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quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

'California dreamin'





“California dreamin’

POR FERNÃO LARA MESQUITA

Queixam-se do Congresso, mas o nosso maior problema está no pedir, e não no que nos é entregue. A falta de qualquer referência não europeia nos põe mais longe da saída que todos os outros percalços somados.

A relação interpessoal proporcionada pela internet, lamentava-se o franco-uspiano Fernando Henrique Cardoso num programa que comparava os fenômenos Trump e Bolsonaro na TV na virada do ano, bagunçou um coreto que foi armado para e pela intermediação dos partidos (sustentados pelo governo), através das TVs (outorgadas pelo governo), da imprensa e do resto desse nosso “sistema de representação do povo” sem povo. Do outro lado da mesa esbravejava um representante da outra corrente europeia com que nos alternamos quando a terceira, a abertamente antidemocrática, dá folga. “Prendam todos! Não deixem nenhum à solta”! A provocação era trancafiar FHC também, mas essas duas faces da nossa “persona” europeia se odeiam, mas são gêmeas. Para uma, “o sistema” é bom, o que falta é só política. Para a outra, “o sistema” é bom, o que falta é só polícia. Nutrem ambas um mal confessado horror à falta de glamour e refinamento da igualdade não intermediada. À vida regida pela base da sociedade, e não pela “autoridade dos melhores” (aristo-kratia). Ao império sem filtro da lei, à meritocracia e à destruição criativa.

Mas nós falamos, afinal, do “pior dos regimes políticos, excluídos todos os outros”. E é aí que encaixo Roberto DaMatta relatando sua própria experiência de brazuca emigrado para os Estados Unidos no artigo Encruzilhadas, publicado neste jornal nesta quarta-feira, 16, em que escrevo. “Passar da desigualdade para o igualitarismo requer acrobacias sociopsicológicas (...) impossíveis de praticar sem um exame aprofundado (...) de quem fomos e de quem somos porque os costumes são tão coercitivos quanto as leis”. Não temos conserto dentro desse “passado aristocrático absolutamente eurocentrado de imperadores (...) e a massa negra escravizada (...) que nossos pensadores viam (e inconfessadamente continuam vendo até hoje) como natural.”

“A reforma previdenciária”, resumia DaMatta, “tem de fazer parte de um movimento arrebatador. Trata-se, no fundo, de uma guerra do Brasil contra o seu lado equivocado.”

Os Estados Unidos menos americanos, o federal, estão à beira da disrupção como farsa pela mão de Donald Trump, O Tapeador, mestre da manipulação das redes. Já a Europa saiu do feudalismo, mas o feudalismo nunca saiu da Europa. De lá vieram e nos foram impostos “os costumes tão coercitivos quanto leis” que estão aí até hoje, mas nós já nem sentimos. O Brasil pós-Tiradentes passou a censurar com fúria a nossa americanidade essencial de povo até então sem rei e nunca mais parou. E quanto mais privilégios os nossos “representantes do povo” independentes do povo “adquirem” e transformam em lei, mais se inverte e perverte a hierarquia povo-governo que a democracia nasceu para estabelecer até transformar-se nesse esdrúxulo feudalismo constitucional a que acabamos por nos acostumar.

Para termos democracia será preciso, antes de mais nada, aprendermos a identificá-la. “Esse sistema sempre em débito consigo mesmo, inacabado e caracterizado por permanentes ajustes”, na descrição de DaMatta, define-se essencialmente pela quantidade de poder que o eleitor tem antes e depois do momento da eleição para levar adiante esses ajustes. E o brasileiro não tem nenhum.

É essa a doença. Corrupção é só ausência de democracia e não vai acabar apenas com polícia. Não é da Europa que a resposta virá. A democracia real é a anti-Europa. Nasce em função da ausência do rei e caminha de oeste para leste. Da América impôs-se à Europa. Da Costa Oeste impôs-se à Costa Leste dos Estados Unidos. No Brasil será parecido. O último a entrar será o da praia.

Nos primeiros dias deste ano a Califórnia, que ainda no século 19 começou a revogar o modelo estático que nos oprime, contabilizava a safra de democracia dos 12 meses de 2018. Que Trump, que nada! 726 leis de iniciativa popular, referendos de leis dos Legislativos, votações de retomada de mandatos (recall), eleições de retenção de juízes e outras decisões foram diretamente votadas pelos californianos nas nove “eleições especiais” convocadas para esse fim, além da nacional de 6 de novembro.

