Em manutenção!!!

sábado, 4 de fevereiro de 2012

SE EU MORRER NOVO...




Por Alberto Caeiro

Se eu morrer novo,
sem poder publicar livro nenhum
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa,
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.
Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.
Não desejei senão estar ao sol ou à chuva -
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo
(E nunca a outra cousa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.

Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela unica grande razão -
Porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e a chuva,
E sentando-me outra vez a porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraido.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Acabaram os ratos do Senado?

O SONO




Por Álvaro de Campos

O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim —
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.
Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
E o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.

O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.

Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.
De quem?,
Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.

Meu Deus, tanto sono! ...

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

NOS MEUS TEMPOS DE BOM CONSELHO - II


BOM CONSELHO - PE


Por Carlos Sena (*)

Quem nunca morou no interior, poder pensar: que graça tem contar histórias de uma cidade do interior? Respondo, pegando carona em Roberto Carlos: “As histórias todas são iguais, eu apenas faço delas mais uma canção de amor... Ou de dor". Mais ou menos isto é o que fazemos, posto que toda cidade do interior é feito o mar – UMA SÓ. Tem sempre uma praça, uma igreja, um bêbado, um doido e alguns LUNGAS. Na câmera do amor, flagro agora pela imaginação ZÉ BEBINHO. Todos mexiam com ele, mas ele estava ali como que a nos dizer: bebo porque é líquido, se fosse sólido eu comia. Zé não mexia com ninguém na sua vidinha de limbo – era essa a imagem que eu tinha dele subindo e descendo as ladeiras da nossa terra.

Noutro flash da imaginação, lá está ele: Zé Bia. Era o Seu Lunga de lá, pois pra tudo tinha uma resposta em sua língua ferina. Uma das “tiradas” que mais gosto dele é que ele todo domingo subia para o campo de futebol ver seu time preferido. Chovesse ou fizesse sol, lá estava Zé Bia com seu guarda-chuva. Certo dia, no nosso campo (hoje se chama arena, estádio) de futebol estava lá ele em pleno sol a pino com seu guarda chuvas. Passava um, passava outro, e sempre uma piadinha: “que chuva, heim Zé Bia?”, mas ele ali, inchando. De repente, cai um toró. Todos correram para baixo do guarda chuvas dele. Ele não teve dúvidas: desarmou o troço e ficou na chuva se molhando com todos. Diziam que ele era deficiente físico porque “Deus quando marca é pra não perder de vista”, mas era implicância. Ele não era flor que se cheirasse mesmo, mas também não fedia, bufava. Certa tarde, uma dondoca da época metida a fina foi buscar um sapato que mandou fazer a biqueira (ou a salteira, não lembro). – “Zé Bia, eu agora estou sem dinheiro trocado, mas daqui a pouco eu te pago”... – Me dê que eu troco. – Não Zé, daqui a pouco eu venho. E se foi. Ele olhou pra mim e disse: “É bem vestida por fora, mas vai ver que a calcinha está furada”!

Como toda boa cidade do interior tinha o doido. No caso o que me lembro é de Cololô – uma doida dessas que a gente diz que é varrida. Contudo não mexia com ninguém no sentido de por alguém em perigo. Cololô era doida pro mundo, mas pra ela tudo indicava se sentir a mais normal das criaturas. Certo dia, perto da semana santa, precisamente na quarta-feira de trevas, desce Cololô pela ladeira do mercado rumo ao corredor apenas de calcinha. Como que achando pouco, colocou uns peixes que levava na mão (parecia traíra ou tilápia) exatamente em cima da “bela rosa”. Desceu a calcinha até o joelho, colocou os peixes, subiu outra vez a calcinha e saiu a esmo. Imaginem só o aroma!. Os meninos da rua, quando a viam cantavam: “Cololô quebrou a perna, eu também quebrei a minha. Cololô colou com cola e eu com merda de galinha”... Ela nem tchum pra ninguém. Numa briga com outra doida, Cololô levou uma dentada nos lábios perdeu uma pequena parte do beiço, pois se nunca foi bonita, menos ainda ficou. Parecia um satanás. Essa era a doida que eu me lembro e não sei se outras havia, mas deveria sim.

