villela seria uma destas amostras possíveis e fatalmente o resultado, caso ela tivesse sido a escolhida é que a eleição seria empate. Nós, cientistas, ficamos só imaginando coisas complicadas, mas, V.M. pense que cada amostra de 2, de 3, de 4 ou de qualquer número, terá um resultado que só existe em nossa imaginação. Continuando a imaginar, que é o que fazemos para fazer jus ao nosso salário de cientista real, suponha que podemos ter no papel todos os resultados possíveis, com uma amostra de tamanho determinado por mim ou por V.M. Então para cada vez que escolhemos uma destas amostras, temos um resultado que pode ser comparado com o da eleição.

Por exemplo, para uma amostra de 5 pessoas, poderíamos ter, para a população do reino todo, que beira os 1000 habitantes, um total de milhões de combinações possíveis, das quais apenas uma seria sorteada. Mas, imaginando, como cada uma tem a mesma possibilidade de sair no sorteio, cada uma poderia produzir um resultado diferente, com determinada probabilidade. É como no jogo do bicho, Majestade, tanto pode dar cabra como pode dar jacaré. O que temos antes é a probabilidade de ganhar no bicho, que é mais fácil de calcular quando pensamos no “grupo” do que quando pensamos no “milhar”.  

Sendo assim foi criado algo que se chama Intervalo de Confiança, que dizem, tem tal nome porque indica quando o cientista poderá ter a cabeça cortada, pois nos dá a diferença entre o que é obtido para uma amostra particular e o resultado real da eleição. Este intervalo, gera um chamado Coeficiente de Confiança que diz em percentagem, quanto poderíamos esperar que o resultado de nossa amostra estivesse certo. Por exemplo, se ele for 95% indica que em apenas 5% das amostras esperamos que venha com um valor errado e nos faça perder a cabeça. Entendeu majestade?”

Eu vi que, a esta altura o Rei já estava um pouco sonolento, e ao invés de dar resposta à pergunta,  disse para todos:

- Hora de intervalo para o lanche, voltaremos em seguida quando nos tivermos refeitos.

Vi o cientista respirar de alívio e correr para suas notas, para tentar ser mais claro ainda, se possível, no próximo bloco da conferência.

Quando resolvi publicar estas notas captadas no Seminário Real, e fui relê-las, vi que era impossível para um cristão acompanhá-las no blog, se as publicassem tudo num dia. Resolvi então fatiá-las, como vocês já notaram. Se gostarem deste terrível assunto continuem lendo nossa notas nas próximas postagens. Será que o Rei vai engolir esta tal de amostragem? Não percam!

domingo, 20 de novembro de 2011

A semana do cai não cai: Do Lupi ao Agnelo, e outros.




Por Zé Carlos

Isto já está ficando monótono. Mais um ministro na ponta da corda e a presidenta a balançar. E tudo continua como antes, nas bancas, se esperando as revistas semanais, à espreita de mais uma suspeita, e de mais uma cabeça a ser exposta no noticiário.

Parece haver algo errado em nossa república, pois quase todos os ministros acusados já estavam no cargo há muito tempo, com algumas exceções. Se isto acontece, temos que culpar o Pero Vaz de Caminha, o D. Pedro I, o Marechal Deodoro ou o Tancredo Neves? Como hoje já se duvida tanto de nossa história oficial, que tal criarmos um futuro oficial com todo respeito pelo nosso povo? Um futuro que, quando nossos netos, bisnetos e tataranetos fizerem a história poderem se orgulhar pelo menos de nós, daqui prá frente?

Todos responderão na afirmativa e com balançar positivo da cabeça. O grande problema é que não queremos de maneira nenhuma que ela sinta alguma dor, e preparamos nossas próximas gerações para o mesmo analgésico que agora tomamos, e torcemos para que ele faça um efeito melhor no futuro. E chega de divagações pois quero mesmo é apresentar o filme feito pela equipe da UOL, que vai lá no fim. Antes leiam o resumo da equipe de produção.