Dentro do sistema distrital puro, começando pela célula do bairro que elege o board de pais de alunos que vai gerir a escola pública local e seguindo pelos distritos eleitorais municipais (uma soma dos de bairros), estaduais (uma soma dos municipais) e federais, cada pedacinho do país elege apenas um representante para cada instância de governo. Como o que define o distrito é o endereço do eleitor, todo mundo sabe exatamente quem representa quem. E sendo a identificação tão clara ele retém o direito de cassar o mandato do seu representante a qualquer momento mediante a coleta de assinaturas e a convocação de “eleições especiais” só no distrito afetado para decidir essas e outras questões.

As que envolvem impostos não têm exceção. Nenhum nasce ou se mexe sem voto. As que ordenam obras públicas e decidem como serão financiadas, idem. Os futuros usuários decidem se as querem ou não no modelo e pelo preço proposto e estabelecem, uma por uma, quem, como e quando vai pagar por elas. Valor do IPTU, construção ou não de uma ponte, valor do salário mínimo local, reajuste de planos de saúde, liberação ou não da maconha, normas para compra e uso de armas, tudo é decidido no voto em cada distrito eleitoral municipal, estadual ou federal somente por quem vai usar cada bem, pagar por ele ou ser obrigado a se submeter à lei em exame.

Olhado a partir da meca planetária da inovação política, que não por acaso é também a meca planetária da inovação tecnológica, o mundo não parece, portanto, tão disfuncional quanto Fernando Henrique o vê. Essa democracia e as redes têm tudo a ver. Nós é que, desde 1808, andamos com a cabeça sabe-se lá onde.

Mudar o País de dono, vulgo democracia, é o que cura o Brasil.”

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terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Armas e direitos





“Armas e direitos
        
POR DENIS LERRER ROSENFIELD

Quem é contra o direito à legítima defesa? Não, certamente, a imensa maioria dos brasileiros que votaram no hoje presidente Jair Bolsonaro. Tiveram consciência da necessidade de resgate de um direito republicano que fora usurpado por sucessivos governos, com base em posições de esquerda e no politicamente correto. Saliente-se, aliás, que boa parte dos que são contra esse direito vive em condomínios com forte segurança e circula em carros blindados. É a elite, embora seu discurso seja supostamente antielitista!

O novo governo, em seu decreto, foi extremamente sensato, regrando objetivamente a posse de armas, deixando pouca margem para interpretações subjetivas ou politicamente corretas. Disciplinou a posse em domicílios e estabelecimentos comerciais de tal modo que cada pessoa possa ter quatro armas. Aliás, nem muito é, pois se uma família possuir duas ou três casas e igual número de negócios, sua cota já estará preenchida. Trata-se, diria, de um direito primeiro, o de a pessoa poder, em seus lugares próprios, usufruir sua vida, defendendo seu corpo, sua família e seu patrimônio.

Sem isso o cidadão fica claramente desprotegido, à mercê de qualquer ameaça. Quem se beneficia dessa situação são os bandidos, os criminosos, que podem invadir qualquer domicílio e estabelecimento sem medo algum. Meliantes têm “direito” à violência e à apropriação de corpos e bens alheios!

O Estatuto do Desarmamento cometeu a proeza de desarmar as pessoas de bem, deixando os criminosos à vontade, esses se armam a seu bel-prazer. Isso quando não são auxiliados por esses representantes do politicamente correto, que correm em seu apoio toda vez que são mortos, feridos ou presos. Quando um policial morre, silêncio absoluto; quando um criminoso sofre o mesmo destino, surge imediatamente uma imensa barulheira, como se seus supostos direitos não tivessem sido observados. É um mundo invertido!

Os politicamente corretos adoram estatísticas, sobretudo para triturá-las e enganar os incautos. O fracasso do Estatuto do Desarmamento é patente. Temos 15 anos de sua vigência e a taxa de homicídios ultrapassa 60 mil por ano. Mais do que o número de soldados americanos mortos no Vietnã! Falar que a nova política governamental vai piorar a situação soa risível!

