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quarta-feira, 24 de abril de 2013

MEU FILHO QUER SER DOTÔ.





Por Carlos Sena (*)

Não quero saber se você sabe do que sinto. Eu quero saber, seu dotô, se o que eu sinto é o que o senhor sabe que eu sinto. O nome da minha dor pode não ser o mesmo que o senhor aprendeu na sua escola, no seu curso superior. Seu eu sinto dor na espinhela, se ela tá caída, o senhor tem que saber dela para poder me curar. Se o senhor vai suspendê-la com estacas, com meizinha, com remédio da farmácia ou do raizeiro, não sei. E até sei. Pois seria muito bom, seu doutor, um chazinho, um remedinho natural, uma massagem, uma reza. Eu lembro, seu doutor, que um dia o senhor nem olhou pra minha cara e depois escrevinhou no seu papel que eu tinha um monte de doenças. Como se não bastasse, ainda me deu um monte de caxete pra eu tomar três vez ao dia ou quatro ou cinco – eu já nem me lembro  mais. Como se não bastasse, ainda me mandou pra lá e pra cá pra fazer exame de merda e mijo, quando pra minha caganeira, seu dotô não sei se tudo isso era preciso.

Agora tô eu aqui de novo reclamando de minha espinhela caída e o senhor me pede mais chapa que vocês chamam de Raio X. Minha espinhela caiu seu doutô porque eu carrego água nas costas, porque já sou de idade e tenho que trabalhar na roça. O senhor sabe o que é roça? O senhor já viu uma galinha em “pessoa” ou só sabe o que é caldo dela em pacotinho? Aproveitando que o senhor não olha pra mim, não me pede para tirar a camisa e me examinar direito, lhe digo que tô com uma roncha aqui na minha pá direita. Foi uma raiva, seu moço, porque meu filho ficou sem ir pra escola uma semana porque não tinha o dinheiro do transporte pra ir pra escola. Mas eu pedi emprestado e ele agora tá indo lá, na escola estudar. Mas eu já disse a ele que não queira ser dotô assim como o sinhô é. Mas se assim mesmo ele quiser ser, não seja assim não, olhe pro povo que a dor dói mais por conta da solidão.

Sabe dotô, outro dia um colega seu me perguntou se eu defeco. Depois me disse que eu estava com uma tal de sudorese (se eu não fosse tão bem casado podia imaginar que ele tava me dizendo que eu tinha mudado de mulher). Disse também que uma manchinha roxa que tinha no meu pescoço era cianose. Oxe, pensei. Não tinha nada disso não no meu pescoço, pois era apenas um periquito – aquela manchinha que a gente fica por conta de uma noite de amor, sabe como é? Eu me arretei e me levantei e fui embora. No caminho eu fiquei matutando, pensando que meu filho queria ser dotô. Mas se ele quiser ser igual esse dotô que não sabe de gente eu vou fazer tudo pra ele não ser. Nesse dia, em conversa com meu filho depois da janta, ele logo me explicou que queria ser médico da família. Aí minha cabeça deu um nó. Que peste é médico da família Julinho. Eu sou Julio e meu filho é o Julinho, sabe como é. Pai é doido por ter um filho homem e esse é o meu Julinho. Ele gosta de estudar. Às vezes eu fico com dó dele que fica estudando com a luz de vela ou de um cadieiro alcoviteiro, sabe como é? Daqueles de feira de cidade do interior. Pois é. Ele me falou do médico da família. Confesso que não entendi muita coisa não, mas meu filho tava falando a verdade. Porque ele me conhece e sabe que eu tenho sofrido muito com a minha família quando a gente adoece e precisa do SUS. Num tô falano do SUS não, num sabe. Mas é que os douto do posto são tudo menino fino que não gosta de pobre. Tem um médico lá no posto que todo mundo quer ele. Mas eu não consigo marcar uma ficha com ele. Dizem que ele demora muito com cada pessoa lá dentro da salinha. Dizem até que ele passa chá, que ele não é contra benzedeira nem contra parteira. Quase num passa ensame. Agora, com lombriga,  ninguém com ele fica, pois  logo ele tem o remédio certo e baratinho, baratinho. Ele até sabe de espinhela caída, de panarisso, de pustema, de farnizin, emorróia, de calombo no braço, de tosse braba. Soube também que ele se dá bem com o padre e com o macumbeiro e também com Dona Zefa, a mulé que benze com uns matinho na mão. Esse médico  faz de tudo pra num passar receita de farmácia. Ele gosta das plantas, das verdura, das fruta. Tudo isso meu filho me contou. Antes que eu lhe perguntasse ele foi logo me dizendo: “fique tranquilo papai que eu vou ser dotô igualzinho esse aí que o senhor gosta e que não pôde ainda se consultar com ele. Eu vou ser dotô que vai na casa do povo para que o povo não precise ir ao posto. Nessa noite eu dormi o sono dos justos. Acordei cedo e vi meu filho ainda estudando a luz de cadieiro, para economizar na conta da luz. Eu já disse a ele: estude com a luz elétrica. Não se preocupe com a conta no final do mês que eu me lasco todinho – feito maxixe: em quato, mas você não deixa de estudar por conta dela. Sabe, filho, disse eu, a luz de candeeiro tem uma fumaça que pode afetas suas vistas. Se isso acontecer, você não vai poder ver melhor seus pacientes quando você for dotô de família do jeito que cê tá dizendo pra eu...

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(*) Publicado no Recanto de Letras em 15/03/2013

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