Havia lugares antológicos em Bom Conselho: A barraca de Seu Belon. Servia de ponto de referencia, pois seu Belon era o único que vendia, dentre outras coisas, tamanco. Eu usei muito tamanco, pois economizava sapato no inverno e facilitava a acústica quando a gente pulava corda com tamanco. (Naquela época homem que pulava corda era “falso a bandeira”. Eu pulava de morrer e até hoje sempre fui fiel a todas as bandeira que acredito sejam boas e me dão paz e felicidade)

Um banco de praça existia igualzinho aos demais. Mas virou emblematicamente o ponto de encontro das meninas que, linguarudamente se dizia que eram “do babado”. Mas acho que era a língua grande mesmo, mesmo assim para muitos de nós estava meio estigmatizado aquele banco da nossa antiga praça. A barraca de dona Zezé era ponto de encontro dos alunos do São Geraldo. Ela ficava no lugar onde é hoje o parque ecológico da cidade que tem o nome de José Feliciano (Pai do nosso querido ex-prefeito Daniel). Destacava nesse rol de lugares, a loja de Seu Joaquim, o pai de Tiana – Seu Joaquim do Vuco-vuco. A loja de Gabira, de Zé Correntão, eram ícones do nosso comércio e das nossas fofocas ingênuas, como se pode dizer “do bem”... No alto do colégio tinha o Café Sertanejo – reduto meio suspeito, mas muito conhecido por todos, devido ao local estratégico em que passavam todos os caminhoneiros, ônibus, etc. Não podia me esquecer da barbearia do Seu Colarinho. Ficava na Rua do Correntão – aquela que sobe pelo oitão da igreja Matriz rumo ao Caborje. Outro ponto de referencia era a casa do Coronel José Abílio Ávila – um dos mais poderosos coronéis do Estado junto com Chico Heráclito de Limoeiro. Hoje ainda está la, feito lenda morta como se o passado estivesse preso naquelas paredes esperando a hora de virar curupira, boi tatá, saci pererê ou coisas do gênero.

Finalizo com a história de dona Rozena: ela morava vizinha da minha avo, dona Maria Jó, no alto do Colégio. Dona Rozena carregava em suas duas mãos dez anéis. Não adiantava dizer pra ela que era feio. Ela gostava mesmo é de dedo com  anel. Até havia quem dissesse que ela não girava bem da bola. Certa tarde chega ela chorando na porta da casa de minha avó: “Dona Maria, perdi um anel”... “Vão-se os anéis e ficam os dedos”, dona Rozena”, respondeu minha vó. "Mas pra que peste eu quero dedo sem anel", respondeu ela. Ou véia abusada!

Coisas do amor ou da dor? Pois é como disse. “As histórias todas são iguais, eu apenas faço delas mais uma canção de amor... Ou de dor”!...

Lembram de Tomires, dona de Twist – um cachorro que adorava chocolate? Depois eu conto.
Lembram do sabonete Lever? Depois eu conto uma atribuída ao nosso Ex-Prefeito e querido amigo Daniel.
Lembram de Ubirajara irmão de Qurino? Depois eu conto o porquê que deram “grama a ele”...

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(*) Publicado no Recanto de Letras em 19/01/2012

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Dilma em Cuba e a saudade do Jimmy Carter




Por Zezinho de Caetés

Hoje para mim é um dia triste. E não é porque quando saí pela manhã encontrei o laboratório, onde leio meu jornal do dia, fechado. E nem mesmo pela manchete que li numa banca de que um homem havia sido encarcerado por 20 dias num presídio aqui de Recife, simplesmente, porque seu nome era igual ao de um assassino. E muito menos pelos dentes caídos do jogador de futebol que meu amigo Jameson contou tão bem aqui na AGD .

Eu fiquei triste porque temos uma presidenta esquecida do que seja tortura, do que seja uma ditadura e do que seja solidariedade humana para com o povo cubano, que como o nosso na ditadura militar também tanto sofreu, inclusive ela, segundo ela própria. Eu hoje vi a foto dela com o Raul Castro, irmão do mais longevo tirano vivo que é o Fidel Castro.

Peço permissão para citar um cálculo feito pelo Reinaldo Azevedo, que parece macabro, mas o que não é, para uma chamada “revolução” que só cabe hoje nas cabeças dos velhos caquéticos de Cuba:

O Brasil tem hoje 190 milhões de habitantes. Cuba tem 11 milhões. Ao longo de 21 anos de ditadura, as próprias esquerdas admitem que morreram, no Brasil, no máximo, 424 pessoas - e os números são alargados: estão aí os guerrilheiros do Araguaia, os que morreram nas cidades com armas na mão e até alguns desaparecidos em razão de causas supostamente políticas, sem comprovação no entanto. Tudo bem: tomemos o número pelo teto. Em Cuba, que tem 1/17 da população do Brasil, o regime dos Castros fez 100 mil mortos. Como não dá para saber exatamente qual era a população de cada país no momento das mortes, faço as contas segundo os números atuais: no Brasil, morreu 0,23 pessoa por grupo de 100 mil habitantes. Na Cuba de Fidel, há 909 cadáveres por grupo de 100 mil. Sabem o que isso significa? Que o Coma Andante e o anão de circo que o sucedeu são 3.951 vezes mais assassinos do que os ditadores brasileiros. “Ah, mas a nossa ditadura durou 21 anos, e a de Cuba, já tem 52″. É verdade. A média de mortes, por ano de ditadura, no Brasil, seria de 20,1 pessoas; na ilha, de 1.923!!!”