A ideia de que povo armado piora o índice de homicídios é outra falácia desarmamentista. Segundo dados do site GunPolicy.Org, estima-se que existam entre 2 milhões e 3 milhões de armas de fogo em mãos civis na Suíça, cuja população é de pouco mais de 8 milhões de pessoas. Proporcionalmente, esse país é um dos cinco mais armados do mundo. Pois bem, em 2015 a Suíça registrou apenas 18 homicídios por arma de fogo.

No caso do Paraguai, país vizinho, os números são igualmente importantes. O país tem quase 7 milhões de pessoas e mais de 1 milhão de armas de fogo em mãos civis. Em 2014 o Paraguai registrou 318 mortes por armas de fogo. Proporcionalmente, há mais armas de fogo em mãos civis no Paraguai do que no Brasil, porém há muito mais mortes por armas de fogo no Brasil do que no Paraguai. A taxa de mortes por armas de fogo no Brasil foi de 21,2 por 100 mil em 2014; no Paraguai, 4,7 por 100 mil também em 2014. Interessante, não?

Os desarmamentistas costumam argumentar que após o Estatuto do Desarmamento houve significativa queda na taxa de crescimento de homicídios por armas de fogo. Ou seja, ainda que as taxas tenham mantido a tendência de crescimento, teria havido expressiva desaceleração, o que não deixaria de ser, em todo caso, paradoxal!

Acontece que essa desaceleração só é percebida quando se observam os dados nacionais, em que o Estado de São Paulo, onde as mortes por armas de fogo desabaram no período, ajuda a derrubar o índice nacional. E desabaram por uma política de Estado, centrada principalmente na inteligência e na repressão ao crime. Agiram contra os criminosos, e não contra as pessoas de bem!

Há, porém, muitos Estados onde os homicídios por armas de fogo aumentaram vertiginosamente em plena vigência do estatuto e desse Zeitgeist desarmanentista. Vejamos: de acordo com o Mapa da Violência, em 2004 a Bahia tinha 11,7 homicídios por 100 mil habitantes. Em 2008 o índice subiu para 26,4. Em 2010 alcançou 32,4. O Estatuto do Desarmamento é de dezembro de 2013, promulgado pelo ex-presidente Lula, hoje condenado e na cadeia.

Estados como Rio Grande do Norte e Maranhão registraram aumento de homicídios por armas de fogo de, pela ordem, 379,8% e 300% no período de 2004-2014. Também houve crescimento expressivo no Pará, 96,9%; em Goiás, 70,6%; e no Rio Grande do Sul, 38,6%.

Logo, a diminuição no estoque de armas não causou a diminuição dos homicídios. Tampouco o lema “mais armas, mais mortes”, frequentemente enunciado pelos defensores do desarmamento, é verdadeiro. O Brasil possui muito menos armas em mãos de civis na comparação com os EUA, mas quase seis vezes mais homicídios por armas de fogo. Diz-se que nos EUA existem mais de 350 milhões de armas. Fosse o lema verdadeiro, os EUA seriam o pior lugar para viver no planeta!

Por último, há uma questão moral em jogo. Instrumento não mata! Quem mata é quem o manuseia. Há mais mortes por automóveis do que por armas de fogo! Vamos bani-los? O que se faz? Estabelecem-se regras para a direção de veículos, da mesma maneira que se passa a fazer, agora, com a flexibilização do Estatuto do Desarmamento! Facas tornaram-se, nestes últimos anos, um instrumento usado para assassinatos. Alguém pensa em suprimi-las? Imagine-se cozinhar sem facas!

Pessoas que fazem mau uso de suas armas, assim como de seus veículos ou de suas facas, devem ser responsabilizadas por suas ações. É o processo de escolha em ato. Cada um deve assumir o que faz. Não cabe ao Estado tutelar o comportamento individual!”

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segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Filho do Mourão? Problema maior é no BB





“Filho do Mourão? Problema maior é no BB

Por Roberto Macedo

Tenho grande apreço pelo Banco do Brasil (BB), pois ele foi muito importante na definição do rumo da minha vida. Quando concluí o ensino médio trabalhava noutro banco, em Belo Horizonte, e procurava realizar um sonho na época típico de mineiro, o de ser funcionário do BB. Um concurso foi aberto e me inscrevi. Fiz o mesmo no vestibular para a Faculdade de Economia da UFMG, passei e comecei o curso. Depois veio a aprovação no concurso do BB, mas ser nomeado para Belo Horizonte era muito difícil, pois no banco havia muitos mineiros funcionários de carreira que pleiteavam remoção para essa cidade.