A semana teve pancadaria no Líbano, tiros na Venezuela, risos nos EUA e festa na Itália. Mas aqui no Brasil, a presidente Dilma Rousseff chorou em evento público. E não foi pelos casos de suspeita de corrupção de seu ministro Carlos Lupi (Trabalho) nem de seu aliado político Agnelo Queiroz (governador do DF). No resto, a favela da Rocinha foi recuperada pela polícia, mas a namorada do traficante Nem continua desaparecida.”

sábado, 19 de novembro de 2011

Lupi, uma carga pesada?





Por Zezinho de Caetés

Continuo, por dever de ofício, a tentar fazer meu papel de analista político. Está difícil, como já falei. E para ficar mais difícil ainda fui ver o depoimento do ministro do trabalho, Carlos Lupi, no senado. Como disse ontem aqui no Mural da AGD, que é o melhor meio de comunicação rápida que temos, foi deprimente.

Como se dizia lá em Caetés em minha juventude, só não chamaram o homem de “mestre de açúcar”. Não me perguntem a origem do significado disto que não sei. Apenas sei o significado.  Mesmo que não tenha sido dito nestes termos pela Senadora Kátia Abreu lá no Senado, para não ferir o decoro, seu discurso faz jus à frase que vi hoje no Blog do Noblat, atribuída a ela: “Lupi é um escroque, frio e calculista, cínico. Fica se escondendo na barra da saia da Dilma ao tentar misturar as denúncias contra ele com o governo.”

Eu não a repetiria aqui, pois os telejornais já mostraram a performance bisonha de um homem que já disse que não sairia do ministério nem à bala. Agora não precisa nem de bala para tirá-lo de lá. Basta um sopro da Dilma. O homem ainda não caiu de podre. Alguns dizem que ele está chantageando a presidenta. Penso que não. Acho que ela de tanto demitir ministro ou está com pena deles ou está cansada.

Mas, uma coisa é certa. Temos uma crise econômica que se aproxima da ainda alta popularidade da presidenta, e ela que tema, se uma crise política gerada pela sua inércia administrativa na punição dos “malfeitos” se juntarem para causarem problema. A oposição, também bisonha, já começa a acordar, e a voz rouca das ruas breve vai responder aos questionários de uma forma diferente. E quero ver o que o PT vai dizer em casa.

Hoje tudo é jornal de ontem. Até este texto, que estou enviando para ser publicado no sábado, pois já é noite de sexta, já estará defasado se o Lupi rodar. O texto abaixo já é um pouco mais velho do que este, pois foi escrito antes do depoimento de Lupi, mas, a jornalista Dora Kramer, tem todas credenciais para traçar um perfil das dificuldades da presidenta, e talvez por isso chame o texto de “Carga pesada”. E põe peso nisto. Continuem com a Dora, que eu já estou nas bancas esperando a Veja, e nem volto.

Não é confortável a situação da presidente Dilma Rousseff: ou demite o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, e segue a regra aplicada a outros partidos de sua base aliada que também tiveram ministros envolvidos em denúncias em série, ou deixa tudo como está e empresta fundamento às bravatas de Lupi quanto a ser, diferentemente dos colegas, “imexível”.

Assim como o vampiro corre da luz e o diabo foge da cruz, o Palácio do Planalto tenta evitar o registro da contabilidade de seis ministros derrubados por suspeita de corrupção, fraudes e gestão indevida, para não dizer temerária.

Mas, ao resistir a fazer o que deve ser feito (a julgar pelo critério adotado pela presidente até agora) apenas para não dar o braço a torcer às pressões das denúncias que não cessam, o governo adere exatamente à lógica da qual busca fugir. Dança, ao inverso, conforme a música e não de acordo com seu critério do que seja ou não aceitável no comportamento de um ministro do Estado.

No último fim de semana acrescentaram-se novas denúncias às já existentes: a carona do ministro em jatinho na companhia de dono de ONG acusada de desviar dinheiro de convênios; a mentira ao Congresso sobre o assunto; atuação livre de lobistas dentro da pasta para acelerar processos de interesse de sindicatos; loteamento de superintendências regionais entre correligionários; privilégio na assinatura de convênios a Secretarias Municipais do Trabalho cujos titulares são filiados ao PDT.

Isso sem contar a impertinência verbal de Carlos Lupi.

Por menos caiu Nelson Jobim da pasta da Defesa, com palavras bem mais leves sobre “idiotas” imodestos, que a dúvida pública de Lupi sobre a autoridade de Dilma para demiti-lo.