Eu não fui conferir os cálculos, porque minha vivência foi suficiente para saber que sofremos, mas, sofremos muito menos do que os cubanos. E é neste país onde o poste de saias tem coragem de dizer a seguinte barbaridade:

“O mundo precisa se convencer de que é algo que todos os países do mundo têm de se responsabilizar, inclusive o nosso (…). De fato, é algo que temos de melhorar no mundo de uma maneira geral. Não podemos achar que direitos humanos é uma pedra que você joga só de um lado para o outro. Ela serve para nós também”.

Esta sentença, como já dizem, em Dilmês, que se custa a entender, menos os áulicos que estão em Cuba ou querendo ir prá lá a passeio, é o maior despropósito, mesmo que dito por alguém outro do que a Dilma. Mas, dita por ela, só mostra com estamos carentes de pessoas capazes para pelo menos assessorar esta mulher, para que ela não diga tanta besteira.

E eu que tive esperança quando ela despachou o homem de nome feio do Irã, ou quando pronunciou frases de efeitos sobre direitos humanos. Agora tenho medo que ela tenha tido uma recaída stalinista dos tempos da VAR-Palmares e volte para cair nos braços do Chaves, como vítimas solidárias das injeções canceríginas aplicadas pelos americanos em suas respectivas nádegas. Aí estaremos vivendo momentos difíceis para nossa incipiente democracia.

Vejam a postagem do Ricardo Noblat, de ontem em seu blog, que tem o título de “Saudades de Jimmy Carter (Dilma em Cuba)”, da qual também aproveitamos a foto para ilustrar esta matéria. E pensar que um dia eu teria saudade do Jimmy Carter.

“O que a militante política de esquerda Dilma Rousseff deve ter pensado quando Jimmy Carter, presidente dos Estados Unidos entre 1977 e 1981, começou a criar dificuldades para a ditadura militar brasileira cobrando mais respeito aos direitos humanos?

Ela exultou com a postura de Carter? Ou por acaso o censurou pensando assim: "Quem atira a primeira pedra tem telhado de vidro", convencida de que "não é possível fazer da política de direitos humanos apenas uma arma de combate político ideológico contra alguns países"?

Ou foi ainda mais longe e tascou: "O desrespeito aos direitos humanos ocorre em todas as nações", inclusive nos Estados Unidos. Logo... Logo Carter deveria levar em conta que o respeito aos direitos humanos "é algo que temos de melhorar no mundo de uma maneira geral"?

Na época, Carter chegou a despachar sua mulher para uma viagem ao Brasil. Aqui, ela se reuniu com o  presidente Ernesto Geisel e interrogou-o sobre denúncias de torturas e de desaparecimento de presos da ditadura. Foi um momento de humilhação para o general. E de conforto para quem a ele se opunha.

Tudo o que imaginei que a militante Dilma (vulgo Estela ou Vanda) poderia absurdamente ter pensado a respeito da intervenção de Carter em assuntos internos do Brasil foi dito ontem pela presidente Dilma Rousseff em visita à Cuba, onde vigora a ditadura dos irmãos Castro desde janeiro de 1959.

Os dissidentes cubanos torceram por uma atuação de Dilma que lembrasse a de Carter no passado, quando ele decidiu puxar o tapete de algumas das ditaduras apoiadas por seu país. Na verdade, Dilma nada tem a ver com Carter. Mas pelo menos poderia ter sido menos amigável com uma ditadura do que foi.

Essa história de não se meter em assunto de outro país é um falso dogma. Se países põem em risco a segurança do mundo ou violam princípios e valores universalmente aceitos, é compreensível que sejam criticados pelos demais. E até boicotados em casos extremos.

Lula achou que o Brasil deveria romper relações diplomáticas com Honduras quando o presidente Manuel Zelaya foi derrubado pelo Congresso, detido pelo Exército e em seguida deportado. Zelaya voltou escondido ao seu país e se abancou na embaixada brasileira. Fez dela seu bunker com a concordância de Lula.

O eclipse da democracia em Honduras durou pouco tempo. Em Cuba se arrasta há 53 anos.”