Pedi então ao BB a nomeação para qualquer cidade com faculdade de Economia. Consegui uma entrevista com o chefe de pessoal do banco, cuja sede ficava no Rio de Janeiro. Ele me levou à janela da sua sala, apontou o prédio do Ministério da Educação (MEC) e me orientou a ir lá e obter uma relação de cidades com faculdade dessa área. Chegando ao MEC, fui atendido por um funcionário da portaria. Ele ficava atrás de um balcão, curvou-se, pegou e me entregou um livreto com estatísticas sobre o ensino superior onde havia a informação desejada. Voltei ao BB e o referido chefe me disse: “Vou ver o que posso fazer por você”. Uma semana depois recebi um telegrama do banco dizendo que me apresentasse na sua agência Centro, em São Paulo, para começar a trabalhar.

Sorte enorme! Eu teria ido para qualquer cidade com a faculdade desejada, mas creio que noutras cidades, até mesmo na capital mineira, eu não teria as mesmas oportunidades de ascensão educacional, profissional e social que encontrei em São Paulo.

Transferi-me da UFMG para a USP, mas o primeiro dia de trabalho no BB freou um pouco o meu entusiasmo. Fui designado para trabalhar com um líder sindical, de nome Odilon. Quando soube de meu passado como bancário, disse: “Então, você é um bancário reincidente”. E mais: “Você chegou atrasado. Hoje a única coisa que presta aqui é a aposentadoria”.

Decidi pelo vou ficar para ver como é que fica. Na USP optei pelo curso noturno e no Banco do Brasil, pelo regime de seis horas diárias. Como tinha as manhãs livres para estudar em casa, tive um desempenho muito bom. No meio do curso, tornei-me estagiário de um ótimo professor, hoje muito conhecido, o Affonso Celso Pastore, que foi presidente do Banco Central. Com ele passei a entender melhor o trabalho de um economista pesquisador, e gostei tanto que meu desempenho no curso foi ainda melhor. No final dele fui convidado para ser professor assistente da mesma cadeira em que trabalhava o Pastore. Depois vieram a pós-graduação, a bolsa para doutorado nos Estados Unidos e a admissão na Universidade Harvard. Então pedi demissão do banco, optando pela carreira acadêmica na USP. Meu pai, que também foi bancário, sempre achou que eu deveria ter ficado no BB.

Tenho, assim, uma dívida com esse banco, pois acrescentou vários degraus no avanço da minha carreira educacional e profissional, com o que passei também pelo que os sociólogos chamam de ascensão social. E não fui o único. Conheci vários outros ex-funcionários do BB que também seguiram caminho similar, como o jornalista Alexandre Garcia, o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega e o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Carlos Ayres Britto.

Nunca fechei minha conta no BB, já fui um microacionista dele e sempre me interessei pelo noticiário a seu respeito. A última notícia que vi, entretanto, causou-me grande espanto. Foi a de que um filho do general Mourão (vice-presidente da República), funcionário do Banco do Brasil, de nome Antonio H. R. Mourão, que ali ganhava R$ 12 mil por mês como assessor empresarial, fora promovido a assessor especial do novo presidente do BB, Rubem Novais, passando a receber R$ 36 mil (!) por mês. E mais: segundo o site O Antagonista, esse funcionário também “(...) ingressará no famoso Programa de Alternativas para Executivos em Transição (Paet), que garante bônus de ‘saideira’ para quem ocupou cargo no banco por dois anos. O valor desse benefício é de 2 milhões de reais, em média”.

Minha primeira reação foi também de dúvida: será que o meu pai não estava certo? Em vez de optar pela USP, não teria sido melhor ir para Brasília e no BB buscar algo lá no topo? Mas logo caí na real: como é que o Banco do Brasil se dispõe a pagar a um consultor esse salário, muito perto do de um ministro do Supremo Tribunal, que passou a R$ 39.300 com o último reajuste? Pelo que sei de remunerações do mercado de trabalho, por metade desse valor esse consultor já seria muito bem pago. E o Paet? Acho que é de fazer inveja até mesmo a altos executivos de bancos privados, mas é problema de seus acionistas se neles houver algo do tipo ou coisa melhor.