Por denúncia semelhante à carona em avião contratado por empresário com negócios junto ao ministério, caiu Wagner Rossi da Agricultura.

Por convênios fraudulentos e favorecimento ao partido (PC do B), caiu Orlando Silva.

E por que Lupi não cai? Consta que no caso do PDT o buraco é mais embaixo.

Formalmente licenciado da presidência por conflito de interesses apontado pela Comissão de Ética Pública, Carlos Lupi é ministro do Trabalho e ao mesmo tempo presidente de fato do partido.

Domina a máquina de cima a baixo e isso dificultaria seu afastamento, porque deixaria o Palácio do Planalto sem interlocutor na legenda para negociar a troca de seis por meia dúzia, como foi feito nos casos anteriores.

Do ponto de vista estritamente argumentativo, a premissa seria verdadeira. Mas, no cotejo com a realidade exposta publicamente por alas dissidentes do PDT, revela-se um conveniente sofisma.

Há pelo menos dois grupos que contestam os métodos de Lupi de se fortalecer a estrutura partidária a partir do uso da máquina pública.

Um deles, aquele com representação no Parlamento, é integrado no Senado por Cristovam Buarque e Pedro Taques e, na Câmara, por Miro Teixeira e José Antônio Reguffe.

O outro se identifica com os fundadores e a liderança de Leonel Brizola. Acusa Lupi de desorganizar propositadamente o PDT para transformá-lo numa sinecura de uso pessoal.

Ambos os grupos já deixaram claro que apoiam investigações e querem ver Carlos Lupi longe do ministério e do partido.

São minoritários? São, mas mostram – como nenhum dos partidos até agora mostrou – que o PDT não é uma rocha em torno de Lupi e que, bem trabalhado, pode vir a ser uma peneira.

Ademais, mesmo junto aos que lhe são fiéis certamente pesa mais o poderio de uma presidente cuja avaliação positiva ultrapassa os 70% e ainda com três anos de mandato pela frente.”

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

"Eu te amo Dilma"...




Por Carlos Sena (*)
 
Até que ponto um político corrupto não quer perder a boquinha? Tudo bem que denuncismo até existe, mas prefiro acreditar que “onde há fumaça há fogo”. Fogo, na verdade é o que mais existe em Brasília, mais do que fumaça. Mas o parlamentar do trabalho prefere fazer gracinha com coisa séria e tentar, sem contexto, fazer uma declaração de amor a quem não conhece, embora diga; a quem nem respeita, embora diga; a quem nem tem intimidade, embora diga. Quem tem sua boca diz o que quer, mas quem tem o poder não precisa dizer, apenas escrever e publicar. Pronto. Há quem duvide que isto vá acontecer com esse ministro que concorre com a bala? Pois é. Só uma bala o derruba, mas a Presidente já deu o tom do seu governo e ele bem que já sabe disto. Mesmo nessa retórica da bala, o ministro trabalhou mal, pois nessa violência que vivemos, até bala tem que virar bom-bom ou confeito, como se diz no nordeste.

Diante de tanto ministro envolvido em corrupção, a gente fica pensando que nosso país é, de fato, muito rico. Sendo essa prática tão antiga, não fossemos ricos, já teríamos sucumbido da face da terra. Então a gente imagina como nossa educação e nossa saúde e nossa cidadania estaria a mil, não fossem esses que estão aí, há séculos, dilapidando nossas riquezas. Contudo, o que nos entristece além da roubalheira é a cara de pau e o romantismo de ocasião. Provavelmente esse ministro não se dê ao “trabalho” de fazer uma declaração de amor a sua própria esposa, mas a faz a presidente como se ela fosse uma bobinha, ou se estivesse lá por acaso, por fetiche ou coisa assim. “Dilma, eu te amo”! Que coisa horrorosa essa declaração. Será que o ministro faz outras declarações como a do imposto de renda? Deve tê-la feito, mas com a mesma fidelidade com que fez em sua declaração a Dilma.

