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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

OS ANJINHOS




Por José Antonio Taveira Belo / Zetinho


Termo usado no interior do Nordeste, principalmente no interior de Pernambuco, quando uma criança morre nos primeiros anos ou meses. São crianças que morrem prematuramente e que são sepultadas em caixãozinho e são levadas por crianças até o cemitério. No idos anos de 50, do século passado, era comum na cidade de Garanhuns e em minha querida terra Bom Conselho acontecer estes enterros na cidade. A noticia da morte de uma criança era alardeado na cidade e as pessoas vinham até a casa dos pais levarem o seu apoio e lamentar o acontecido. Durante o dia a casa se enchia principalmente de crianças da redondeza para olhar de perto aquela criaturinha deitada sem nenhum movimento. O pequeno ataúde todo forrado de branco, representando a pureza arrodeado com rosas brancas e ou margaridas. A criança de olhos fechadinhos, vestida um timão branco ou azul, cor do manto de Nossa Senhora e mãozinhas postas sobre o peito. Na pequena cabeça é adornada com um diadema com florezinhas brancas.  A mãe lá no fundo do quintal com a cabeça coberta com um lenço azul arrodeadas das comadres que vieram lhe consolar, choramingava, com a perda daquela criaturazinha que saíra do seu ventre, e mais tarde seria o apoio em sua velhice. Os irmãos mais novos corriam de um lado para outro com os outros garotos, sob o olhar reprovado dos mais velhos, como se fossem festa. Iam sorridentes e de vez em quando paravam em frente ao pequeno caixão branco na sala de visita, posto em duas cadeiras. O seu Jose cuidava do enterro para logo mais às quatro horas da tarde. Atendia uma ou outra família que lhe vinha ao seu encontro. Olhava para o relógio de vez em quando já se preparando para a “procissão” que levaria aquela criaturazinha ao “campo santo” São Miguel. A tarde prometia chuva e o frio já era intenso. A garoa começava a aparecer, mas nada impedia que as pessoas acompanhasse o pequeno enterro. Preparavam-se os cânticos que eram cantados durante o cotejo. Organizava logo de imediato quem levaria aquele pequeno caixão branquinho como a neve. Escolhia entre aquelas crianças maiorzinhas e aqueles chamados se orgulhavam de conduzir aquele pequena criatura a sua morada eterna. Às quatro horas da tarde começava os preparativos. A mãe vinha lá de dentro dar adeus àquela criatura que saíra do seu ventre, abaixando a cabeça dando um beijo na testa fria e enxugando as lagrimas com um pano de prato que lhe pendia do ombro; O pai olhava com ternura e saudade daquela pequena criatura, que por certo seria o seu orgulho. As crianças e as pessoas enchiam a sala arrodeando o pequeno caixão. A rua já estava cheia de pessoas. Faziam duas filas indianas e cada pessoa levava nas mãos um raminho de flores, brancas e amarelinhas e começavam a subir a Rua do Corrente esburacada e ladeada pelo mato, pois somente existiam pequenas casinhas. Os cânticos puxados por mulheres com a cabeça coberta pelo véu branco trazia o sentimento de saudade. Ao chegar ao topo da Rua do Corrente, no largo tinha a bodega do Seu Armando. Era o ponto de parada para o descanso. As crianças colocava o pequeno caixão no chão e iam até o balcão onde eram distribuídos confeitos, mariolas e bolacha de milho. Cada criança saia satisfeita e corriam para o seu lugar para acompanhar o restante do caminho. Já anoitecendo desciam a ladeira, com alguns meninos parando para comer a guloseima que iam a suas pequenas mãos. Ao chegar ao cemitério todos iam diretamente à pequena cova aberta perto do muro da entrada. Ali se encontra o coveiro que de uma só vez debruçava com o pequeno caixão nas mãos e ali depositava. Cada um dos presentes apanhava um pouco de terra e jogava no caixão branquinha que a cada momento era coberto pela areia preta. Saiam todos conversando e as crianças corriam para suas casas debaixo de uma garoa e com focos de luz nas pequenas casas.

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