O noticiário sobre ao assunto focou mais no pai do que no filho, aquele procurando justificar a nomeação, mas também reconhecendo que o salário é muito alto, conforme matéria no mesmo site. Como o acionista controlador do BB é o governo federal, ele não pode permitir desatinos desse tipo. Assim, o problema maior está no BB. Soube de funcionários do banco que com a ascensão do PT ao poder a corporação de funcionários ganhou maior força, outorgando-se uma série de vantagens que não se coadunam com a gestão ética de um banco dessa natureza. Soube também que, além do alto salário e do Paet, Antonio Mourão terá direito à participação nos lucros atribuídos à diretoria a que está ligado.

Mantenho a esperança de que Bolsonaro poderá fazer um bom governo. Mas para merecer essa avaliação a posteriori ele não poderá deixar de realizar uma profunda revisão e reforma da gestão de recursos humanos (RH) das várias instituições governamentais. Não será surpresa se encontrar outros disparates nas remunerações depois de quase 14 anos de gestões petistas.”

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sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Gradualmente, e aí, de repente





“Gradualmente, e aí, de repente

 Por Silvio Meira

Tim O’Reilly abre um de seus textos com um personagem de Hemingway respondendo como faliu: “gradualmente e, aí, de repente”. É também uma descrição de como o futuro aparece. Ele chega “gradualmente (por muito tempo, quase sempre) e, aí, acontece de repente”. É por isso mesmo que quem não presta atenção em sinais fracos acha que o futuro, qualquer um, chega de uma hora pra outra.

Não foi num só dia que os pagamentos móveis na China saíram do zero para US$30 trilhões por ano. Não é observando os EUA, onde o mesmo tipo de transação está nas dezenas de bilhões por ano, que se vai entender o futuro deste mercado. O futuro não é só um tempo, é um contexto, que envolve lugares, suas regras e possibilidades, suas fundações e potencial. Por isso que, mesmo surgindo na África nos anos 2000, o formato africano de “dinheiro digital móvel” não se tornou global.

Não acho que muita gente duvide, hoje, que os veículos do futuro serão autônomos. Também não conheço quem acredita que eles serão ubíquos de uma hora pra outra. Porque ainda há muita coisa pra acontecer antes de haver carros sem motorista rodando em Taperoá, na Paraíba. Isso vai ocorrer muito mais rapidamente nuns lugares do que noutros; o futuro, mesmo quando chega de repente, não chega em todo canto ao mesmo tempo, nem pra todo mundo.

Mesmo quando se considera serviços públicos, que deveriam ser universais, o tempo é um problema: a rede elétrica começou em 1881 no Reino Unido e serve 86.8% da população mundial. Mais de 130 anos depois, há 13% da população sem acesso a eletricidade. Por quê? Contexto – ou falta dele. A internet comercial apareceu há 25 anos e atende 51.3% da população mundial. Em que futuro será universal? Com as taxas de adesão à rede caindo como estão, não será antes de 2050. Danado.

Mas o futuro não é só “gradual e de repente...” quando em tecnologias e seus usos. O trabalho, em transições provocadas pelas transformações tecnológicas, muda lenta e, aí, radicalmente. E isso está ocorrendo agora, com muitas empresas sem saber o que está acontecendo e, entre as que imaginam que sabem, como tratar o futuro do trabalho e as pessoas que são responsáveis por ele. Porque empresas são abstrações; os negócios que elas fazem são redes de pessoas, que trabalham.

O trabalho gasta 100 mil horas de uma vida e seu presente e futuro já passam por mudanças rápidas e radicais. Isso levou a NASA a criar um arcabouço para que suas pessoas se tornem adaptáveis, resilientes, produtivas e ousadas, para enfrentar o “de repente, todo dia”. Nem todos os negócios têm que pensar da mesma forma que a NASA, claro, mas todos têm que redesenhar seus processos e métodos, suas arquiteturas de criação e entrega de valor, no contexto do presente e futuro do trabalho das suas pessoas. Bem, nem todos: só os que – de repente – querem ter algum futuro...”