Pois é. A nação está aí meio paralisada, mas a gente sabe que no fundo a presidente está fazendo o que deve ser feito. Para os mais experientes, o estilo Dilma é de surdina, meio que mordendo e assoprando, pois senão ela não avança. Essa é uma estratégia muito utilizada em sistemas corroídos pela corrupção, pelas relações clientelistas e coronelistas que ainda estão vivas nos porões dos nossos palácios. Neste viés, palácios e palafitas ainda se mantém com ligação direta, posto que a falta de investimento em educação sempre significou um estímulo ao voto cabresto, mesmo na era da informática.

“Dilma, eu te amo”. Melhor que a gente diga a ela no final do seu mandato – é o que desejamos a nossa presidente pela esperança de que ela diga pra que veio aos que imaginavam que ela não viria...

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(*) Publicado no Recanto das Letras em 11/11/2011

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Os muitos Brasis




Por Zezinho de Caetés

Ontem vi na TV sobre os resultados do censo do IBGE. Fui em outra fontes e encontrei alguma coisa com mais substância do que os pequenos tópicos dados no Jornal Nacional.

Leiam abaixo, senhores o que eu vi, com menos detalhes na TV, e nem tive tempo procurar detalhes maiores ainda, o que escreveram Ana Veja Online os jornalistas Rafael Lemos e Lucila Soares. Eu volto em seguida.

Um país urbano, com taxas de crescimento populacional próximas das nações desenvolvidas, avanços sociais notáveis e desigualdades flagrantes, que mantém atual a idéia da coexistência de dois “Brasis”. Este é o Brasil retratado pelo Censo Demográfico de 2010, que teve mais uma etapa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quarta-feira. O conjunto de informações divulgado consolida as características da população e dos domicílios brasileiros levantadas em visitas a 67,5 milhões de domicílios, nos 5.565 municípios das 27 unidades da federação.

A taxa de analfabetismo é um dos indicadores em que a existência de dois Brasis se revela com mais vigor. Entre 2000 e 2010, o número de analfabetos com 15 anos de idade ou mais recuou de 13,63% para 9,6%. Mas as diferenças regionais são gritantes, e nas cidades pequenas, de até 50 mil habitantes, a situação é de calamidade educacional. No Nordeste, a taxa dessas cidades chega a 28%. Em todo o Brasil, existem 1.304 municípios com taxas de analfabetismo iguais ou superiores a 25%. Entre as crianças de 10 anos de idade, a proporção caiu de 11,4% para 6,5% na média brasileira, mas chega a 16,4% no Maranhão e a 13,7% no Piauí.

A chaga da desigualdade revela-se ainda mais impressionante quando se observam as taxas de analfabetismo associadas à cor. Enquanto na população branca existem 5,9% de analfabetos com 15 anos ou mais, entre os negros a proporção é de 14,4%, e entre os pardos, de 13%. Nas cidades pequenas, com até 5.000 habitantes, o analfabetismo entre os negros atinge 27,1%.

A essa diferença de oportunidades na educação pode-se atribuir boa parte da diferença de rendimentos constatada pelo IBGE. Os dados de rendimento ainda são preliminares, e mostram que a população brasileira é pobre. O rendimento médio mensal é de 668 reais, mas 25% dos brasileiros recebem até 188 reais, e metade da população recebia no ano passado até 375 reais, valor inferior ao salário mínimo vigente, de 510 reais. Quando se cruzam os dados de rendimento com os de cor, constata-se que negros e pardos ganham cerca de metade do que ganham os brancos. Na média brasileira, pretos recebem 834 reais por mês, e pardos 845 reais, contra 1.538 reais de brancos.

As maiores disparidades acontecem nas cidades com mais de 500 mil habitantes. Em Salvador, brancos ganham 3,2 vezes mais que pretos. Na comparação entre brancos e pardos, São Paulo aparece no topo da lista da desigualdade, com rendimentos 2,7 vezes maior.
Mulheres

A disparidade entre os rendimentos de homens e mulheres é outra distorção que persiste, embora com tendência à redução. No censo de 2000, os homens tinham rendimentos 53,33% maiores que os das mulheres. No censo de 2010, a diferença caiu para 42%.

A desigualdade entre os rendimentos de homens e mulheres reduziu-se em todas as regiões do país, exceto no Nordeste, onde essa relação ficou estável. Em 2010, metade dos homens ganhava até 765 reais, enquanto metade das mulheres recebia até 510 reais. Nos municípios com até 50 mil habitantes, os homens recebiam, em média, 47% a mais que as mulheres: 903 reais contra 615 reais. Nos municípios com mais de 500 mil habitantes, os homens recebiam, em média, 1.985 reais e as mulheres, 1.417 reais, uma diferença de cerca de 40%.