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quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

A Reforma da Previdência e os milagres da Constituição





A Reforma da Previdência e os milagres da Constituição

Por Zé Carlos

Eu não sou e nunca fui um especialista em Previdência Social. No começo da vida profissional, num trabalho escolar aqui outro ali, tentei estudá-lo, o que, penso, fez também o Ministro da Economia, Paulo Guedes, que foi meu colega de classe (não, não sou íntimo dele; deve fazer uns 40 anos que não nos vemos), e hoje tem a chance de salvar o Brasil propondo uma Reforma para este setor, que foi esculhambado pela nossa Constituição Cidadã, sendo a única no mundo que promete a felicidade para todos, com trabalho ou sem trabalho.

Veio a calhar, o texto que reproduzo abaixo, do Fernão Lara Mesquita, que detalha alguns aspectos do que vivemos atualmente, com o início de um novo governo, que, para ou bem ou para o mal (espero que para o bem) descobriu que sem uma mexida na Previdência Social, não iremos muito longe.

No entanto, muitos (o PT não conta porque nunca prestou atenção e nem fez nada para resolver o problema), acham ainda que o importante é cumprir nossa Constituição, mesmo que isto nos leve à insolvência fiscal e consequentemente ao desastre econômico e social. O que tenho medo, neste governo, é que o Bolsonaro tome ao pé da letra o seu dito “... e Deus acima de todos!”, e fique esperando um milagre do João de Deus, quando o Paulo Guedes já demonstrou que  “almoço grátis” Deus só oferecia no Paraíso. O lema nesta terra cruel está mais para “Quem não trabalha não come!”, que nossa Constituição revogou.

Eu diria que, sempre na “mediocridade” dos ditos populares que “vão-se os anéis e ficam os dedos”. E os dedos ainda podem ser salvos, mas, os anéis o PT levou, enganando o povo, ao dizer que os estava trocando por outros mais bonitos, como se fosse milagre. Infelizmente, o Padre Quevedo morreu e não pôde acompanhar a descoberta das mutretas atrás destes pseudos-milagres. Esta é a tarefa do Capitão, que tem a chance de mostrar a fraude desta “justiça social” de fancaria. E, como diz o articulista abaixo, sem a ajuda do Guedes e uma reforma da previdência que puna os privilégios das corporações, estaremos fritos.

Fiquem então com o Fernão e meditem sobre se é possível a vida fora do Paraíso criado pela nossa Constituição Cidadã:



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“O que falta para salvar a pátria
        
Por Fernão Lara Mesquita

Não há quem no serviço público brasileiro não tenha sido tocado ao menos pela corrupção institucionalizada, aquela que oficialmente não é tida como o que é porque a lei é o seu instrumento de ação. Nem mesmo os militares passaram incólumes por essas três décadas de elevação da cultura do privilégio à força em torno da qual tudo o mais gravita no País oficial desde a Constituição de 88. Mas se havia qualquer dúvida sobre o valor da reserva moral que lhes restou, ela acabou com os fatos que se seguiram ao primeiro embate de 2019 entre Brasília e o Brasil.

Como acontece sempre na formação de qualquer governo, a “área econômica” é a única que chega ao dia da posse com todas as suas referências fincadas exclusivamente no País real. Brasília, de onde, com as regras eleitorais vigentes, obrigatoriamente sai o núcleo dos grupos que se substituem no poder, não sente o Brasil. Lá os salários sobem e as carreiras progridem por decurso de prazo tão certo quanto que o sol nascerá amanhã. Nunca aconteceu com seus familiares, nunca aconteceu com seus amigos, nunca aconteceu com seus colegas de trabalho, nunca aconteceu com eles próprios: a figura do “andar para trás” simplesmente não existe no modelo cognitivo do típico cortesão de Brasília nem como exercício abstrato de antecipação de uma possibilidade, simplesmente porque essa possibilidade não existe.

Não é de surpreender, portanto, que para todos quantos a cada nova conta a ser paga corresponde um novo “auxílio” arrancado ao favelão nacional o “modelo de capitalização” na Previdência – que em português plebeu quer dizer pagar por aquilo que se vai consumir – pareça uma inominável maldade. Essa relação, para eles, nunca foi obrigatória.