Destes, 84,4% viviam em cidades, e 15,6% em áreas rurais, consolidando um dos mais avassaladores processos de urbanização já ocorridos no mundo. Em 1950, 63,8% da população viviam no campo; em 20 anos a proporção se inverteu, e no censo de 1970 67,6% dos brasileiros já habitavam cidades.

Nos últimos 20 anos, a taxa de crescimento da população caiu a menos da metade. Entre 1991 e 2000, a população cresceu à razão de 1,64% ao ano; na década seguinte, a taxa foi de 1,17%; A idade média do brasileiro aumentou 26,5 anos para 32,1 anos entre 1991 e 2010. O Rio Grande do Sul é o estado mais velho da federação, com idade média de 34,9 anos. O saneamento básico melhorou, mas continua precário. 32,9% dos domicílios não estão ligados a rede geral de esgoto ou fossa séptica. No Nordeste, a proporção é de 54,8%.”

Fica muito claro que se fôssemos fazer um análise comparativa entre aquela época em que Lula deixou nossa Caetés e partiu para São Paulo, o Brasil e os brasileiros melhoraram de vida. Desde lá, passamos por ditaduras, governos militares, governos civis, várias formas de governo, várias constituições e até mais de uma capital do país. O que não mudou foi a ideia desde que eu era estudante de que sempre tivemos dois, três, ou mesmo muitos brasis diferentes.

Somos um Brasil Urbano quando fomos um Brasil Rural em pouco mais de meio século. Fomos 90 milhões em ação na Copa do Mundo de 1970 e seremos quase o dobro em ação na Copa de 2014. Fomos um país quase monocultor de café e somos hoje um multiprodutor de quase tudo, embora insistamos em ainda exportar matérias primas. Passamos da trigésima economia do mundo para a quinta em pouco mais de 40 anos, mas não podemos nos chamar de um país chamado Brasil, a não ser pela língua que falamos e pelo esporte que mais se pratica, o futebol.

As desigualdades é que nos representam. Quem é o jovem de 15 anos no Brasil? O do sudeste ou o do nordeste? Quem é a criança de 10 anos de idade brasileira? A do Rio Grande do Sul ou a do Maranhão? É aquela que estuda em escola com tempo integral ou aquela que nunca freqüentou uma escola? É aquela filha de pai preto no na Bahia ou aquela de pai branco em São Paulo? Não existe uma criança brasileira. São crianças e crianças.

O que quero dizer sem escrever muito é que o Brasil não mudou muito em termos de desigualdade social e econômica da época em que Lula andou de pau-de-arara para cá. Alguns melhoraram e outros pioraram, e dizem que na média tudo melhorou. Talvez, na média seja verdade, mas nos extremos continuamos os mesmos.

Ontem eu li e vi uma foto do meu conterrâneo Lula, infelizmente, padecendo de câncer, mas não perdendo sua pouse. O que é bom para todos nós. Embora, pensando bem os dois Lulas, o da década de 50 do ano passado e o de hoje, representado por qualquer dos seus netos, como o Brasil mudou. Enquanto o neto de Lula vê seu avô ser tratado no melhor hospital do país, temos com certeza centenas de netos que vêem seus avós morrerem de câncer no SUS.

E o que é mais intrigante é a desfaçatez do meu conterrâneo, explorando sua doença para fazer política. Eu já li muito sobre isto, desde aquele vídeo produzido oficialmente para mostrar quão transparente é o Lula. Poderia até perder tempo escrevendo sobre isto, mas ontem li um texto que resume muito bem o que acontece, escrito pelo Reinaldo Azevedo em seu blog, com o título: “As lendas pessoais de Lula tiranizam a política e os analistas. Ou: Doença, espetáculo e poder”. Leiam, e eu nem volto, pois estou com vergonha.

É lamentável a espetacularização do câncer, vazada como cenas da vida doméstica, protagonizada por Luiz Inácio Lula da Silva. O deputado Ricardo Berzoini (SP), ex-presidente do PT, como demonstrei aqui, não esperou muito tempo e acabou revelando certamente mais do que pretendia o partido. Segundo escreveu no Twitter, Lula fez barba e cabelo e deixou o bigode para as eleições de 2012. É indecente.

Quem é da área sabe que Ricardo Stuckert é profissional dos bons. Era o fotógrafo oficial de Lula quando este era presidente e migrou com ele para o instituto. Já apontei aqui a influência da estética “Benetton”, by Oliviero Toscani, em algumas de suas fotos. Não foi diferente desta vez. O resultado, como peça de propaganda, é competente. Mas é disto que estamos falando: de propaganda. Assim como Toscani expunha um doente de Aids com a família chorando à sua volta para vender camiseta e moletom (ver o post que escrevi ontem sobre a Benetton), Lula usa a sua doença para, como comprova Berzoini, conquistar votos para o seu partido.

Profissionais da fotografia teriam muito a falar a respeito — necessitando de um tantinho de coragem, claro, para enfrentar a patrulha. Um resultado como o divulgado requer ajuste de luz, muitas dezenas de fotografia, até que se escolham “aquelas”. Há tudo nas imagens divulgadas, menos aquilo que se tentou vender ao público: o flagrante e a espontaneidade. Aqueles olhares para o nada — para o futuro da humanidade? — resultam de muitos cliques.

E agora falarei com a “autoridade” de que tem barba, muuuita barba, mais do que eu gostaria. Aquilo é uma cena preparada. O casal atua como modelo — ele, no seu papel predileto: Lula; ela, no dela: mulher de Lula. Por que afirmo isso? A parte mais chata da barba (além do pescoço; por que barba no pescoço, meu Deus?) fica ali na fronteira do lábio inferior, área já raspada e escanhoada, como se nota. O mesmo se pode dizer da papada. Tudo lisinho. E há a questão óbvia: a assessoria de Lula deslocou Stuckert até a casa do ex-presidente, mas não teve o bom senso de chamar uma profissional para lhe raspar cabeça e barba, operação que sempre comporta algum risco? Tenham paciência.

Fico cá pensando nos muitos candidatos a hagiógrafos de Lula, que exaltaram, nos primeiros dias da doença, como é mesmo?, a sua “transparência”, como se esta já não tivesse sido turvada quando gravou um vídeo, tendo o mesmo Stuckert por trás da câmera, marcando um encontro com os “eleitores” em algum palanque. Não sou assim tão inocente, não é? Lula é o homem público mais em evidência do país. É admirado por milhões de pessoas. É natural que haja curiosidade sobre a sua saúde e que muitos torçam para que seja bem-sucedido em seu tratamento. Assim, é aceitável que se divulguem imagens suas e que estas sejam selecionadas e tal.

Mas vamos devagar! É preciso haver algum decoro nisso! Lembrei aqui outro dia que Lula chorou copiosamente diante da Câmera de Duda Mendonça na campanha eleitoral de 2002 ao falar da primeira mulher, morta no parto, e do filho natimorto. Elaborava uma narrativa muito distinta de entrevista que havia concedido anos antes à revista Playboy sobre o mesmo assunto. Diante daquele espetáculo patético em 2002, lembro-me de ter escrito um texto no extinto site Primeira Leitura cujo título era: “Ele não tem limites”. Tudo bem pensado, espetacularizar a própria doença para obter benefícios políticos para o seu partido não é, assim, o seu auge. Chegou mais longe com a mulher e o filho mortos.

Não, senhores hagiógrafos! Isso não é transparência, mas obscurantismo. E explico por quê. Lula torna o processo político refém de sua biografia — ou melhor: o processo político se deixa capturar por suas lendas pessoais. Na Presidência, suas batatadas não podiam ser criticadas sem que pesasse a sombra do preconceito. Agora, quando ele faz óbvia exploração política de sua doença, considera-se de mau gosto apontá-lo. É preciso que Ricardo Berzoini o faça. Até a recomendação,  em tom de ironia, para que vá se tratar no SUS, ainda que a tanto ele não esteja obrigado, é tomada como grave ofensa, “baixaria”, um verdadeiro vilipêndio!

O processo político trata Lula como expressão do sagrado. Já ele próprio nunca se importou em ser bastante profano, como se vê mais uma vez.”