Mas agora a realidade está aí nua e crua. Financiar os 30-40 anos de ócio que o brasiliense aposentado típico vem colhendo sem nunca ter plantado custou ao Brasil passar da economia que mais crescia para a economia que mais decresce no mundo hoje, mas Brasília nem percebeu. Brasília “cresce” sempre, chova ou faça sol, por “pétrea” determinação constitucional. E, na dúvida, lá vem o cala-boca: “A Constituição não se discute, a Constituição cumpre-se”.

Só que não.

Agora, à beira do precipício, até Brasília já sente a vertigem. O inchaço do funcionalismo nos 13 anos de PT transbordando em progressão geométrica para as aposentadorias na flor da idade que congelam os salários públicos no tope de cada carreira por quase meio século mergulhou essa previdência sem poupança num processo de metástase. Com quase 40% do PIB entrando, já não sobra sequer para pagar aos aposentados mais os seus substitutos com o salário de entrada. E como quando falta dinheiro para pagar a funcionário no Brasil é porque já faltou antes para tudo o mais – hospitais, escolas, segurança pública, infraestrutura –, não há mais como não agir.

Velhos hábitos demoram para morrer, mas os embates da primeira semana de governo deram indicações animadoras da força da humildade de Jair Bolsonaro. Ele vacilou quando se calou diante do sindicalista Lewandowski infiltrado no STF. Ele vacilou quando recusou vetar o aumento dos incentivos para a Sudam e a Sudene. Ele tem vacilado diante dos “quiéquiéisso companheiro” dos amigos da vida inteira das corporações militar e política, de que faz parte. Ele vacilou, até, diante do “fogo amigo” contra Paulo Guedes. Mas Paulo Guedes é um homem de contas. A transição e os primeiros dias de governo têm sido uma avalanche de números. E com números não se discute. Assim que Guedes se decidiu a dar o limite dos “bailes” que estava disposto a levar de Brasília parece ter caído a ficha e o presidente teve a nobreza de rever sua posição. Realinhou o governo inteiro à Prioridade Zero de deter a hemorragia previdenciária e o Brasil entrou em festa para deixar bem clara a fundamental importância que essa atitude teve.

Brasília pode reagir a Onix Lorenzoni, mas o Brasil reage a Paulo Guedes. E se confundir essas prioridades o governo comete suicídio e nos leva junto. Não haverá segunda chance. Não há tempo. Privatizações e descomplicações liberalizantes da vida produtiva poderão acelerar o processo. Mas o que dirá se haverá ou não processo a ser acelerado é o desenho da reforma da Previdência. E o lucro ou o prejuízo serão colhidos inteiros a partir do momento em que esse desenho for conhecido.

Tudo isso parece ter-se tornado subitamente claro para o governo. Tocados nos brios, os militares, que estão longe de desfrutar os maiores entre os privilégios do Brasil com privilégios, embora vivam no que para o País real não entra nem em sonho, declaram-se dispostos a puxar a fila dos sacrifícios para dar o exemplo. É um gesto inédito na História do Brasil e absolutamente decisivo. Se confirmado, cala para todo o sempre a boca dos detratores da instituição. Já o campo do Legislativo reflete, para bem e para mal, a diversidade do País. Mas quando chamado ao sacrifício com o devido empenho, no governo Temer, prontificou-se a responder majoritariamente a favor do Brasil. Foi detido pelo golpe Janot-Joesley que abortou a votação decisiva na véspera de acontecer. Desde então, sentindo espaço, suas piores figuras voltaram a dominar a cena. Mas um novo Congresso vem aí e, no extremo, Poder eleito que é, ele sempre faz o que o Brasil diz que quer que ele faça.

Falta, agora, o movimento da inefável Versailles da privilegiatura que tem sido o Poder Judiciário. Não haverá avanço na segurança pública se não houver avanço na economia. E não haverá avanço na economia se não houver avanço na Previdência. Sem ambos, não haverá pacote de leis nem articulação de forças de repressão capaz de deter a quase guerra civil contra o crime organizado que vivemos. Mas se o ministro Sergio Moro e seus fiéis escudeiros do Ministério Público, seguindo o exemplo dos militares, liderassem o movimento de devolução de privilégios que suas corporações há muito devem ao Brasil, a pátria com toda a certeza estaria salva.”